No 60.º aniversário de uma criminosa aventura

O estranho levantamento de Varsóvia

Manoel de Lencastre
Como se esperava, a grande imprensa do imperialismo não deixou passar a data de 2 de Agosto sem mil conjecturas relacionadas com o chamado levantamento de Varsóvia ocorrido há 60 anos. Não faltaram as costumadas e sempre vitriólicas acusações ao marechal Rokossovski e ao governo soviético por não terem prestado ajuda aos que se batiam nas ruas da capital da Polónia contra os nazis. Uma estranha situação, na verdade. O ódio que transpareceu de certos artigos fez-nos sofrer. A verdade, entretanto, tem de ser dita.
Para a URSS havia um problema de fronteiras. Para a Polónia, a questão centrava-se, adicionalmente, no facto de ser uma nação ocupada. Os polacos eram tratados pelos hitlerianos como se fossem gado. A resistência polaca surgia de duas vertentes. Em Moscovo criara-se a chamada «União dos Patriotas Polacos» que editava o jornal «Wolna Polska» (Polónia Livre) e tinha como principal aspecto do seu programa, além da reconquista da independência, a recuperação das terras da Silésia desde há muito na posse de latifundiários alemães. Por outro lado, em Londres, existia aquilo a que chamavam um governo polaco formado por políticos e militares anti-socialistas e anti-soviéticos, pessoas definitivamente ligadas aos interesses do imperialismo. Este governo, a que Winston Churchill dava toda a assistência possível, via com crescente ansiedade o avanço do Exército Vermelho em direcção às fronteiras da Polónia. Na sua óptica, seria necessário fazer algo que estancasse aquele avanço. Algo dramático. Algo que configurasse o histórico heroísmo do povo polaco.
Quando o grupo de exércitos de Rokossovski chegou a território polaco e libertou Lublin (18.07.1944), constituiu-se o «Comité Nacional para a Libertação da Polónia» que incorporava comunistas, socialistas, democratas de diversas tendências e representantes de organizações agrárias. Presidido por Osobka-Moravski, este Comité instalou naquela cidade um parlamento que se preparou para deliberar quanto às condições em que nasceria a nova Polónia. Nestas circunstâncias, os polacos de Londres concluiram que não lhes era possível esperar mais. O seu
«Armia Krajowa» (Exército Interno), constituído secretamente, deveria entrar em operações militares imediatas contra os nazis para assumir o poder e negar ao Exército Vermelho a esperada invasão da Polónia como parte do histórico avanço para Berlim. Assim aconteceu, com efeito, de 1 para 2 de Agosto de 1944. Mas o levantamento de Varsóvia contra a ocupação nazi comandado pelo general Bor-Komarovski, custaria 250 000 mortos aos polacos e prolongar-se-ia por 63 dias. Quando a rendição se verificou, Adolf Hitler ordenou que a capital polaca fosse arrasada, o que as suas tropas realizaram, implacavelmente.

Uma criminosa aventura

Entretanto, a Frente de Exércitos comandada por Rokossovski «assistia» do outro lado do Vístula à carnificina que se desenrolava e às destruições sistemáticas que os nazis levavam a cabo. Choveram acusações e ainda hoje, como se viu, agora, se responsabiliza o referido marechal soviético e o Kremlin por terem permitido que o levantamento de Varsóvia acabasse em tão trágica maneira sem que tivessem levantado um dedo para fornecer auxílio aos «patriotas» do «Armia Krajowa». Todavia, a realidade era diferente.
Disse Guderian, o célebre comandante dos exércitos de «Panzers» alemães(1): «Era impossível ao Exército Vermelho aproximar-se mais de Varsóvia naquela altura. A nossa contra-ofensiva conteve as operações das tropas soviéticas enquanto liquidávamos a insurreição polaca». Por sua vez, o heróico comandante vencedor em Moscovo, Orel e Briansk, afirmou em Lublin a 26 de Agosto(2): «A nossa posição era quase insustentável. Tínhamos realizado um avanço extremamente rápido. Por esse motivo achávamo-nos longe da retaguarda, longe das fontes de abastecimento e com problemas de comunicações. Por isso, fomos obrigados a recuar 200 quilómetros. Nada nos seria possível fazer para salvar os polacos vítimas da criminosa aventura dos seus dirigentes de Londres».
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(1 e 2): História da URSS, de Jean Elleinstein, tomo 3.

A reconstrução de Varsóvia

Tudo começou com o grito: «Warszawa! Warszawa! Waeszawa!». A grande cidade polaca estava em ruínas. Restavam 15 000 pessoas no meio dos escombros. Mas o Comité de Lublin começou a trabalhar e a reconstrução foi para a frente. Do lado do Vístula, que tinha sido dominado por construções industriais do século XIX e de princípios do século XX, teve-se em conta as características dessa zona naquelas épocas. A Praça do Velho Mercado, na cidade antiga, recuperou a fisionomia de antes da guerra. Lado a lado com as reconstruções históricas surgiram novos e imponentes edifícios criados pela arquitectura soviética e destinados aos grandes serviços públicos do socialismo. Entre eles, o Palácio da Cultura oferecido à cidade pelo governo de Moscovo. Também as grandes artérias tradicionais foram reconstruídas e alargadas de modo a poderem conter as comunicações trans-urbanas próprias de uma grande capital.
Nowy Swiat conservou o seu carácter tradicional evocativo do século XVIII. A grande artéria de sentido Norte-Sul, a Marszalkowska, abriu-se ao grande conjunto arquitectónico que é a Praça da Constituição. Abriu-se uma terceira via, o Marchlewskiego. Também, em sentido transversal, rompeu uma via rápida, face à ponte de Slasko Dabrowski, destinada a fazer escoar o trânsito sob a zona da Cidade Velha. Como se vê, o Comité de Lublin e, depois, o Partido dos Operários Unidos Polacos, começaram da melhor maneira. Simultaneamente com a capital, reconstruiram a Polónia inteira.

Konstantin Konstantinovitch Rokossovski (1896-1968)

Nasceu em Varsóvia, filho de um ferroviário de origem ucraniana. Combateu na 1ª Guerra Mundial e, atraído pelos ideais leninistas da Revolução de Outubro, lutou contra as forças contra-revolucionárias de Koltchak. Terminado o curso de Estado-Maior na Academia Frunz seguiu a carreira de oficial superior do Exército Vermelho e serviria no Extremo-Oriente em 1938. No ano seguinte, comandava uma brigada de cavalaria em Moscovo.
No entanto, o destino encaminhá-lo-ía para, dois anos mais tarde, desempenhar um papel decisivo na defesa da capital soviética que os tanques nazis ameaçavam. Foi no reduto de Volokolamsk que as unidades comandadas por Rokossovski fizeram frente aos bárbaros que surgiam do Ocidente, conseguindo travar a sua progressão para Moscovo. Na verdade, derrotados em Volokolamsk e tendo sofrido perdas que jamais haviam equacionado, os hitlerianos retiraram no meio de uma situação dramática em que apenas alguns motociclistas atingiram a periferia de Moscovo.
Chefe do Grupo de Exércitos do Dão, o marechal Rokossovski participou, também, na inesquecível vitória de Estalinegrado. Vencedor em Orel e Briansk (1943) comandou em 1944 e 1945 a 2ª Frente de Exércitos da Bielorússia cuja ofensiva o levaria a Varsóvia. Herói da URSS e vice-ministro da Defesa, retomou a nacionalidade polaca em 1949 tendo sido distinguido com o título de Marechal da Polónia Socialista.