UMA LONGA CAMINHADA

«Assinalamos o 73º aniversário do Avante! com um orgulho sereno»

Assinalamos mais um aniversário do Avante! relembrando o percurso iniciado pelo órgão central do PCP em 15 de Fevereiro de 1931 e prosseguido até aos dias de hoje numa caminhada longa de setenta e três anos e recheada de momentos assinaláveis. Uma caminhada, cumpre salientar, sempre pautada por uma enorme coerência, por um posicionamento sem ambiguidades, por uma clara e assumida opção de classe, por um respeito grande pela inteligência e pela sensibilidade dos seus leitores. Por isso assinalamos este aniversário com orgulho sereno, sem saudosismos passadistas (ao contrário do que insistem em acusar-nos quer os que não têm passado quer os que, tendo-o, preferem, por razões deles sabidas, esquecê-lo ou ocultá-lo) mas tão somente por se nos afigurar ser por de mais relevante a singularidade desse percurso.
Comemorar setenta e três anos de vida de um jornal é, sempre e por si só, um acontecimento de enorme importância e a merecer destaque adequado. Mais ainda se, como neste caso, se trata de um jornal de esquerda, órgão central de um partido comunista, e que durante parte grande da sua existência, precisamente durante quarenta e três anos, foi escrito, composto, impresso, distribuído e lido clandestinamente – quarenta e três anos vividos sob a ameaça da violência e da repressão fascistas, numa caminhada heróica e cheia de perigos, de combate pela liberdade, pela democracia, pela paz e pelo progresso, de resistência à censura e à repressão fascistas, de permanente reposição da verdade face à mentira fascista, de constante e incondicional defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.

Tudo isto faz do Avante! um caso único à escala nacional, um exemplo feito da coragem e da dignidade nascidas da confiança no ideal e no projecto comunista. E, quanto mais não seja para relembrarmos verdades que muitos querem apagar da história, valerá a pena interrogarmo-nos sobre as razões pelas quais o Avante! é esse caso único, as razões pelas quais nenhum outro jornal seguiu idêntico exemplo, as razões pelas quais, perante a ameaça fascista, optaram, uns, por se aconchegarem nas baias impostas pela ditadura, outros, por uma prudente auto-extinção. Se o fizermos, não será difícil chegar à conclusão de que, na origem dessas opções, está o facto de nenhum deles possuir as motivações que estiveram na origem da postura resistente do Avante!. Ao fim e ao cabo, as mesmas motivações que levaram a que o PCP tenha sido o único partido nacional a rejeitar frontalmente a autodissolução exigida pelo fascismo, a passar à clandestinidade e a colocar como objectivo primeiro da sua luta o derrube da ditadura – com a consciência plena dos riscos e dos perigos que tal atitude comportava e também sabendo claramente que essa era a única opção que se colocava ao partido da classe operária e de todos os trabalhadores.
Aliás, é nessas mesmas motivações que se situam as raízes da postura do Avante! nos tempos pós 25 de Abril: a sua prática coerente na defesa e na consolidação da democracia e da liberdade acabadas de conquistar; o seu posicionamento inequívoco ao lado da Revolução, dos trabalhadores, do povo e das suas conquistas; a sua intervenção no combate às manobras dos que, sonhando com o regresso ao passado, tudo fizeram e a todos os métodos recorreram no sentido de impedir a caminhada para um futuro de justiça social, de paz, de respeito pelos direitos a que todo o ser humano, pelo simples facto de existir, tem direito. E é ainda e sempre norteado pelos mesmos valores e princípios que o órgão central do PCP prossegue, nos tempos actuais, a sua tarefa de porta-voz dos interesses de quem trabalha e vive do seu trabalho.

No tempo que vivemos, uma nova ordem comunicacional – composta por poderosas redes de produção e difusão de desinformação organizada – propriedade do poder económico e financeiro dominante e, por isso, ao serviço exclusivo dos seus interesses, procura instalar o pensamento único à escala planetária. Paralela e complementarmente à implementação dessa nova ordem comunicacional e à medida que os seus imensos tentáculos se estendiam a todo o Planeta, o poder económico levou por diante um implacável e meticuloso processo de liquidação da quase totalidade da imprensa operária e de esquerda. A ideia é simples e óbvia: abafar a voz colectiva do trabalho, da justiça social, da solidariedade, da liberdade, da democracia, da paz, é o melhor caminho para impor a voz única do capital, da exploração, da injustiça, da desigualdade, da opressão, da guerra. E se o processo é levado a cabo de forma a que, por efeito da repetição exaustiva e multiplicada da mentira, essa voz única totalitária aparece com uma cândida imagem de pluralismo democrático, então o grande capital está nas suas sete quintas.
Daí o incómodo suscitado pela existência de jornais que, como o Avante!, resistem aos donos do mundo, rejeitam claramente o subserviente coro unanimista, persistem em existir e existem, persistem em manter uma voz própria e não desistem de ser a voz dos que não têm voz, a voz dos oprimidos, dos explorados, dos humilhados e ofendidos, dos milhares de milhões de vítimas deste sistema baseado na opressão, na exploração, na violência, no desprezo pelos direitos humanos. Incómodo que vai continuar e, até, acentuar-se, já que permanecem vivos e cada vez mais actuais os valores e os ideais que estão na origem dos setenta e três anos de vida do Avante! e da superação dos múltiplos e perigosos obstáculos que, ao longo desse tempo, se lhe depararam.