Patrícia Guimarães, da Coordenadora do Secundário da JCP

Os estudantes podem mudar o ensino

«Reforço e união para mudar a educação» é o lema do Encontro Nacional do Ensino Secundário da JCP que se realiza no sábado, em Lisboa. A iniciativa é aberta a todos os que queiram participar, como explica Patrícia Guimarães, dirigente da organização.

Em média, aderem à organização do secundário 650 jovens por ano

O Encontro Nacional do Ensino Secundário da JCP (ENES) realiza-se no próximo sábado, na Voz do Operário, em Lisboa. Patrícia Guimarães, membro da Coordenadora Nacional, explica por que esta iniciativa constitui um momento importante para a organização. «É aqui que reforçamos os nossos camaradas politicamente, que discutimos a política educativa, que envolvemos os militantes no trabalho», afirma.
O número de participantes depende dos transportes, mas a presença de largas centenas de militantes está já assegurada. «Qualquer pessoa pode assistir ou intervir, mesmo que não seja militante. É bom que venham até porque estes encontros reflectem o que é a JCP, desde a implantação ao debate. É a união, a discussão, a tomada de decisões de forma colectiva, o conhecimento das várias realidades nacionais, a definição de orientações», refere Patrícia Guimarães.
O encontro tem vindo a ser preparado nos últimos meses, não apenas com a discussão dos documentos, mas também com distribuição de 40 mil folhetos, debates nas escolas, colagem de cartazes, convívios e pintura de murais. Houve mesmo recrutamentos durante a campanha. «Estes novos militantes entram na JCP e participam logo no ENES e no trabalho. É uma boa forma de começar, conhecendo as pessoas a nível nacional e ficando com uma noção mais geral da JCP e da organização do secundário», refere a dirigente.

650 por ano

Em média, aderem à organização do secundário 650 jovens por ano. Patrícia Guimarães afirma que «os jovens têm noção de que a sociedade não está bem e que temos de modificá-la e aderem à JCP porque somos nós que estamos com eles diariamente. Somos nós que os consciencializamos, que alertamos para os problemas locais, que protestamos, que propomos alternativas. A grande diferença entre a JCP e as outras juventudes partidárias é que nós estamos ao lado dos estudantes e conhecemos bem a realidade. Há uma identificação entre os estudantes e a JCP.»
A dirigente considera que é mais fácil fazer recrutamentos no secundário, porque é «nesta altura que começam a despertar para a realidade. Devido a uma série de ataques à educação, os estudantes começam a aperceber-se que há coisas que não estão bem. É uma idade em que as pessoas passam a ter um outro tipo de cultura e experiências.»
Patrícia considera que os recrutamento são mais difíceis para a organização dos jovens trabalhadores, devido à pressão do patronato. «Se se sabe que alguém pertence à JCP ou ao PCP é logo de alguma forma punido, por isso as pessoas têm algumas cautelas para proteger os seus empregos», acrescenta.
Desde o último ENES, realizado há dois anos, a organização cresceu e reforçou-se com novos recrutamentos. «A organização do secundário é muito importante para a JCP, até porque é daqui que partem muitos militantes que vão para o ensino superior, já com algumas bases.»

«As manifestações assustam o Governo»

Patrícia Guimarães considera positiva a luta dos estudantes do ensino secundário neste ano lectivo: «As manifestações assustam o Governo, porque vê que somos muitos e que afinal não somos assim tão parvinhos. Importa mostrar que não estamos satisfeitos.»
Em Fevereiro, em Braga, cerca de mil estudantes do ensino básico e secundário aproveitaram a visita à cidade do Ministro da Educação, David Justino, para protestar. Tratou-se de uma iniciativa com impacto, sendo especialmente importante por Braga não ter uma grande tradição de contestação. «As pessoas fartam-se e decidem que as coisas têm de mudar», comenta Patrícia, lembrando a contribuição da JCP. «Os comunistas também lá estão e informam os colegas. Houve muito trabalho por parte das associações de estudantes e dos nossos colectivos. As pessoas vão-se retraíndo, vão-se submetendo mas há uma altura em que não podem mais.»
Os protestos podem acontecer em sítios menos habituais, mas apenas se houver preparação prévia. «Não podemos parar à espera do momento certo, porque isso pode não acontecer. A malta pode-se ir conformando e pode-se adaptar àquele poucochinho que tem. Por isso temos de estar permanentemente a consciencializar: “Se fizermos por isso, temos condições melhores. Porque é que aqui é assim e naquela escola é melhor?” Quanto mais reivindicarmos, melhor», salienta.

Cresce a JCP, cresce a luta

O crescimento da organização do secundário da JCP é fundamental para a luta dos estudantes. «Quantos mais camaradas tivermos a dinamizar os colectivos e a fazer esclarecimento, maior é a nossa força para trazer gente para as manifestações. Temos de trabalhar em unidade, mas a organização da JCP é muito importante. Quanto mais estudantes recrutarmos, mais militantes teremos no ENES, mais dinamização e mais colectivos haverá nas escolas», declara Patrícia Guimarães.
Em causa, estão as medidas do Governo para o ensino secundário. Como diz a dirigente, «esta política é reaccionária, muito reaccionária. Chega a ser repugnante. Se deixarmos que isto vá para a frente, transformamo-nos num sociedade maquinizada e condicionada. Estudamos para ser o que o Ministério da Educação quer que sejamos, pecinhas de xadrez para serem movidas à sua vontade. Temos de lutar contra isto. Os nossos avós e alguns dos nossos pais lutaram para que pudéssemos ter uma educação publica, gratuita e de qualidade para todos e agora o Governo quer acentuar a distância entre as classes sociais, entre “os que trabalham” e “os que pensam”.»
«Assusta-me pensar que, se não fizermos nada agora, quem vier a seguir não combate esta situação e conforma-se. Cada vez mais a sociedade é egoísta, as pessoas pensam só nelas e não se importam se em Viseu os alunos têm frio nas salas de aula. Há pessoas que estão conformadas e que pensam que, quanto mais depressa acabarem a escola, mais depressa deixam isto para trás. Essa não é uma boa posição, por isso temos de consciencializar que é necessário combater esta situação diariamente», sublinha Patrícia.
A competição entre os alunos começa a ser difícil de contornar, devido às médias altas no acesso ao ensino superior e ao facto dos exames nacionais valerem 50 por cento da nota final. «O sistema é feito para isso. O nosso trabalho ao longo dos três períodos conta pouco e isto cria uma corrida à melhor média para entrar na faculdade. Dentro da escola tentamos com que isso não aconteça, mas as coisas estão feitas para que os jovens se tornem mais ambiciosos e carreiristas. O sistema tem muita força e somos todos atingidos.»


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