Morreu Virgílio Azevedo

Um lutador modesto e incansável

Foi com lágrimas e emoção que uma multidão de camaradas e amigos prestou, no passado dia 17, uma última homenagem a Virgílio Azevedo, falecido dois dias antes.

Uma vida totalmente dedicada à causa e ao projecto do PCP

Faltavam ainda trinta minutos para a hora prevista de chegada do corpo de Virgílio Azevedo, e já no cemitério do Alto de São João, em Lisboa, se concentravam muitas centenas de camaradas e amigos do dirigente comunista falecido dois dias antes, no dia 15. A tristeza era visível e dominava todo o recinto: expressões carregadas, olhares baixos e humedecidos. E em silêncio, porque a emoção embargava muitas das palavras que, a custo, iam sendo ditas, talvez com a esperança vã de tornar menos pesado o ambiente que se vivia.
Não sendo uma figura mediática – nem nunca tal desejou ser –, no seu funeral estavam os que dele eram mais próximos: família, amigos, camaradas. Todos – uns mais do que outros, é certo, mas todos – teriam alguma história para contar, com Virgílio Azevedo como protagonista. E era nestas ocasiões que as lágrimas davam lugar a sorrisos, ainda que breves.
Muitos queriam despedir-se do camarada afável e de trato fácil, que aprenderam a estimar ao longo de anos de convívio e em muitos combates travados em comum. Alguns lamentavam o desaparecimento do camarada, do dirigente do seu Partido, a quem, embora não conhecendo há muito, reconheciam inestimáveis capacidades humanas e políticas. Outros ainda choravam a perda de um amigo, daqueles cuja amizade nasce e se cimenta em muitas lutas travadas lado a lado, durante décadas vividas intensamente, com alegrias e tristezas, avanços e recuos, partilhados em conjunto.
E todos, sem excepção, homenageavam um homem exemplar, um militante abnegado, um dirigente valioso. Homenageavam, todos, não uma morte, mas uma vida. Uma vida vivida intensamente, em prol de um projecto maior, partilhado por grande parte dos que ali estavam e por muitos outros que ali não estavam fisicamente, mas que ali tinham o seu pensamento.

Abraçado pelo ideal

A chegada do corpo do dirigente comunista foi precedida pela vinda das várias dezenas de coroas e ramos de flores que, durante todo o dia anterior, foram chegando ao local onde esteve em câmara ardente, no seu Barreiro natal. O caixão chegou logo depois, envolvido pela bandeira vermelha do PCP – com a foice, o martelo e a estrela – símbolo do projecto que Virgílio Azevedo abraçou em vida, e pelo qual era agora abraçado.
Depositado o caixão junto ao crematório – coberto sempre e até ao último instante pelo estandarte vermelho e dourado –, Carlos Carvalhas fez uma breve mas sentida intervenção, que arrancou lágrimas a muitos dos que ainda a elas resistiam. Incluindo do próprio secretário-geral, que só a custo conseguiu levar o discurso até ao fim.
Terminada a cerimónia, todos foram, pouco a pouco, abandonando o cemitério. Certamente com o exemplo de Virgílio Azevedo em mente e retendo as últimas palavras do secretário-geral do PCP, segundo o qual o melhor tributo «que lhe podemos prestar é prosseguir o seu combate pelas causas que o animaram».
Quem luta morre sempre cedo de mais. E Virgílio Azevedo desapareceu aos 49 anos de idade, no auge das suas capacidades e das suas energias revolucionárias, quando tanto tinha ainda para dar à causa que abraçou ainda jovem, aos 17, e à qual dedicou o melhor da sua vida, da sua sensibilidade e da sua inteligência.

Carlos Carvalhas

«O melhor tributo é prosseguir o seu combate»

