Os Partidos e uma Nova Sociedade
O Seminário internacional «Los Partidos y una Nueva Sociedad» tem marcado presença por ser diferente de iniciativas do género em que predomina o caracter académico. Está voltado para o debate de ideias, mas o seu objectivo precípuo é colocá-lo a serviço da dinamização da luta dos povos.
Numa época em que os fóruns sociais subalternizam os partidos de esquerda, privilegiando os movimentos, ou os excluem dos grandes eventos, esquecendo que a acção de uns e outros é ou deve ser complementar - o Seminário anual do PT, empenhado em debater grandes problemas do nosso tempo, está simultaneamente orientado para a acção, ciente de que as organizações revolucionárias têm um papel insubstituível a cumprir na grande crise de civilização que vivemos.
Não é por acaso que partidos comunistas como o da China, o da Federação Russa e o vietnamita patrocinaram este VIII Seminário e que a maioria dos partidos comunistas revolucionários da América Latina esteve representada nele.
É positivo que o Partido do Trabalho do México utilize uma parcela significativa dos subsídios que recebe do Estado (o que é excepção absoluta no país) para viabilizar iniciativas orientadas para o debate criador de grandes problemas do mundo contemporâneo resultantes da estratégia de um sistema de poder que assume matizes neofascistas, ameaçando a própria continuidade da vida.
Seria um erro concluir daí que o conjunto de intervenções se caracterizou sempre por um alto nível e expressou um pensamento uniformemente revolucionário. O Seminário foi um espelho da esquerda latino-americana, das suas contradições, da confusão ideológica que resulta da complexidade da crise internacional e das próprias peculiaridades do sistema de dominação imperial.
A lucidez predominou. A comunicação apresentada por Alberto Anaya, o destacado dirigente do Partido do Trabalho, marcou de certa maneira o espírito do Seminário na medida em que iluminou bem a crise do sistema capitalista, simultaneamente cíclica e estrutural, apontando o caminho da luta dos povos como o único que pode conduzir à derrota da engrenagem de dominação.
A delegação cubana, a mais numerosa, trouxe ao México a imagem do seu país, plasmada em intervenções diversificadas sobre a história, a educação, a cultura, a juventude, a saúde, os trabalhadores, a solidariedade internacionalista, etc. Desse feixe de comunicações destacou-se, pelo rigor e profundidade ideológica, a de Roberto Regalado Alvarez, um vasto painel dos desafios que as nações a Sul do Rio Grande enfrentam, inseridos na crise global do sistema de dominação.
A presença da América Latina foi naturalmente maciça. As intervenções da delegação venezuelana - sobretudo a do embaixador Lino e a de Rafael Uzcategui - deixaram transparecer a firmeza com que o povo de Bolívar e Chavez defende a sua revolução e, lutando por ela, avança com a história.
Entre dezenas de discursos torna-se difícil recordar o que de mais importante e original foi transmitido a um plenário onde predominavam dirigentes políticos e sindicais e intelectuais de esquerda vindos de 26 países da América, da Europa, da Ásia e da África. Escutei com especial interesse as do dominicano Isa Conde, do chileno Júlio Uga, do peruano Renan Muñoz, da argentina Emitia Segotta, da salvadorenha Blanca Flor, do brasileiro Geraldo Barbosa, da norte-americana Kathleen Chandler.
Chamou a atenção o trabalho apresentado por He Jun, do CC do Partido Comunista da China, sobre «A teoria e a prática do socialismo com peculiaridades chinesas». Usando de uma franqueza pouco habitual em conferências internacionais, Jun sublinhou que a «China se encontra (apenas) e encontrará na etapa primária do socialismo». Distanciando-se de posições maximalistas comuns na Europa e na América, criticou os que confundem desejos com realidades, e apontou como tarefa central do partido na etapa primária do socialismo – pois a China não é ainda um país socialista - o desenvolvimento das forças produtivas sociais.
A China - disse - realizou extraordinários progressos, o crescimento do PIB é o mais elevado do mundo, mas regista-se «um grande atraso em projectos sociais no tocante a cultura, educação, assistência médica, saúde, entre outros». Aludindo a debilidades do processo e a grandes desafios do presente, lamentou que mais de 110 milhões de chineses enfrentem problemas como carências na assistência social, ou alimentares, ou sobrevivam graças a subsídios do governo.
Foi uma das intervenções mais aplaudidas e que mais impacto produziram.
Contradições
Ao longo de todo o seminário transpareceu a contradição entre duas perspectivas cujo distanciamento reflecte não apenas mundividências diferentes como opções ideológicas também diferenciadas, o que tem implicações importantes nas estratégias e formas de luta esboçadas.
