O PAÍS ESTÁ A ARDER

«O País arde, também, de ridículo – o que não é de somenos importância e gravidade»

O País está a arder. À semelhança do ano passado – e do outro, e do outro... e até quando? – os fogos queimam o que ainda vai restando da floresta portuguesa. As promessas das medidas e dos apoios necessários, têm a idade dos fogos e não passam disso mesmo: promessas. Quanto aos fogos, esses, inexoráveis, cumprem a sua tarefa: indiferentes ao partido que está no Governo, queimam. Para maior glória da política de direita.
O Primeiro-Ministro, com o ar severo que adoptou desde que foi nomeado para o cargo (e com que já havia ameaçado quando pensou candidatar-se à Presidência da República), proclamou que «todos os meios estão mobilizados para combater os incêndios», proclamação que é, no mínimo, desnecessária. Na verdade, sendo público e notório que, na maior parte do País, a situação é considerada de «risco elevado», que outra coisa poderia fazer o Governo que não fosse mobilizar «todos os meios»? A questão maior, aquela que, de facto, interessa, é a de saber se «todos os meios» são suficientes para responder à grave situação. E se não são suficientes – como a realidade tem vindo a demonstrar nos últimos dias – coloca-se-nos a questão de saber de quem são as culpas. Para além disso – e olhando para esta realidade dramática que é o País ardido, a arder ou em vias disso – é imperioso ver que medidas tomar em relação ao futuro, que fazer para atenuar as consequências dos fogos e evitar que no próximo ano, e nos anos seguintes, se repita a tragédia de todos os verões.
Há vários anos que o PCP, através do seu Grupo Parlamentar, vem apresentando propostas nesse sentido – propostas que, levadas à prática, teriam alterado profunda e positivamente a situação mas que não tiveram receptividade por parte da generalidade dos governos. No que nos diz respeito, insistiremos na apresentação actualizada dessas propostas e continuaremos a bater-nos pela sua aplicação. Quanto ao Governo, no estado em que as coisas estão, o mais provável é que siga a receita inventada pela inteligência fulgurante de Bush para acabar com os fogos nos EUA: arrancar as árvores todas.

Entretanto, lembremos, o País arde. E não apenas por efeito dos fogos florestais: arde, igualmente e de que maneira, em consequência do incêndio devastador que é a política de direita que há vinte e oito anos flagela os trabalhadores e o povo – uma política a que o Executivo agora em funções por decisão do Presidente da República, se propõe dar continuidade, como já se sabia e o Programa do Governo exuberantemente confirma.
Na verdade, o que aí vem é a política de concentração de riqueza e de aumento das desigualdades; a política ao serviço dos interesses dos grandes grupos económicos; a política de ataque aos direitos dos trabalhadores, de desemprego, de agravamento das condições de vida e de trabalho; a política das contra-reformas da saúde, do ensino, da segurança social; a política retrógrada e reaccionária em relação às mulheres, à família, ao aborto; a política de privatizações, de negociatas com os bens públicos, de substituição continuada e crescente da produção nacional pela estrangeira; a política de submissão aos Estados Unidos da América e às decisões da União Europeia; a política de guerra e contra a soberania dos povos – enfim, o incêndio da política de direita com o seu conteúdo marcadamente de classe, um incêndio que, neste caso, se combate com o prosseguimento e a intensificação da luta em todas as suas vertentes: a luta de massas, com a classe operária e os restantes trabalhadores, em estreita articulação com a luta institucional e a luta das populações pelos seus direitos e interesses – sempre na base da unidade reforçada de todos e todas que são vítimas preferenciais dessa política.

O País está a arder. Recapitulemos: por efeito dos incêndios que devastam a floresta nacional e em consequência da política de direita que devasta os direitos dos trabalhadores e do povo, que incendeia a soberania nacional e coloca Portugal na dependência dos grandes grupos económicos nacionais e internacionais. Mas o País arde, também, de ridículo – o que, nas circunstâncias actuais, não é de somenos importância e gravidade. E são muitas e altas e impiedosas as chamas deste fogo: o ridículo maestoso da argumentação utilizada pelo Presidente da República para justificar a lamentável decisão que tomou; o ridículo vivace de todo o processo de formação do Governo, com ministros e secretários de Estado numa roda viva de troca de cadeiras, todos e cada um evidenciando aquela disponibilidade característica de, para quem, cargo qualquer serve; o ridículo crescendo da brincadeira de crianças do Governo quase-formado, quase-quase-formado, quase-mesmo-quase-formado, pronto-já-está-para-o que-é-bacalhau-basta, enquanto o Presidente da República, pacientemente, esperava; o ridículo andante que culminou este primeiro acto, com a cerimónia de posse e o discurso inaudito do novo Primeiro Ministro, escrito, certamente, enquanto ouvia os concertos para violino da sua predilecção e inspirado na prosa epistolar de Machado de Assis; finalmente, até ver, o ridículo molto vivace desse divertimento infantil que dá pelo nome de «descentralização».
«O País precisa fechar-se por dentro e cerrar as cortinas» – escreveu Eça de Queiroz, há mais de um século, muito provavelmente, a olhar para 2004... Pese embora a acutilância da observação, que registamos, prossigamos a luta pelo Portugal novo de que Abril abriu as portas – a nós, portugueses, e ao mundo.