Mobilidade e comunicações

Francisco Silva
No início, a mobilidade em termos de acesso às comunicações foi um assunto dos menos analisados quando se teorizava em sede de sociedade da informação - tratasse-se das estratégias para a sua construção, fossem eles os impactes que poderiam ser esperados. Com efeito, a dianteira foi tomada pelo teletrabalho, logo seguido pela teleaprendizagem, pela telesaúde e pelo telegoverno, hoje crismados um pouco por toda a parte como e-work, e-learning, e-health e e-government. Matérias importantes, cuja citação, por vezes à laia de ladainha, se tornou politicamente correcta. E todos elas a significarem actividades mais dadas a manter as pessoas onde estão, onde vivem, todas elas a poderem produzir benefícios de poupança em transportes e tempo, a contribuírem para a sustentabilidade do nosso planeta através das poupanças de energia, de controlo de emissões de dióxido de carbono, etc., todas ainda a poderem promover reduções de custos tanto em termos de força de trabalho, como de fornecimento de serviços ao público. Estes são, portanto, de entre os seus objectivos - os objectivos do «tele» qualquer coisa -, aqueles que interessa realçar aqui.
Assim, neste contexto, a ideia talvez mais visível era - e é - o combater das deslocações dos corpos em transportes públicos ou em automóveis e, em troca, transportar até nós cada vez mais dos «imateriais» bits. Mas também se considerava - e se considera -, em particular nos casos do e-learning ou do e-health, estava subjacente o conceito de disponibilização de recursos profissionais escassos e «caros» - de talentos! (a caminho da banalização, o termo?) - à distância. Quer dizer, por meio da telecomunicação (e, como se notou, não se quer usar o prefixo «tele», considerado um pouco dinossáurico por recordar os velhos telefones e as suas companhias, mas antes o mais moderno «e- qualquer coisa», mais localizado, algo mais referido ao lado material… tudo isto um pouco estranho, dirão alguns!), bem, mas como dizia, com a telecomunicação, o raio de actuação dos tais recursos escassos e caros - médicos, professores, etc. - poderá, no limite, abranger quaisquer distâncias entre locais situados no globo terrestre. Por isso, na Europa, num país como, por exemplo, a Noruega, a estender-se em desmesura para um Norte quase despovoado, a florescerem logo as chamadas experiências de telemedicina - projecto: os isolados, lá longe, a usufruírem tanto quanto possível dos recursos «excelentes» existentes nos principais centros urbanos.

Mobilidade

Mas nem por isso as pessoas - os utilizadores - iriam desistir das suas conquistas na área da mobilidade, cujo apogeu, em termos de transporte de pessoas, é simbolizado - a escolher um exemplo - pelo objectivo do automóvel para todos. Nem as pessoas iriam desistir, nem, além disso, por isso mesmo, a correspondente oferta das indústrias iria faltar. E a onda acabou por se propagar às telecomunicações. Com efeito, foi a vez dos telefones se tornarem móveis. Claro, terminais primeiro transportados em automóveis; e, logo de seguida, transportados também por cada um de nós.
Foi também a vez dos computadores, logo pessoais, a seguir também transportáveis, e a serem-no cada vez mais até serem colocáveis ao colo enquanto o seu dono trabalha; e foi sobretudo a vez de permitirem, quase em permanência, a ligação do seu utilizador à Internet de qualquer sítio desde que o ponto de acesso à Rede esteja disponível, quer por meio de fios, através da linha telefónica ou das ligações de banda larga – o always on a ser realizável -, quer por ligações sem fios, com o Wi-Fi…
A mobilidade segundo «todos» os azimutes - mobilidade do terminal, e, mais ainda, a mobilidade do utilizador que se pode, virtualmente, conectar de onde a Rede tiver um ponto de acesso, uma porta de entrada (e de saída!), se tudo estiver a funcionar como deve ser, o que não é pouco! Além disso, uma mobilidade que «deseja», enquanto precisar, manter as sessões de comunicação durante a deslocação, como acontece como o marchante ou passeante - está a comunicar pelo telemóvel e quer manter a sessão enquanto vai por aí, se for caso disso. Uma mobilidade a requerer ainda que o «ambiente» no seu terminal, o contexto em que costuma comunicar, se mantenha a ser aquilo a que está habituado e que foi construindo.
Um movimento irreprimível, este para a mobilidade. O que não quer dizer que não devam ser perseguidos, e talvez algo corrigida a pontaria, os objectivos dos e-work, -learning, -health e -government.


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