«Paz social» rompida
A greve geral no Chile representou o fim do «estado de graça» para o governo da Concertação de Partidos pela Democracia que sucedeu à ditadura de Pinochet.
Os trabalhadores chilenos superaram o medo do regresso da ditadura
No passado dia 13, milhões chilenos dos diferentes sectores de actividade aderiram à greve geral convocada pela Central Unitária de Trabalhadores (CUT), em protesto contra o modelo neoliberal vigente, por salários justos e um maior respeito dos direitos laborais.
Treze anos após o fim da ditadura de Pinochet, os trabalhadores chilenos ultrapassaram o espectro da ameaça de novo golpe militar e saíram às ruas por todo o país, numa jornada ficou marcada por diversos incidentes com a polícia, bloqueios de estradas e avenidas, e manifestações nas principais cidades, com destaque para Santiago, onde se realizaram seis desfiles.
Grupos de manifestantes, que conseguiram cortar a avenida frente ao Palácio La Moneda, erguendo bandeiras do Partido Comunista e painéis com palavras de ordem contra o governo, envolveram-se em confrontos com a polícia, arremessando pedras em resposta às granadas de gás lacrimogéneo e aos canhões de água que sobre eles disparavam.
Segundo as agências internacionais, pelo menos 200 pessoas foram detidas, duas ficaram feridas, havendo ainda a registar importantes destruições em edifícios públicos e privados nos diversos incidentes ocorridos em várias regiões.
Para a CUT, a maior organização sindical do país com 640 mil filiados (o Chile tem uma população activa de 5,45 milhões de pessoas e 9,1 por cento de desemprego), a greve foi apoiada por 80 por cento dos trabalhadores sindicalizados, atingindo adesões totais nas classes do professorado e dos funcionários da administração pública. Entre 90 a 95 por cento dos profissionais do sector da Saúde fizeram greve, enquanto nos municípios o protesto foi seguido por 92 por cento dos trabalhadores.
Na capital, 80 por cento dos autocarros não circularam, tendo alguns deles bloqueado várias artérias da cidade, verificando-se igualmente a paragem total dos taxis colectivos. Os principais acessos ao centro começaram a ser cortados às cinco da manhã por piquetes de greve.
Governo abalado
Alarmado com a dimensão do protesto, o presidente chileno, Ricardo Lagos, criticou os actos de violência, afirmando que «os trabalhadores não têm necessidade de gritar para que as suas exigências sejam ouvidas».
Noutro tom, já com a clara intenção de desvalorizar os efeitos da greve, o ministro do Interior, José Miguel Insulza, insistiu «que o país funcionou normalmente, não houve greve, porque 99 por cento do Chile funcionou sem problemas». Ao seu lado, a Associação Nacional de Exportadores Industriais garantia que o absentismo laboral no sector privado apenas tinha atingido 13 por cento, número todavia bastante superior ao anunciado pela Sociedade de Fomento Industrial, a principal associação patronal chilena, que apenas admitiu um efeito da greve de 3,7 por cento nas suas empresas filiadas, limitando o impacto geral na produção económica a 4,6 por cento.
Porém, esta guerra dos números em nada minimiza a importância e significado da greve geral no Chile - país ainda traumatizado pelos horrores da ditadura militar, cujos destinos têm sido decididos, nos últimos 13 anos, por forças que se declaram opositoras ao anterior regime, mas que continuam a governar segundo a constituição, leis e modelo económico de Pinochet.
Treze anos após o fim da ditadura de Pinochet, os trabalhadores chilenos ultrapassaram o espectro da ameaça de novo golpe militar e saíram às ruas por todo o país, numa jornada ficou marcada por diversos incidentes com a polícia, bloqueios de estradas e avenidas, e manifestações nas principais cidades, com destaque para Santiago, onde se realizaram seis desfiles.
Grupos de manifestantes, que conseguiram cortar a avenida frente ao Palácio La Moneda, erguendo bandeiras do Partido Comunista e painéis com palavras de ordem contra o governo, envolveram-se em confrontos com a polícia, arremessando pedras em resposta às granadas de gás lacrimogéneo e aos canhões de água que sobre eles disparavam.
Segundo as agências internacionais, pelo menos 200 pessoas foram detidas, duas ficaram feridas, havendo ainda a registar importantes destruições em edifícios públicos e privados nos diversos incidentes ocorridos em várias regiões.
Para a CUT, a maior organização sindical do país com 640 mil filiados (o Chile tem uma população activa de 5,45 milhões de pessoas e 9,1 por cento de desemprego), a greve foi apoiada por 80 por cento dos trabalhadores sindicalizados, atingindo adesões totais nas classes do professorado e dos funcionários da administração pública. Entre 90 a 95 por cento dos profissionais do sector da Saúde fizeram greve, enquanto nos municípios o protesto foi seguido por 92 por cento dos trabalhadores.
Na capital, 80 por cento dos autocarros não circularam, tendo alguns deles bloqueado várias artérias da cidade, verificando-se igualmente a paragem total dos taxis colectivos. Os principais acessos ao centro começaram a ser cortados às cinco da manhã por piquetes de greve.
Governo abalado
Alarmado com a dimensão do protesto, o presidente chileno, Ricardo Lagos, criticou os actos de violência, afirmando que «os trabalhadores não têm necessidade de gritar para que as suas exigências sejam ouvidas».
Noutro tom, já com a clara intenção de desvalorizar os efeitos da greve, o ministro do Interior, José Miguel Insulza, insistiu «que o país funcionou normalmente, não houve greve, porque 99 por cento do Chile funcionou sem problemas». Ao seu lado, a Associação Nacional de Exportadores Industriais garantia que o absentismo laboral no sector privado apenas tinha atingido 13 por cento, número todavia bastante superior ao anunciado pela Sociedade de Fomento Industrial, a principal associação patronal chilena, que apenas admitiu um efeito da greve de 3,7 por cento nas suas empresas filiadas, limitando o impacto geral na produção económica a 4,6 por cento.
Porém, esta guerra dos números em nada minimiza a importância e significado da greve geral no Chile - país ainda traumatizado pelos horrores da ditadura militar, cujos destinos têm sido decididos, nos últimos 13 anos, por forças que se declaram opositoras ao anterior regime, mas que continuam a governar segundo a constituição, leis e modelo económico de Pinochet.