SOBRE AS RENTRÉES
«É um dado conhecido que o PCP não fecha para férias»
Passadas as férias, durante as quais os partidos tradicionais pararam a sua actividade, chegou o tempo das rentrées. Cada partido prepara, com mil cuidados, a iniciativa de re-apresentação do seu líder aos militantes mais indefectíveis. Os analistas fazem previsões sobre o conteúdo dos discursos que irão ser proferidos e, sem terem necessidade de espremer as meninges, acertam em cheio.
Este ano, a pretexto da primeira rentrée acontecida – a do PS, com Ferro Rodrigues como principal protagonista – houve quem recordasse as rentrées anteriores, desde as primeiras assim chamadas até às mais recentes. Recordou-se o Pontal e a Pontinha, Cavaco Silva e António Guterres – dois políticos com percursos similares: o primeiro, quando se apercebeu de que ia sofrer uma estrondosa derrota eleitoral, abandonou o cargo de Primeiro Ministro, fez-se substituir por um colega de partido ao qual, num gesto bem revelador, tirou o tapete no decorrer da campanha eleitoral; o segundo fugiu após uma derrota eleitoral: abandonou as suas responsabilidades e empurrou o País para eleições antecipadas e para a vitória da direita e da extrema-direita. Escusado será dizer que estas relembranças das tropelias politiqueiras dos dois ex-líderes do PSD e do PS não constam das recordações de nenhum órgão da comunicação social dominante.
Este ano, o PS foi a primeiro a rentrar. «Algumas centenas de militantes», oriundos de vários pontos do País, juntaram-se em Portimão para ouvir a voz do líder. Antes comeram sardinhas assadas, batata(s) e vinho - «Eu não gosto de ser enganado. Duas sardinhas, meia batata e meio copo de vinho por cinco euros?» - ouviram e, presume-se, cantaram «As Meninas da Ribeira do Sado», enfim participaram à maneira deles.
Ferro Rodrigues fez, no sábado, o discurso cujo conteúdo os jornais haviam anunciado na sexta: algumas críticas de circunstância a alguns aspectos da política do Governo, o justo mas velho alerta face à dominância da extrema-direita no Governo e mais meia dúzia de referências a malefícios que são consequência de uma determinada política. Mas Ferro Rodrigues não se mostrou preocupado com o crescente empobrecimento do conteúdo democrático do regime, passou ao lado do antidemocrático pacote laboral e não disse uma palavra sobre as sinistras e fascizantes leis dos partidos e do seu financiamento (que, aliás, o PS apoiou e aprovou). Ou seja, não criticou, em momento algum, a essência da política de direita, o seu conteúdo de classe, a sua função de defender os interesses do grande capital e de violar os interesses e direitos de quem trabalha e vive do seu trabalho. À semelhança dos anteriores líderes do PS, fez o discurso não essencialmente de crítica à política do Governo mas essencialmente de crítica ao Governo, o discurso de quem quer substituir o Governo não para mudar de política mas para prosseguir, no essencial, essa política.
As restantes rentrées estão já anunciadas: Durão Barroso, deslocar-se-á a Caminha para nos dizer (diz-se) que o País está à beirinha de entrar no paraíso onde Cavaco Silva, primeiro, e António Guterres, depois, nos garantiram, jurando a pés juntos, que tínhamos entrado – e para ficar.
Quanto ao CDS/PP, a grande notícia é que adiou a sua rentrée. Porquê? Porque, entretanto, tem um congresso para fazer. Sabe-se, é verdade, que neste partido a preparação de um congresso não comporta grandes exigências - há participação dos membros do partido na definição das orientações do partido, na escolha da sua direcção, do seu líder?: não, não há, o CDS/PP é um partido democrático (segundo o conceito definido pela chamada «lei dos partidos»), utiliza o voto secreto, prescinde do conteúdo participativo no seu funcionamento interno, pelo que, em tais circunstâncias, com umas centenas de telefonemas está o congresso preparado. Depois, é só juntarem-se todos, discursarem ou ouvirem discursar e votar.
Rentrée a abarrotar de modernidade é, como se esperava, a do Bloco de Esquerda. Em vez do «habitual formato comício» (que dá trabalho a organizar e tem a enorme desvantagem de proporcionar a contagem dos presentes...), o BE opta por «acções de formação política e conferências, a cargo dos dirigentes do partido» - acções que, presume-se, terão como objectivo maior demonstrar que «o PS está no bom caminho». E que o BE não procura outra coisa que não seja seguir, também ele, por esse «bom caminho».
Insistem todos os jornais em situar a rentrée do PCP na Festa do Avante!. Já que tanto insistem, aceitemos que assim seja, mas sublinhando as características singulares da nossa rentrée. Sendo óbvio que os militantes comunistas têm férias como outros cidadãos as têm, é também um dado conhecido que o PCP não fecha para férias. Todos os anos, durante o período de férias – para além da actividade política que não pára - milhares de militantes comunistas constróem a Festa do Avante!, em jornadas de trabalho que são, cada uma delas, uma autêntica rentrée... Assim, no sábado passado estavam mais militantes e simpatizantes comunistas a trabalhar na Quinta da Atalaia (trabalho voluntário, pois claro, daquele que é indispensável para a construção do novo, do futuro) do que membros do PS a assistir à intervenção do líder do seu partido na rentrée de Portimão.
