O império contra-ataca
A cimeira extraordinária de chefes de Estado da América Latina, que decorreu nos passados dias 12 e 13 na cidade mexicana de Monterrey, ficou marcada pela fractura de interesses entre alguns dos países subcontinentais e os Estados Unidos da América, nomeadamente no que diz respeito às negociações em torno do Acordo de Livre Comércio das Américas (ALCA), que a administração da Casa Branca queria ver fechado até ao final deste ano.
Apesar de ter sido agendada, com carácter de urgência, como contra-ataque aos obstáculos interpostos aos conteúdos da ALCA, é possível afirmar que, ao final de dia e meio de encontro, as manobras da diplomacia musculada e chantagista dos EUA não lograram a imposição do acordo, muito por força da oposição movida por países como a Venezuela, Argentina e Brasil, especialmente empenhados em defender as particularidades das suas economias nacionais e em dinamizar soluções para uma realidade social dramática que afecta milhões de pessoas na América Latina.
A declaração final, negociada palmo a palmo e até aos últimos momentos pelos representantes norte-americanos, não estabelece o ano de 2004 como prazo para o fecho das negociações do dossier ALCA e não inclui a chamada «cláusula de transparência», temas caros aos interesses de Washington na região, historicamente considerada como o seu «quintal das traseiras».
A ditadura do «eixo do mal», neste caso transvertida de garantia da democraticidade, também não avançou como pretendiam os EUA, uma vez que não foi possível esclarecer o que se considerava por democracia, sendo o ponto relegado para futuros encontros.
O plano de recolonização militar de Bush, através da presença de tropas para exercícios militares, não avançou com a fluidez que desejava o império, muito embora ele seja uma realidade programada em países como o Peru e o Paraguai.
Finalmente, o combate à corrupção pôs a nu a afronta, quando em relação a esta matéria Washington teve que esperar por uma segunda oportunidade. As questões levantadas pelas delegações da Venezuela, Argentina e Brasil passaram pela inclusão de uma moldura penal para as entidades privadas acusadas deste crime e pela definição mais rigorosa do que se pretende dizer quando se fala de corrupção.
Na memória dos opositores estarão com certeza os exemplos de «justiça social» e «lisura» na governação de Carlos Menem, na Argentina, ou Sánchez Losada, na Bolívia, executivos que, a seu tempo, granjearam dos bons favores da Casa Branca, à custa de milhares de seres humanos que vivem com menos de um dólar por dia e morrem de doenças facilmente tratáveis.
As crises falaram mais alto. A derrocada das economias e o agravamento das condições de vida da esmagadora maioria do povo obrigaram a mudanças drásticas, não compagináveis com os modelos de desenvolvimento transplantados pelo Fundo Monetário Internacional.
A espoliação dos recursos e a cobrança dos interesses das multinacionais aos países da América latina ficam, para já, e na sua plenitude, adiados.
A captação de mercados para a resolução de uma parte da dívida externa americana volta-se, no imediato, para outro saque, o do petróleo do Iraque.
Presente envenenado
Os temas agendados para o convénio eram a luta contra a pobreza e o crescimento equitativo, o desenvolvimento sustentado e a governabilidade democrática que, apesar de tudo, foram incluídos no texto final.
Mas cedo se percebeu que os objectivos traçados pelos EUA relegavam estes assuntos para as declarações finais de boas intenções e centravam-se fundamentalmente no alargamento da esfera neoliberal e militarista do seu aparelho, intentos para os quais contava com a vassalagem do anfitrião, Vicente Fox.
O presidente mexicano foi, segundo relatos da imprensa internacional, duramente criticado no seu país, tendo mesmo sido obrigado a convocar uma conferência de imprensa para retorquir às acusações de que estaria a representar o papel de lacaio de Bush.
A vassalagem do chefe de Estado do México ao homólogo americano valeu-lhe ainda a intensificação do debate interno sobre questões como a política de emigração, o combate à corrupção e a presença de seguranças armados nos voos entre os dois países.
Esta última questão havia dominado a actualidade no México durante a semana que antecedeu a cimeira, ao ser revelado publicamente que, desde final de 2003, agentes do FBI comandavam uma força de segurança nos principais aeroportos do país com a missão de interrogar todos os que considerassem suspeitos de terrorismo.
Os atrasos nas ligações aéreas levaram a um reforço da presença de polícias norte-americanos – que até já dispunham de um escritório nas instalações do aeroporto da Cidade do México – o que despoletou uma onda de protestos e acusações de perda de soberania nacional.
O caso brasileiro, que passou a controlar todos os passageiros provenientes dos EUA tal como estes fazem aos cidadãos daquele país, foi apontado pela oposição mexicana como uma postura firme e um exemplo a seguir.
