- Nº 1566 (2003/12/4)

Ciência «prudente» - o que é?

Argumentos

Em finais de Julho, numa daquelas abafadíssimas noites do último Verão , lá fui até ao debate na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa. O programa? Prometia, não prometeria assim tanto? Era um debate sobre uma questão em voga nos últimos tempos. Sobre o valor do conhecimento científico - digamos assim.
Não me recordo com exactidão do nome do congresso (ou conferência) ao (à) qual estava associado (a) o referido debate. Nem do título do próprio debate. Neste deambular com rapidez pela vida de todos os dias, li - e reparei - que o congresso era na área da Física Matemática, que - tanto quanto me recordo -, aproveitando a sua presença no congresso, estariam no painel da sessão, entre outros - portugueses e estrangeiros, porventura de qualidade equivalente mas menos mediáticos -, dizia, iam participar no painel o americano Sokal e o belga Bricmont - tornados famosos pela publicação do livro «Imposturas Intelectuais» - e o sociólogo Boaventura Sousa Santos - conhecido pelas suas posições escritos sobre, entre outras coisas, a relatividade do valor do conhecimento científico. Prometia ser estimulante. Mais a mais, encontrando-me eu quase imobilizado por via da sufocante vaga de calor que então grassava.
Presente - no público - esteve também António Manuel Baptista, autor do livro «Discurso Pós-Moderno contra a Ciência - Obscurantismo e Irresponsabilidade Intelectuais». Este cientista tem assumido, nos últimos tempos, um papel destacado neste confronto, em particular, na altercação com Boaventura Sousa Santos. Já temos abordado esta questão - mas agora não iremos por aí. E António Manuel Baptista não deixou de intervir no debate com grande vigor, repetindo os argumentos deste seu livro.
Boaventura Sousa Santos encontrava-se praticamente só no que pode ser considerado ser o seu lado. De facto, caiu num «antro» quase só povoado por físicos/matemáticos. E desempenhou-se com grande desenvoltura.
Por exemplo, numa situação de desvantagem, foi-lhe fácil demonstrar a sua abertura e coragem por ter aceite participar num tal debate - provocou, assim, um reacção que lhe conferiu uma certa superioridade moral: uma primeira vitória.
Depois, veio uma segunda vitória. Os interlocutores, não apenas os que tinham como língua materna o português, mas todos os outros, pareciam estar lá fundamentalmente para criticar Boaventura Sousa Santos mais o seu discurso pós-moderno contra a ciência. E de facto, baseando-se sobre os seus escritos, que demonstraram conhecer bem, afirmaram-se prontos para tal tarefa. Com isso, vincaram os outros participantes no debate sobretudo a importância atribuída à obra de Boaventura Sousa Santos nesta área.
Contudo uma terceira e mais fundamental vitória foi coisa que Boaventura Sousa Santos não logrou alcançar. A meu ver. Refiro-me à sua argumentação. Esta foi desde logo orientada para as aplicações que podem ser realizadas com base no conhecimento científico, fugindo às questões de validade e de verdade desta forma de conhecer. Fugindo pois, com clareza, à problemática epistemológica - como soe dizer-se -, inclusive abjurando explicitamente o pós-modernismo perante os presentes, Boaventura Sousa Santos tentou escapar ao tema do debate, procurando virá-lo para as candentes problemas derivados (eu diria continuados) com a globalização. Aqui radicou a sua derrota, tendo vários dos parceiros de debate desmascarado tal pouca vergonha (pouca vergonha, porque alguma ainda lhe terá sobrado).
«Ciência prudente para uma vida decente» , foi um slogan lançado por Boaventura Sousa Santos nesse debate, no processo de conduzi-lo no tal sentido desejado. Ora, se bem que compreenda e possa apoiar, em termos genéricos o termo «vida decente», o mesmo já não consigo fazer com o desarrincanço da «ciência prudente» - e aqui estará a base de um provocado mal entendido. O nosso protagonista não só, tendo aceitado participar no debate, fugindo ao desagradável (para ele, pelos vistos) tema proposto, como caiu naquela do gato escondido com rabo de fora.
Confusão, porque não sei eu, nem sei de quem saiba, de que trataria uma ciência prudente. Será uma ciência que não procura a verdade, porque tem medo de vir a conhecer? É o conhecimento em si que é mau e imprudente? Comida a maçã, começamos a ver tudo desnudado, perdendo, assim, o sentido do pudor? Vá-se lá saber - ia eu matutando na volta a casa.
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Julho de 2003.

Francisco Silva