TODOS OS ANOS NO NATAL
«Certos, certos são os aumentos dos bens e serviços essenciais»
Naquele jeito tão dele de ler pessimamente o que finge estar a dizer de improviso, com entonações de voz desencontradas, pondo um ar sério quando era suposto fazer um sorriso, sorrindo quando o texto pedia um ar sério, o Primeiro-Ministro executou a tradicional mensagem de Natal. Reconhecendo, em confissão retardada, que «2003 foi um ano muito difícil» (há um ano disse: «2002 foi um ano difícil»), aludiu a «sinais positivos, sinais de confiança e de esperança» (há um ano disse: «Há razões para ter esperança») por ele lobrigados na promissora Europa e que lhe permitem prometer-nos, em tom de triunfo antecipado, que 2004 «será um ano melhor (...) será um ano de recuperação» (há um ano disse: «Há sinais de que vamos vencer as dificuldades»). A anunciada recuperação arrastará consigo, segundo Durão Barroso, as soluções para todos os males que, ficamos agora a saber, afligem a imensa maioria dos portugueses, nomeadamente o desemprego e as condições de vida. Quanto ao desemprego - «o drama que pessoalmente mais me preocupa» - o Primeiro Ministro promete acabar com ele. Como? Da mesma forma que todos os seus antecessores o fizeram: «criando novos postos de trabalho. Gerando mais emprego para todos, mas especialmente para os jovens que começam a sua vida de trabalho»... E, num arrebatamento vibrante, profetizou que «os jovens portugueses são, já hoje, a garantia do Portugal moderno que todos ambicionamos» - profecia ousada, se se tiver em conta que os jovens portugueses, hoje, apenas têm à sua frente, barrando-lhes o futuro a que têm direito, os obstáculos, as barreiras, os muros espessos erguidos pela política de direita praticada por sucessivos governos ao longo de mais de duas décadas.
Sempre representando o papel de Pai Natal, fingindo carregar ao ombro o saco a abarrotar de presentes, Durão Barroso prosseguiu a anunciação de prendas para o ano que aí vem (que, por sinal, são as mesmas do ano passado): «melhorar o poder de compra de cada família, aumentar mais as pensões de reforma dos idosos, prestar um apoio melhor às pessoas com deficiência». Não explicou como nem quando se concretizariam tais benesses – e percebe-se que assim tenha sido: trata-se de promessas de Natal, que mais não são do que uma variante das promessas eleitorais, portanto para captar simpatias ou votos e nunca para cumprir. No entanto, se nos lembrarmos dos últimos aumentos prodigalizados pelo benemérito Governo Barroso/Portas – a saber: cerca de uma bica por dia para o salário mínimo nacional e ainda menos do que isso para os reformados – não é difícil adivinhar o que nos espera. Tanto mais que, de acordo com a tradição, certos, certos são os aumentos - nunca prometidos mas sempre cumpridos! - dos bens e serviços essenciais. Aumentos tão tradicionais em Janeiro como tradicionais são as promessas de bem-aventurança dos primeiros-ministros no Natal. Desses aumentos, no entanto, não falou Durão Barroso (tal como no ano passado). Talvez por não serem dramas que, pessoalmente, o preocupem. Todavia, o pão vai aumentar (35% ao que se diz), e a electricidade, as portagens, as rendas de casa, os seguros obrigatórios de automóveis, os serviços jurídicos... vão sofrer aumentos entre os 2,1 e os 7%... E não se sabe ao certo se os inevitáveis aumentos da água, das telecomunicações, dos transportes públicos, dos correios... estão também incluídos na grande vaga de Janeiro ou se integrarão uma outra enorme onda lá para os fins do primeiro trimestre de 2004. Mas sabe-se que aumentarão os preços de todos os bens alimentares (com os quais o Governo parece nada ter a ver e que são regidos pelo mercado, isto é, pelos proprietários das grandes superfícies).
Quer isto dizer que, mesmo fazendo o supremo esforço de acreditar que, como nos garante a piedosa Ministra das Finanças, a inflação andará entre 1,5 e 2,5%, o poder de compra dos portugueses, na sequência do que aconteceu em 2003 e em 2002..., vai continuar em quebra neste ano da graça de 2004 – o tal que, de acordo com a promessa solene do Primeiro Ministro, «será melhor».