A indignação chegou mesmo a círculos próximos de Fox, facto que obrigou o Congresso a pedir a presença em plenário dos ministros das Comunicações e da Segurança para explicarem a situação.
As palavras de apreço dirigidas por Bush no discurso final podem, dadas as circunstâncias, ser amargas para a estabilidade de Fox na política caseira, revelando-se um autêntico presente envenenado.
Diplomacia da provocação
Cuba, excluída das cimeiras em 1962, não marca presença nas reuniões por imposição americana, mas nem por isso deixa de estar debaixo da mira dos EUA, quanto mais não seja para provocar a violência verbal contra Kirchener, Chavez, as Farc ou o movimento camponês e indígena boliviano. No início deste mês os diplomatas norte-americanos proferiram uma série de declarações que ilustram esta conclusão.
Posteriormente a uma reunião entre o primeiro-ministro argentino, Rafael Bielsa, e o embaixador americano em Buenos Aires, Lino Gutierrez, o secretário adjunto para assuntos do Hemisfério Ocidental, Roger Noriega, afirmou que «a política Argentina virou à esquerda. Isto é desconcertante porque a Argentina é um país importante que deveria estar ao nosso lado na promoção dos direitos humanos e da democracia. Quando o senhor Bielsa viajou até Havana e não se reuniu com nenhum dos dissidentes enviou um sinal muito negativo da política externa argentina».
Anteriormente já o porta-voz do Departamento de Estado, Adam Ereli, havia inaugurado as hostilidades preparatórias da cimeira. Citado pelo New Herald Tribune, Ereli destacava para o meeting de Monterrey o «regime de Castro» que, disse, «tem uma larga história de tentar minar os governos democráticos da região. Por essa razão os laços estreitos entre Cuba e a Venezuela causam preocupação nos meios democráticos venezuelanos».
Hugo Chavez, Fidel Castro e Nestor Kirchener são espinhas na garganta do império, que não se conforma com o carácter progressista e popular das suas linhas de orientação política.
Com intenções provocadoras ou manobras de intimidação, o factual é que, antes da cimeira, foram postas a circular, pelas agências internacionais, informações que davam nota da preocupação dos norte-americanos face aos apoios concedidos por Chavez e Kirchener a líderes como Evo Morales, na Bolívia, ou a movimentos como as Farc, na Colômbia e outros de raiz camponesa ou indígena espalhados um pouco por todo o subcontinente.
Bush esperava arrecadar dividendos precisos e imediatos da antecipação da cimeira. Não o conseguiu em face da resistência da Argentina, Venezuela e Brasil, cujas posições relembraram que um dia toda a América Latina se levantará contra o imperador.
Chavez, Kirchener e Lula
Progresso, soberania e cooperação
Paralelamente à cimeira de Monterrey, os encontros bilaterais sucederam-se, permitindo o estabelecimento de laços de cooperação susceptíveis de contrariar a pressão norte-americana.
Enquanto milhares de pessoas desfilavam nas ruas ou participavam num Fórum alternativo à cimeira, no qual se discutiram problemas e soluções mais consentâneas com os interesses dos povos, os líderes da Venezuela, Argentina e Brasil desdobravam-se em encontros para concertar posições.
Na conversa entre Chavez e Lula chegou mesmo a alcançar-se o entendimento em relação à cooperação energética e ao aumento da circulação de investimento entre os dois países.
Tão importante como este, foi o pacto comercial estabelecido entre a Comunidade Andina – constituída pela Bolívia, Colômbia, Peru, Equador e Venezuela – e o Mercosul – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – permitindo pontes comerciais e de cooperação estreitas entre os dois universos.
O presidente argentino também se encontrou com estes dois líderes, mas foi no discurso de encerramento da cimeira que Nestor Kirchener fustigou os interesses norte-americanos, já depois de na reunião com Bush ter rejeitado as soluções do FMI para a crise no seu país.
Perante os chefes de Estado do continente americano, Kirchener culpabilizou o modelo neoliberal pela ruína das economias sul-americanas, nomeadamente no que toca à abertura indiscriminada dos mercados, às privatizações de serviços e bens anteriormente de propriedade estatal e a desregulação do investimento.
Ainda em relação a estes pontos, Kirchener afirmou, tal como Lula, que enquanto o projecto ALCA continuar a apresentar as mesmas soluções anti-populares e com efeitos devastadores para as condições de vida do povo, continuará a ser o principal motor da perpetuação das injustiças sociais.
O discurso agradou ao venezuelano Hugo Chavez, que declarou que a ALCA «é um cadáver e, como tal, estamos obrigados perante os nossos povos a encontrar soluções para a contrariar», apresentando em seguida a proposta de constituição de uma Alternativa Bolivariana para a América (ALBA), baseada nos pressupostos da cooperação entre iguais e do progresso social.