A velha antinomia Reforma-Revolução apareceu com maior ou menor nitidez em muitas intervenções, embora paradoxalmente alguns oradores não tenham talvez consciência plena das consequências das suas opções reformadoras. Também significativo foi o contraste entre o posicionamento daqueles que concedem prioridade ao trabalho de construção teórica de projectos de construção do futuro - subalternizando as lutas do presente - e os que apontam como tarefa prioritária a mobilização das organizações revolucionárias e movimentos progressistas para o combate contra o sistema de poder que ameaça a humanidade.
Essas contradições manifestaram-se obviamente na qualidade das intervenções e no transcorrer dos debates.
Recordo, por exemplo, a confusão resultante da intervenção de um professor universitário mexicano, que, ao dissertar sobre a temática fundamental do petróleo num extenso discurso, falou como charlatão. A fome de palco era tamanha que, para além de citar estatísticas sem credibilidade sobre reservas, custos de produção e preços hipotéticos, não hesitou em afirmar que o México já foi a sétima economia do mundo. Sendo formalmente de esquerda, discursos de exibicionismo como esse servem à direita.
Por um acaso feliz, o orador seguinte foi um dos mais talentosos professores da UNAM, Arturo Huerta – autor de «A economia política da estagnação - que inseriu numa critica global ao neoliberalismo a análise científica das consequências das políticas de ajuste e do TLCAN na devastadora crise mexicana.
No tocante ao petróleo, um equatoriano, Victor Hugo Jijón, apresentou uma comunicação de alto nível sobre «A dimensão energética militar da ALCA e os desafios da integração latino-americana». Recorrendo a projecções, esboçou com rigor o quadro mundial do esgotamento rapidíssimo das reservas comprovadas de petróleo, situação com implicações conhecidas na política das guerras preventivas dos EUA e na irracionalidade da sua estratégia de dominação mundial.
Enquanto o Seminário transcorria, estava em andamento a intervenção militar dos EUA no Haiti, com a cumplicidade activa da França e do Conselho de Segurança da ONU. A ausência de uma delegação daquele país foi suprida por uma intervenção do dominicano Narciso Isa Conde, que expôs os antecedentes históricos da situação que serviu de pretexto ao desembarque dos marines.
A solidariedade com o povo do Haiti expressou-se com clareza numa das resoluções mais aclamadas pelo Seminário. Ao condenar a intervenção imperial, identificou nela uma ameaça global aos povos da América Latina e do Caribe, de modo especial à Venezuela bolivariana, a Cuba, e à insurgência colombiana.
O feixe de resoluções aprovadas sobre lutas em curso – Palestina, Porto Rico, Colômbia, Venezuela, Argentina, Iraque, El Salvador, etc. - emergiu como expressão do espírito internacionalista de um Seminário ao longo do qual durante três dias foi permanente e comovedora a solidariedade com os povos que se batem contra o imperialismo ou são vítimas de agressões directas ou indirectas do seu sistema de poder.
Não é por acaso que partidos comunistas como o da China, o da Federação Russa e o vietnamita patrocinaram este VIII Seminário e que a maioria dos partidos comunistas revolucionários da América Latina esteve representada nele.
É positivo que o Partido do Trabalho do México utilize uma parcela significativa dos subsídios que recebe do Estado (o que é excepção absoluta no país) para viabilizar iniciativas orientadas para o debate criador de grandes problemas do mundo contemporâneo resultantes da estratégia de um sistema de poder que assume matizes neofascistas, ameaçando a própria continuidade da vida.
Seria um erro concluir daí que o conjunto de intervenções se caracterizou sempre por um alto nível e expressou um pensamento uniformemente revolucionário. O Seminário foi um espelho da esquerda latino-americana, das suas contradições, da confusão ideológica que resulta da complexidade da crise internacional e das próprias peculiaridades do sistema de dominação imperial.
A lucidez predominou. A comunicação apresentada por Alberto Anaya, o destacado dirigente do Partido do Trabalho, marcou de certa maneira o espírito do Seminário na medida em que iluminou bem a crise do sistema capitalista, simultaneamente cíclica e estrutural, apontando o caminho da luta dos povos como o único que pode conduzir à derrota da engrenagem de dominação.
A delegação cubana, a mais numerosa, trouxe ao México a imagem do seu país, plasmada em intervenções diversificadas sobre a história, a educação, a cultura, a juventude, a saúde, os trabalhadores, a solidariedade internacionalista, etc. Desse feixe de comunicações destacou-se, pelo rigor e profundidade ideológica, a de Roberto Regalado Alvarez, um vasto painel dos desafios que as nações a Sul do Rio Grande enfrentam, inseridos na crise global do sistema de dominação.
A presença da América Latina foi naturalmente maciça. As intervenções da delegação venezuelana - sobretudo a do embaixador Lino e a de Rafael Uzcategui - deixaram transparecer a firmeza com que o povo de Bolívar e Chavez defende a sua revolução e, lutando por ela, avança com a história.