A situação internacional foi também tema abordado pelo Primeiro-Ministro na sua conversa em família: «Para Portugal viver mais seguro é necessário um mundo em paz» - proclamou sentenciosamente. E, seguindo o patriótico critério de considerar que «um mundo em paz» é um mundo sujeito às ordens do imperialismo norte-americano, um mundo em que qualquer país que não aceite ou conteste o domínio imperial está condenado à invasão e à ocupação, classificou a presença de um contingente da GNR no Iraque como «uma missão de alto risco» ao serviço de «um projecto de paz que honra o nome de Portugal». Que a missão é de alto risco ninguém duvida: basta ler ou ouvir as notícias que todos os dias chegam do Iraque e que dão conta do prosseguimento da heróica resistência do povo iraquiano. Quanto a eventuais consequências trágicas dessa missão, Durão Barroso continua a fingir ignorá-las, mas também não há dúvidas: elas serão da responsabilidade do Governo de que ele é Primeiro-Ministro. Tanto mais que, como muito bem sabe o chefe do Governo, não só não se trata de «um projecto de paz» como estamos perante um brutal acto de guerra, um sangrento crime contra a Humanidade que já provocou milhares de vítimas inocentes – pelo que, a integração de um contingente português nas forças de ocupação, longe de honrar o nome de Portugal, antes o avilta e envergonha.
Sempre representando o papel de Pai Natal, fingindo carregar ao ombro o saco a abarrotar de presentes, Durão Barroso prosseguiu a anunciação de prendas para o ano que aí vem (que, por sinal, são as mesmas do ano passado): «melhorar o poder de compra de cada família, aumentar mais as pensões de reforma dos idosos, prestar um apoio melhor às pessoas com deficiência». Não explicou como nem quando se concretizariam tais benesses – e percebe-se que assim tenha sido: trata-se de promessas de Natal, que mais não são do que uma variante das promessas eleitorais, portanto para captar simpatias ou votos e nunca para cumprir. No entanto, se nos lembrarmos dos últimos aumentos prodigalizados pelo benemérito Governo Barroso/Portas – a saber: cerca de uma bica por dia para o salário mínimo nacional e ainda menos do que isso para os reformados – não é difícil adivinhar o que nos espera. Tanto mais que, de acordo com a tradição, certos, certos são os aumentos - nunca prometidos mas sempre cumpridos! - dos bens e serviços essenciais. Aumentos tão tradicionais em Janeiro como tradicionais são as promessas de bem-aventurança dos primeiros-ministros no Natal. Desses aumentos, no entanto, não falou Durão Barroso (tal como no ano passado). Talvez por não serem dramas que, pessoalmente, o preocupem. Todavia, o pão vai aumentar (35% ao que se diz), e a electricidade, as portagens, as rendas de casa, os seguros obrigatórios de automóveis, os serviços jurídicos... vão sofrer aumentos entre os 2,1 e os 7%... E não se sabe ao certo se os inevitáveis aumentos da água, das telecomunicações, dos transportes públicos, dos correios... estão também incluídos na grande vaga de Janeiro ou se integrarão uma outra enorme onda lá para os fins do primeiro trimestre de 2004. Mas sabe-se que aumentarão os preços de todos os bens alimentares (com os quais o Governo parece nada ter a ver e que são regidos pelo mercado, isto é, pelos proprietários das grandes superfícies).
Quer isto dizer que, mesmo fazendo o supremo esforço de acreditar que, como nos garante a piedosa Ministra das Finanças, a inflação andará entre 1,5 e 2,5%, o poder de compra dos portugueses, na sequência do que aconteceu em 2003 e em 2002..., vai continuar em quebra neste ano da graça de 2004 – o tal que, de acordo com a promessa solene do Primeiro Ministro, «será melhor».
A situação internacional foi também tema abordado pelo Primeiro-Ministro na sua conversa em família: «Para Portugal viver mais seguro é necessário um mundo em paz» - proclamou sentenciosamente. E, seguindo o patriótico critério de considerar que «um mundo em paz» é um mundo sujeito às ordens do imperialismo norte-americano, um mundo em que qualquer país que não aceite ou conteste o domínio imperial está condenado à invasão e à ocupação, classificou a presença de um contingente da GNR no Iraque como «uma missão de alto risco» ao serviço de «um projecto de paz que honra o nome de Portugal». Que a missão é de alto risco ninguém duvida: basta ler ou ouvir as notícias que todos os dias chegam do Iraque e que dão conta do prosseguimento da heróica resistência do povo iraquiano. Quanto a eventuais consequências trágicas dessa missão, Durão Barroso continua a fingir ignorá-las, mas também não há dúvidas: elas serão da responsabilidade do Governo de que ele é Primeiro-Ministro. Tanto mais que, como muito bem sabe o chefe do Governo, não só não se trata de «um projecto de paz» como estamos perante um brutal acto de guerra, um sangrento crime contra a Humanidade que já provocou milhares de vítimas inocentes – pelo que, a integração de um contingente português nas forças de ocupação, longe de honrar o nome de Portugal, antes o avilta e envergonha.