«Com 17 anos um jovem operário na tenebrosa noite fascista adere ao Partido Comunista Português, no Barreiro das Fábricas, da ganga, da exploração, no Barreiro vigiado, temido e policiado.
«Um jovem operário que adquire a sua consciência de classe e política, “toma partido” e ousa correr riscos, difíceis de conceber na sua extensão para as novas gerações de trabalhadores.
«Um jovem operário, no Barreiro sitiado “sacode a asa do atrevimento, perante o atrevimento do obstáculo”. A coragem de combater a ditadura. E este jovem, Virgílio Azevedo de seu nome, como outros jovens operários também obreiros do 25 de Abril vive com os seus camaradas a explosão da Revolução, no seu posto de combate ajudando a fundar o regime, a fazer justiça, a erguer conquistas que povoaram os sonhos dos que viveram com as grilhetas.
«É deste jovem que entregou a sua vida à luta pelas suas convicções, pelos seus ideais, que hoje nos despedimos.
«Como dizia o poeta Armindo Rodrigues: “À morte voraz, / Nem boa, nem má, / Tanto se lhe dá / Levar o audaz, / Levar o sagaz, levar o tenaz, / Levar o mordaz, / Levar o capaz, / Levar o incapaz. / As destrinças que há / A vida é que as faz.”
«E a vida mostrou-nos um homem bom, generoso, simples, um lutador modesto que nunca abandonou a trincheira. Um camarada a quem nunca se lhe ouviu um lamento de cansaço, de dor, mesmo quando a doença já lhe tomava o corpo. Um camarada sempre preocupado com as tarefas do seu partido, com os seus compromissos, com a luta, desprendido dos bens materiais esquecendo-se de si e até da sua saúde.
«Um homem que lutou toda a vida. Insubstituível, como os considera Brecht. É perante este homem, perante este camarada, perante a sua memória, que nos inclinamos. Um camarada que resistiu sempre a ser chamado a cargos de direcção, que resistiu sempre a ser chamado ao Secretariado do seu Partido, porque sempre resistiu às luzes da ribalta.
«Incansável, trabalhador e lutador, era também um camarada que amava a vida, que viveu com paixão a Festa do Avante!, que com a mesma dedicação e zelo cumpria tarefas desde as mais complexas às mais simples. Um camarada de relacionamento fácil, humanista, sempre preocupado em ajudar os que atravessavam dificuldades. Numa palavra, um camarada com tudo o que este vocábulo encerra.
«Apenas com 49 anos de idade – deixa-nos agora. Nesta hora de tristeza, de luto, de consternação pela partida de alguém que nos era tão próximo e que ao longo de tantos anos, todas as quartas-feiras se sentou ao nosso lado, manifestamos todo o nosso pesar e solidariedade à sua companheira, filhas e família, certos de que neste último abraço fraterno, amigo e comovido do grande colectivo partidário de que ele foi um construtor e destacado militante, o melhor tributo que lhe podemos prestar é prosseguir o seu combate pelas causas que o animaram: pela justiça social, pela paz, por um Portugal de democracia avançada, pelo socialismo.»

Biografia breve

Virgílio Azevedo, de 49 anos de idade, foi operário metalúrgico na CUF/Barreiro, onde começou a trabalhar muito jovem.
A sua acção democrática iniciou-se no movimento associativo, no Luso Futebol Clube. Iniciou a sua actividade política contra o fascismo e pela liberdade aos 16 anos, pertencendo a uma Comissão de Jovens Antifascistas do Barreiro. Aderiu ao PCP em 1972, com 17 anos. Era funcionário do Partido desde 1974.
Antes e depois do 25 de Abril e até 1977, a sua acção foi essencialmente desenvolvida no âmbito de organizações de juventude. Foi dirigente nacional do Movimento da Juventude Trabalhadora (MJT) e da União da Juventude Comunista (UJC).
Em 1973 fez parte do Comité Nacional Preparatório do 10.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes e participou na elaboração das Teses apresentadas em Berlim sobre a situação da juventude e da sua luta em Portugal contra o regime fascista e pela democracia.
A partir de 1977 passou a ter tarefas na Organização Regional de Setúbal do PCP e em 1980 passou a integrar a Direcção da Organização Regional de Setúbal (DORS), de cujos Executivo e Secretariado também fez parte. Era membro do Comité Central do PCP desde 1983 e do Secretariado do Comité Central desde 1996, tendo sido responsável, entre outras tarefas, pela Festa do Avante! entre 1997 e 2004.
O Secretariado do Comité Central, em nota de dia 15 de Junho, destaca a sua participação «nas mais diversas batalhas políticas, na resistência ao fascismo, na luta pela democracia, no processo da Revolução de Abril e na defesa das suas conquistas e valores, na acção consequente para um Portugal e um mundo melhores, sempre com a classe operária, os trabalhadores, a juventude e o povo português». Recordando Virgílio Azevedo como homem de grande honestidade e modéstia, o Secretariado realça a dedicação, energia, capacidade e sensibilidade humana e política invulgares com que abraçou o projecto do PCP, dedicando toda uma vida à luta pela democracia e o socialismo.


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