ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA...

«Todos os dias, em todas as situações e sejam quais forem os obstáculos, a luta continua»

Temos sublinhado aqui, por diversas vezes e com exemplificações, alguns traços distintivos do PCP em relação aos restantes partidos nacionais. Desses traços, emerge aquele que é a pedra de toque da democracia interna de qualquer partido: a participação militante.
Ao referirmos esses aspectos singulares do PCP, não pretendemos apresentar-nos como um modelo – e muito menos um modelo de perfeição, uma máquina infalível, uma organização à prova de erro. Bem ao contrário: temos a consciência assumida das nossas muitas deficiências e insuficiências, dos erros que cometemos, das incapacidades para ultrapassar parte das dificuldades e obstáculos que se nos deparam; e temos igual consciência assumida da necessidade imperiosa de, todos os dias, prosseguirmos o esforço visando a superação desses aspectos negativos.
Temos, igualmente, demonstrado, aqui, e também com abundante exemplificação, que os média dominantes falsificam, mistificam, manipulam, denigrem, menorizam, apoucam, desvalorizam os objectivos, a actividade e o funcionamento do PCP, ao mesmo tempo que, em relação aos outros partidos, têm uma prática de valorização global e permanente.
Tão pouco é nossa intenção apresentarmo-nos como uma infeliz vítima da comunicação social que, malvada sem coração, nos tomou de ponta e resolveu embirrar connosco. De forma alguma: conhecemos as razões que levam os média a fazer do PCP o seu inimigo principal e não temos dúvidas de que são razões de classe, perfeitamente explicáveis: sendo eles propriedade dos grandes grupos económicos, é sua tarefa defender os interesses desses grupos e, portanto, disparar sobre o PCP que, sendo o partido da classe operária e de todos os trabalhadores, tem como tarefa dar combate a esses grupos e ao domínio (anticonstitucional, recorde-se) que eles detêm sobre o poder político.
Nem por isso deixaremos de denunciar a situação, quanto mais não seja porque água mole em pedra dura...

Pegando num caso concreto: atentemos na forma como os média trataram o Encontro Nacional do PCP sobre as eleições para o Parlamento Europeu; e atentemos no tratamento que deram a iniciativas do PS, do PSD e do BE, realizadas na mesma altura. Lá está, de um lado, o tratamento de luxo dado ao desfile de oradores que actuaram na Convenção do PS (tentando convencer os incautos de que, quer em política nacional quer em política europeia, nada têm a ver com o PSD); do mesmo lado, o destaque dado a um jantar do PSD no decorrer do qual um orador tentou convencer os mesmos incautos de que o PSD nada tem a ver com o PS em matéria de política interna ou externa; e, sempre do mesmo lado, o habitual tratamento de cinco estrelas reservado ao espectáculo do Bloco de Esquerda, aos seus artistas pisando a passerelle com aquele saber de experiência feito, com aquele trocar de pés executado com a mestria de quem tem tarimba em matéria de trocas e baldrocas, enfim, deixando babadinhos os média - que, recorde-se, são propriedade do grande capital. E lá está, do outro lado, o contraponto, o tratamento dado ao Encontro do PCP: muito menos espaço, muito menos tempo e, pior do que isso, aquela habitual imagem negativa, triste, sombria, que a generalidade dos média têm de reserva e que desbobinam sempre que falam do PCP.
Em resumo: todo o elogio ao espectáculo, ao folclore, à frase sonante, às diversões de caça ao voto que anulam o debate sério e ocultam as causas dos problemas e, por isso, são alimento básico do sistema; todos os maus tratos ou silêncios para a presença activa de mais de mil pessoas debatendo, com seriedade, questões que dizem respeito a Portugal e aos portugueses, procurando, com seriedade, caminhos de esclarecimento do eleitorado.

Eis-nos, então, em marcha para uma importante batalha eleitoral, conscientes da natureza e da dimensão dos obstáculos que se nos deparam; sem ilusões quanto à origem e à força dos disparos visando enfraquecer-nos; convictos, também, de que se trata de uma batalha só possível de travar com êxito com o envolvimento activo, empenhado, entusiástico, de todo o colectivo partidário – e com a serena postura de quem transporta uma história heróica: os oitenta e três anos de luta que nestes dias de luta comemoramos. Uma história de que, naturalmente, nos orgulhamos: a história de sucessivas gerações de militantes comunistas que souberam sempre ocupar o lugar que lhes competia: que souberam (e foram os únicos a fazê-lo) assumir a coragem de resistir e persistir na luta pela democracia e pela liberdade quando o fascismo lhes ordenou que desistissem e se entregassem – sabendo que essa postura resistente tinha como consequências inevitáveis a prisão, a tortura, por vezes a morte; que souberam (e foram os únicos a fazê-lo) integrar como parte activa e determinante a exaltante arrancada para o futuro que foi a revolução de Abril – e, depois, combater com todas as suas forças a contra-revolução financiada pelo capitalismo internacional e conduzida pelos seus agentes locais; que souberam (e foram os únicos a fazê-lo) posicionar-se, sempre, em todos os momentos e em todas as situações, ao lado dos trabalhadores, do povo e do País – e sabendo que com tal opção estavam a expor-se como alvos preferenciais dos ataques desferidos pelo arsenal anticomunista ao serviço do grande capital. Mas que, por saberem o que sabem, sabem que, todos os dias, em todas as situações e sejam quais forem os obstáculos, a luta continua.