E no fim de semana anterior o mesmo se passara. E no próximo fim de semana assim voltará a ser. Depois, na Festa, domingo à tarde, teremos o nosso comício, a que os jornais – repetitivos, monótonos, cinzentos - vão chamar rentrée. Mas que os comunistas sabem ser mais uma etapa da sua luta de todos os dias.
Este ano, a pretexto da primeira rentrée acontecida – a do PS, com Ferro Rodrigues como principal protagonista – houve quem recordasse as rentrées anteriores, desde as primeiras assim chamadas até às mais recentes. Recordou-se o Pontal e a Pontinha, Cavaco Silva e António Guterres – dois políticos com percursos similares: o primeiro, quando se apercebeu de que ia sofrer uma estrondosa derrota eleitoral, abandonou o cargo de Primeiro Ministro, fez-se substituir por um colega de partido ao qual, num gesto bem revelador, tirou o tapete no decorrer da campanha eleitoral; o segundo fugiu após uma derrota eleitoral: abandonou as suas responsabilidades e empurrou o País para eleições antecipadas e para a vitória da direita e da extrema-direita. Escusado será dizer que estas relembranças das tropelias politiqueiras dos dois ex-líderes do PSD e do PS não constam das recordações de nenhum órgão da comunicação social dominante.
Este ano, o PS foi a primeiro a rentrar. «Algumas centenas de militantes», oriundos de vários pontos do País, juntaram-se em Portimão para ouvir a voz do líder. Antes comeram sardinhas assadas, batata(s) e vinho - «Eu não gosto de ser enganado. Duas sardinhas, meia batata e meio copo de vinho por cinco euros?» - ouviram e, presume-se, cantaram «As Meninas da Ribeira do Sado», enfim participaram à maneira deles.
Ferro Rodrigues fez, no sábado, o discurso cujo conteúdo os jornais haviam anunciado na sexta: algumas críticas de circunstância a alguns aspectos da política do Governo, o justo mas velho alerta face à dominância da extrema-direita no Governo e mais meia dúzia de referências a malefícios que são consequência de uma determinada política. Mas Ferro Rodrigues não se mostrou preocupado com o crescente empobrecimento do conteúdo democrático do regime, passou ao lado do antidemocrático pacote laboral e não disse uma palavra sobre as sinistras e fascizantes leis dos partidos e do seu financiamento (que, aliás, o PS apoiou e aprovou). Ou seja, não criticou, em momento algum, a essência da política de direita, o seu conteúdo de classe, a sua função de defender os interesses do grande capital e de violar os interesses e direitos de quem trabalha e vive do seu trabalho. À semelhança dos anteriores líderes do PS, fez o discurso não essencialmente de crítica à política do Governo mas essencialmente de crítica ao Governo, o discurso de quem quer substituir o Governo não para mudar de política mas para prosseguir, no essencial, essa política.
As restantes rentrées estão já anunciadas: Durão Barroso, deslocar-se-á a Caminha para nos dizer (diz-se) que o País está à beirinha de entrar no paraíso onde Cavaco Silva, primeiro, e António Guterres, depois, nos garantiram, jurando a pés juntos, que tínhamos entrado – e para ficar.
Quanto ao CDS/PP, a grande notícia é que adiou a sua rentrée. Porquê? Porque, entretanto, tem um congresso para fazer. Sabe-se, é verdade, que neste partido a preparação de um congresso não comporta grandes exigências - há participação dos membros do partido na definição das orientações do partido, na escolha da sua direcção, do seu líder?: não, não há, o CDS/PP é um partido democrático (segundo o conceito definido pela chamada «lei dos partidos»), utiliza o voto secreto, prescinde do conteúdo participativo no seu funcionamento interno, pelo que, em tais circunstâncias, com umas centenas de telefonemas está o congresso preparado. Depois, é só juntarem-se todos, discursarem ou ouvirem discursar e votar.
Rentrée a abarrotar de modernidade é, como se esperava, a do Bloco de Esquerda. Em vez do «habitual formato comício» (que dá trabalho a organizar e tem a enorme desvantagem de proporcionar a contagem dos presentes...), o BE opta por «acções de formação política e conferências, a cargo dos dirigentes do partido» - acções que, presume-se, terão como objectivo maior demonstrar que «o PS está no bom caminho». E que o BE não procura outra coisa que não seja seguir, também ele, por esse «bom caminho».
Insistem todos os jornais em situar a rentrée do PCP na Festa do Avante!. Já que tanto insistem, aceitemos que assim seja, mas sublinhando as características singulares da nossa rentrée. Sendo óbvio que os militantes comunistas têm férias como outros cidadãos as têm, é também um dado conhecido que o PCP não fecha para férias. Todos os anos, durante o período de férias – para além da actividade política que não pára - milhares de militantes comunistas constróem a Festa do Avante!, em jornadas de trabalho que são, cada uma delas, uma autêntica rentrée... Assim, no sábado passado estavam mais militantes e simpatizantes comunistas a trabalhar na Quinta da Atalaia (trabalho voluntário, pois claro, daquele que é indispensável para a construção do novo, do futuro) do que membros do PS a assistir à intervenção do líder do seu partido na rentrée de Portimão.
E no fim de semana anterior o mesmo se passara. E no próximo fim de semana assim voltará a ser. Depois, na Festa, domingo à tarde, teremos o nosso comício, a que os jornais – repetitivos, monótonos, cinzentos - vão chamar rentrée. Mas que os comunistas sabem ser mais uma etapa da sua luta de todos os dias.