Depois de ter declarado, no plenário, que a Venezuela erradicará a pobreza até 2021 e que, nos últimos anos, a taxa de escolaridade obrigatória elevou-se no país de 55 para 70 por cento, Chavez sublinhou, no final, em declarações aos jornalistas, que não estava surpreendido com o facto de não ter sido proposto pelos EUA um prazo para a resolução da miséria e do analfabetismo, tal como o fizeram para a entrada em vigor da ALCA.
A declaração final, negociada palmo a palmo e até aos últimos momentos pelos representantes norte-americanos, não estabelece o ano de 2004 como prazo para o fecho das negociações do dossier ALCA e não inclui a chamada «cláusula de transparência», temas caros aos interesses de Washington na região, historicamente considerada como o seu «quintal das traseiras».
A ditadura do «eixo do mal», neste caso transvertida de garantia da democraticidade, também não avançou como pretendiam os EUA, uma vez que não foi possível esclarecer o que se considerava por democracia, sendo o ponto relegado para futuros encontros.
O plano de recolonização militar de Bush, através da presença de tropas para exercícios militares, não avançou com a fluidez que desejava o império, muito embora ele seja uma realidade programada em países como o Peru e o Paraguai.
Finalmente, o combate à corrupção pôs a nu a afronta, quando em relação a esta matéria Washington teve que esperar por uma segunda oportunidade. As questões levantadas pelas delegações da Venezuela, Argentina e Brasil passaram pela inclusão de uma moldura penal para as entidades privadas acusadas deste crime e pela definição mais rigorosa do que se pretende dizer quando se fala de corrupção.
Na memória dos opositores estarão com certeza os exemplos de «justiça social» e «lisura» na governação de Carlos Menem, na Argentina, ou Sánchez Losada, na Bolívia, executivos que, a seu tempo, granjearam dos bons favores da Casa Branca, à custa de milhares de seres humanos que vivem com menos de um dólar por dia e morrem de doenças facilmente tratáveis.
As crises falaram mais alto. A derrocada das economias e o agravamento das condições de vida da esmagadora maioria do povo obrigaram a mudanças drásticas, não compagináveis com os modelos de desenvolvimento transplantados pelo Fundo Monetário Internacional.
A espoliação dos recursos e a cobrança dos interesses das multinacionais aos países da América latina ficam, para já, e na sua plenitude, adiados.
A captação de mercados para a resolução de uma parte da dívida externa americana volta-se, no imediato, para outro saque, o do petróleo do Iraque.
Presente envenenado
Os temas agendados para o convénio eram a luta contra a pobreza e o crescimento equitativo, o desenvolvimento sustentado e a governabilidade democrática que, apesar de tudo, foram incluídos no texto final.
Mas cedo se percebeu que os objectivos traçados pelos EUA relegavam estes assuntos para as declarações finais de boas intenções e centravam-se fundamentalmente no alargamento da esfera neoliberal e militarista do seu aparelho, intentos para os quais contava com a vassalagem do anfitrião, Vicente Fox.
O presidente mexicano foi, segundo relatos da imprensa internacional, duramente criticado no seu país, tendo mesmo sido obrigado a convocar uma conferência de imprensa para retorquir às acusações de que estaria a representar o papel de lacaio de Bush.
A vassalagem do chefe de Estado do México ao homólogo americano valeu-lhe ainda a intensificação do debate interno sobre questões como a política de emigração, o combate à corrupção e a presença de seguranças armados nos voos entre os dois países.
Esta última questão havia dominado a actualidade no México durante a semana que antecedeu a cimeira, ao ser revelado publicamente que, desde final de 2003, agentes do FBI comandavam uma força de segurança nos principais aeroportos do país com a missão de interrogar todos os que considerassem suspeitos de terrorismo.
Os atrasos nas ligações aéreas levaram a um reforço da presença de polícias norte-americanos – que até já dispunham de um escritório nas instalações do aeroporto da Cidade do México – o que despoletou uma onda de protestos e acusações de perda de soberania nacional.
O caso brasileiro, que passou a controlar todos os passageiros provenientes dos EUA tal como estes fazem aos cidadãos daquele país, foi apontado pela oposição mexicana como uma postura firme e um exemplo a seguir.
A indignação chegou mesmo a círculos próximos de Fox, facto que obrigou o Congresso a pedir a presença em plenário dos ministros das Comunicações e da Segurança para explicarem a situação.
As palavras de apreço dirigidas por Bush no discurso final podem, dadas as circunstâncias, ser amargas para a estabilidade de Fox na política caseira, revelando-se um autêntico presente envenenado.
