No charco
Os últimos dias têm sido férteis em acontecimentos que reflectem de forma lapidar o estado de degradação a que chegou a vida nacional, graças ao contributo de personagens que certamente não ficarão para a posteridade mas que já têm lugar garantido no caixote do lixo da História.
Refiro-me, concretamente, à sucessão de episódios, cada um mais degradante do que o outro,
ocorridos em torno da presença ao largo da costa portuguesa do barco da associação holandesa Women on Waves (WOW), mais conhecido como «barco do aborto».
O objectivo da WOW, que não teve quaisquer dificuldades em aportar em países como a Polónia ou a Irlanda, era promover o debate em torno da despenalização do aborto e, em águas internacionais, disponibilizar a pílula abortiva a mulheres interessadas em interromper a gravidez até às seis semanas e meia.
Os promotores da iniciativa desconheciam certamente que Portugal, para além de um governo hipócrita, demagógico e falsamente puritano, dispõe de um presidente e comandante supremo das forças armadas que mete a rainha de Inglaterra num chinelo, de um primeiro-ministro do jet-7 nocturno que em mês e meio foi três vezes de férias, de um ministro amante de jaguares e outras extravagâncias arvorado em guardião da moral e dos bons costumes, e de políticos comentadores habilitados nos salões de beleza a debitar sobre a problemática feminina.
A ignorância desta realidade tipicamente nacional fez com que o navio se atrevesse a pedir autorização para entrar em águas territoriais portuguesas. Vá de retro, Satanás!, bramou Portas do seu Ministério da Defesa e dos Assuntos do Mar, invocando a segurança nacional e a saúde pública sem passar cavaco a ninguém, designadamente às autoridades competentes para se pronunciarem sobre a matéria, seus colegas de governo e maioria, assim pronta e decididamente remetidas à sua insignificância.
Santana Lopes ainda veio deitar água na fervura admitindo a reabertura do debate sobre o aborto, um dia destes, quando calhar, na Assembleia da República, enquanto Sampaio se queixava à imprensa de não ter sido visto nem achado na questão do barco. Nada de grave. Portas deu o assunto por encerrado e Lopes nem pestanejou; quanto à presidencial figura, ouviu as explicações na reunião de quinta-feira com o chefe do Governo e não achou motivos para mais intervenção.
Mas o país não seria o que é sem um debate televisivo sobre o assunto, obviamente sem a presença dos comunistas, que por sinal até foram os primeiros a suscitar a questão do aborto, antes e depois do 25 de Abril: primeiro, em plena ditadura, com a tese do então secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, depois com a apresentação de um projecto de lei na AR. Quem não podia faltar era Zita Seabra, actualmente nas hostes do PSD, que em tempos passados foi porta-voz de um projecto em que já não se reconhece porque a sociedade mudou, afirma, como constata nas conversas com mulheres quando vai ao cabeleireiro. Era a ginja que faltava em cima do bolo podre.
O barco da WOW zarpa no domingo sem ter entrado em águas portuguesas, mas a sua presença foi pelo menos uma pedrada no charco que teve o mérito de pôr a descoberto, uma vez mais, a lama pútrida sedimentada sob a capa de verniz da política nacional.
Refiro-me, concretamente, à sucessão de episódios, cada um mais degradante do que o outro,
ocorridos em torno da presença ao largo da costa portuguesa do barco da associação holandesa Women on Waves (WOW), mais conhecido como «barco do aborto».
O objectivo da WOW, que não teve quaisquer dificuldades em aportar em países como a Polónia ou a Irlanda, era promover o debate em torno da despenalização do aborto e, em águas internacionais, disponibilizar a pílula abortiva a mulheres interessadas em interromper a gravidez até às seis semanas e meia.
Os promotores da iniciativa desconheciam certamente que Portugal, para além de um governo hipócrita, demagógico e falsamente puritano, dispõe de um presidente e comandante supremo das forças armadas que mete a rainha de Inglaterra num chinelo, de um primeiro-ministro do jet-7 nocturno que em mês e meio foi três vezes de férias, de um ministro amante de jaguares e outras extravagâncias arvorado em guardião da moral e dos bons costumes, e de políticos comentadores habilitados nos salões de beleza a debitar sobre a problemática feminina.
A ignorância desta realidade tipicamente nacional fez com que o navio se atrevesse a pedir autorização para entrar em águas territoriais portuguesas. Vá de retro, Satanás!, bramou Portas do seu Ministério da Defesa e dos Assuntos do Mar, invocando a segurança nacional e a saúde pública sem passar cavaco a ninguém, designadamente às autoridades competentes para se pronunciarem sobre a matéria, seus colegas de governo e maioria, assim pronta e decididamente remetidas à sua insignificância.
Santana Lopes ainda veio deitar água na fervura admitindo a reabertura do debate sobre o aborto, um dia destes, quando calhar, na Assembleia da República, enquanto Sampaio se queixava à imprensa de não ter sido visto nem achado na questão do barco. Nada de grave. Portas deu o assunto por encerrado e Lopes nem pestanejou; quanto à presidencial figura, ouviu as explicações na reunião de quinta-feira com o chefe do Governo e não achou motivos para mais intervenção.
Mas o país não seria o que é sem um debate televisivo sobre o assunto, obviamente sem a presença dos comunistas, que por sinal até foram os primeiros a suscitar a questão do aborto, antes e depois do 25 de Abril: primeiro, em plena ditadura, com a tese do então secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, depois com a apresentação de um projecto de lei na AR. Quem não podia faltar era Zita Seabra, actualmente nas hostes do PSD, que em tempos passados foi porta-voz de um projecto em que já não se reconhece porque a sociedade mudou, afirma, como constata nas conversas com mulheres quando vai ao cabeleireiro. Era a ginja que faltava em cima do bolo podre.
O barco da WOW zarpa no domingo sem ter entrado em águas portuguesas, mas a sua presença foi pelo menos uma pedrada no charco que teve o mérito de pôr a descoberto, uma vez mais, a lama pútrida sedimentada sob a capa de verniz da política nacional.