Entre dezenas de discursos torna-se difícil recordar o que de mais importante e original foi transmitido a um plenário onde predominavam dirigentes políticos e sindicais e intelectuais de esquerda vindos de 26 países da América, da Europa, da Ásia e da África. Escutei com especial interesse as do dominicano Isa Conde, do chileno Júlio Uga, do peruano Renan Muñoz, da argentina Emitia Segotta, da salvadorenha Blanca Flor, do brasileiro Geraldo Barbosa, da norte-americana Kathleen Chandler.
Chamou a atenção o trabalho apresentado por He Jun, do CC do Partido Comunista da China, sobre «A teoria e a prática do socialismo com peculiaridades chinesas». Usando de uma franqueza pouco habitual em conferências internacionais, Jun sublinhou que a «China se encontra (apenas) e encontrará na etapa primária do socialismo». Distanciando-se de posições maximalistas comuns na Europa e na América, criticou os que confundem desejos com realidades, e apontou como tarefa central do partido na etapa primária do socialismo – pois a China não é ainda um país socialista - o desenvolvimento das forças produtivas sociais.
A China - disse - realizou extraordinários progressos, o crescimento do PIB é o mais elevado do mundo, mas regista-se «um grande atraso em projectos sociais no tocante a cultura, educação, assistência médica, saúde, entre outros». Aludindo a debilidades do processo e a grandes desafios do presente, lamentou que mais de 110 milhões de chineses enfrentem problemas como carências na assistência social, ou alimentares, ou sobrevivam graças a subsídios do governo.
Foi uma das intervenções mais aplaudidas e que mais impacto produziram.
Contradições
Ao longo de todo o seminário transpareceu a contradição entre duas perspectivas cujo distanciamento reflecte não apenas mundividências diferentes como opções ideológicas também diferenciadas, o que tem implicações importantes nas estratégias e formas de luta esboçadas.
A velha antinomia Reforma-Revolução apareceu com maior ou menor nitidez em muitas intervenções, embora paradoxalmente alguns oradores não tenham talvez consciência plena das consequências das suas opções reformadoras. Também significativo foi o contraste entre o posicionamento daqueles que concedem prioridade ao trabalho de construção teórica de projectos de construção do futuro - subalternizando as lutas do presente - e os que apontam como tarefa prioritária a mobilização das organizações revolucionárias e movimentos progressistas para o combate contra o sistema de poder que ameaça a humanidade.
Essas contradições manifestaram-se obviamente na qualidade das intervenções e no transcorrer dos debates.
Recordo, por exemplo, a confusão resultante da intervenção de um professor universitário mexicano, que, ao dissertar sobre a temática fundamental do petróleo num extenso discurso, falou como charlatão. A fome de palco era tamanha que, para além de citar estatísticas sem credibilidade sobre reservas, custos de produção e preços hipotéticos, não hesitou em afirmar que o México já foi a sétima economia do mundo. Sendo formalmente de esquerda, discursos de exibicionismo como esse servem à direita.
Por um acaso feliz, o orador seguinte foi um dos mais talentosos professores da UNAM, Arturo Huerta – autor de «A economia política da estagnação - que inseriu numa critica global ao neoliberalismo a análise científica das consequências das políticas de ajuste e do TLCAN na devastadora crise mexicana.
No tocante ao petróleo, um equatoriano, Victor Hugo Jijón, apresentou uma comunicação de alto nível sobre «A dimensão energética militar da ALCA e os desafios da integração latino-americana». Recorrendo a projecções, esboçou com rigor o quadro mundial do esgotamento rapidíssimo das reservas comprovadas de petróleo, situação com implicações conhecidas na política das guerras preventivas dos EUA e na irracionalidade da sua estratégia de dominação mundial.
Enquanto o Seminário transcorria, estava em andamento a intervenção militar dos EUA no Haiti, com a cumplicidade activa da França e do Conselho de Segurança da ONU. A ausência de uma delegação daquele país foi suprida por uma intervenção do dominicano Narciso Isa Conde, que expôs os antecedentes históricos da situação que serviu de pretexto ao desembarque dos marines.
A solidariedade com o povo do Haiti expressou-se com clareza numa das resoluções mais aclamadas pelo Seminário. Ao condenar a intervenção imperial, identificou nela uma ameaça global aos povos da América Latina e do Caribe, de modo especial à Venezuela bolivariana, a Cuba, e à insurgência colombiana.
O feixe de resoluções aprovadas sobre lutas em curso – Palestina, Porto Rico, Colômbia, Venezuela, Argentina, Iraque, El Salvador, etc. - emergiu como expressão do espírito internacionalista de um Seminário ao longo do qual durante três dias foi permanente e comovedora a solidariedade com os povos que se batem contra o imperialismo ou são vítimas de agressões directas ou indirectas do seu sistema de poder.