Diplomacia da provocação
Cuba, excluída das cimeiras em 1962, não marca presença nas reuniões por imposição americana, mas nem por isso deixa de estar debaixo da mira dos EUA, quanto mais não seja para provocar a violência verbal contra Kirchener, Chavez, as Farc ou o movimento camponês e indígena boliviano. No início deste mês os diplomatas norte-americanos proferiram uma série de declarações que ilustram esta conclusão.
Posteriormente a uma reunião entre o primeiro-ministro argentino, Rafael Bielsa, e o embaixador americano em Buenos Aires, Lino Gutierrez, o secretário adjunto para assuntos do Hemisfério Ocidental, Roger Noriega, afirmou que «a política Argentina virou à esquerda. Isto é desconcertante porque a Argentina é um país importante que deveria estar ao nosso lado na promoção dos direitos humanos e da democracia. Quando o senhor Bielsa viajou até Havana e não se reuniu com nenhum dos dissidentes enviou um sinal muito negativo da política externa argentina».
Anteriormente já o porta-voz do Departamento de Estado, Adam Ereli, havia inaugurado as hostilidades preparatórias da cimeira. Citado pelo New Herald Tribune, Ereli destacava para o meeting de Monterrey o «regime de Castro» que, disse, «tem uma larga história de tentar minar os governos democráticos da região. Por essa razão os laços estreitos entre Cuba e a Venezuela causam preocupação nos meios democráticos venezuelanos».
Hugo Chavez, Fidel Castro e Nestor Kirchener são espinhas na garganta do império, que não se conforma com o carácter progressista e popular das suas linhas de orientação política.
Com intenções provocadoras ou manobras de intimidação, o factual é que, antes da cimeira, foram postas a circular, pelas agências internacionais, informações que davam nota da preocupação dos norte-americanos face aos apoios concedidos por Chavez e Kirchener a líderes como Evo Morales, na Bolívia, ou a movimentos como as Farc, na Colômbia e outros de raiz camponesa ou indígena espalhados um pouco por todo o subcontinente.
Bush esperava arrecadar dividendos precisos e imediatos da antecipação da cimeira. Não o conseguiu em face da resistência da Argentina, Venezuela e Brasil, cujas posições relembraram que um dia toda a América Latina se levantará contra o imperador.
Chavez, Kirchener e Lula
Progresso, soberania e cooperação
Paralelamente à cimeira de Monterrey, os encontros bilaterais sucederam-se, permitindo o estabelecimento de laços de cooperação susceptíveis de contrariar a pressão norte-americana.
Enquanto milhares de pessoas desfilavam nas ruas ou participavam num Fórum alternativo à cimeira, no qual se discutiram problemas e soluções mais consentâneas com os interesses dos povos, os líderes da Venezuela, Argentina e Brasil desdobravam-se em encontros para concertar posições.
Na conversa entre Chavez e Lula chegou mesmo a alcançar-se o entendimento em relação à cooperação energética e ao aumento da circulação de investimento entre os dois países.
Tão importante como este, foi o pacto comercial estabelecido entre a Comunidade Andina – constituída pela Bolívia, Colômbia, Peru, Equador e Venezuela – e o Mercosul – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – permitindo pontes comerciais e de cooperação estreitas entre os dois universos.
O presidente argentino também se encontrou com estes dois líderes, mas foi no discurso de encerramento da cimeira que Nestor Kirchener fustigou os interesses norte-americanos, já depois de na reunião com Bush ter rejeitado as soluções do FMI para a crise no seu país.
Perante os chefes de Estado do continente americano, Kirchener culpabilizou o modelo neoliberal pela ruína das economias sul-americanas, nomeadamente no que toca à abertura indiscriminada dos mercados, às privatizações de serviços e bens anteriormente de propriedade estatal e a desregulação do investimento.
Ainda em relação a estes pontos, Kirchener afirmou, tal como Lula, que enquanto o projecto ALCA continuar a apresentar as mesmas soluções anti-populares e com efeitos devastadores para as condições de vida do povo, continuará a ser o principal motor da perpetuação das injustiças sociais.
O discurso agradou ao venezuelano Hugo Chavez, que declarou que a ALCA «é um cadáver e, como tal, estamos obrigados perante os nossos povos a encontrar soluções para a contrariar», apresentando em seguida a proposta de constituição de uma Alternativa Bolivariana para a América (ALBA), baseada nos pressupostos da cooperação entre iguais e do progresso social.
Depois de ter declarado, no plenário, que a Venezuela erradicará a pobreza até 2021 e que, nos últimos anos, a taxa de escolaridade obrigatória elevou-se no país de 55 para 70 por cento, Chavez sublinhou, no final, em declarações aos jornalistas, que não estava surpreendido com o facto de não ter sido proposto pelos EUA um prazo para a resolução da miséria e do analfabetismo, tal como o fizeram para a entrada em vigor da ALCA.