- Nº 1601 (2004/08/5)
Mil trabalhadores lutam para evitar deslocalização

Merloni/Ariston rescinde contratos

Trabalhadores
Com uma taxa de desemprego que é o dobro da média nacional, o distrito de Setúbal poderá ser ensombrado com a deslocalização da Merloni/Ariston.

Os trabalhadores da italiana Merloni/Ariston, em Praias-do-Sado, Setúbal, concentraram-se frente ao Governo civil, após terem começado a receber propostas de rescisão por “mútuo acordo”, revelou ao Avante!, o membro da Comissão de Trabalhadores, Manuel Bravo.
Conscientes de que este pode ser o primeiro passo para a deslocalização da empresa, no dia 29, centenas de trabalhadores cumpriram 24 horas de greve e aprovaram uma moção que entregaram ao Governador Civil de Setúbal, em resposta colectiva à convocatória do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Metalúrgicas e Metalomecânicas do Sul e da Comissão de Trabalhadores.
A fábrica tem capacidade para produzir 400 mil frigoríficos e arcas congeladoras num ano e garante 400 postos de trabalho directos, 200 em regime de prestação de serviços, além dos 400 fornecedores de materiais que trabalham exclusivamente ou quase para esta fábrica. São mais mil postos de trabalho em causa num distrito onde o desemprego assola já 40 mil trabalhadores.
Segundo Manuel Bravo, em Março realizou-se uma reunião com a administração, em que esta nada disse sobre as rescisões amigáveis de contratos mas revelou estar a estudar um plano para a fábrica que seria apresentado passados três ou quatro meses.
A CT exigiu imediatamente a presença para breve dos administradores italianos para que estes viessem esclarecer de que plano se tratava. Na semana passada, a administração voltou a adiar a reunião para Setembro.
Os trabalhadores temem agora que a administração se aproveite do período em que a grande maioria dos empregados vai de férias para avançar com mais tentativas de rescisão.
Perante a gravidade da situação, a estrutura sindical efectuou diligências junto dos vários grupos parlamentares, de entre os quais o PCP que, através do deputado Jerónimo de Sousa, se prontificou a prestar todo o apoio e solidariedade possíveis com a luta justa destes trabalhadores, em defesa dos postos de trabalho para que não engrossem ainda mais a lista de desempregados no distrito de Setúbal.
Também o Governo Civil comprometeu-se com a CT em envidar esforços que garantam a continuação da fábrica.
Sobre a Contratação Colectiva, a negociação está parada, embora a CT considere preocupantes algumas atitudes da gestão que, «dão a entender a intenção administrativa de fazer caducar o AE», afirmou o sindicalista.

Maus hábitos

Não é a primeira vez que esta multinacional deslocaliza unidades de Portugal para o estrangeiro. O grupo Merloni tinha uma fábrica de fogões em Sabugo, no Concelho de Lisboa. Ali, a administração rescindiu todos os contratos, também por mútuo acordo, e deslocalizou-se para a Polónia.
Agora está em causa a unidade situada nas Praias-do-Sado que não vê renovação de máquinas nem sequer investimentos mínimos que as leis exigem, nos imprescindíveis materiais de segurança individual, fazendo perigar a higiene e a segurança dos assalariados.
Manuel Bravo deu os exemplos de haverem duas estagiárias que têm sido forçadas a trabalhar sem qualquer calçado ou luvas de protecção.
Até ao momento, o administrador português, João Paulo Mendes, não quis prestar qualquer declaração à comunicação social.