Formas de expansão (6)
Face à grave situação que a igreja portuguesa enfrenta, os bispos mantêm o discurso optimista dos grandes empresários. Recentemente, D. José Policarpo prometeu ser capaz de erguer em pouco tempo uma nova igreja moldada no Vaticano II e servida por poucos padres. Acácio Catarino, principal mentor da doutrina social católica em Portugal e homem que se tem dedicado à análise das relações Igreja/Mundo, fora anteriormente muito mais comedido ao declarar, há menos de três anos, em Outubro de 2 000: «Falhar no social é, para os cristãos empenhados, tão grave como não ir à missa... Portugal sofre de insuficiências de recursos humanos, técnicos, materiais e pedagógicos e, sem uma melhoria sensível de qualidade, não haverá condições para dinamizar positivamente o tecido social, as actividades cívicas, profissionais e de voluntariado, em ordem a suscitar a produção de ideias, de iniciativas e de obras que permitam mudanças qualitativas da organização social.» Recordou na altura o ex-presidente da CARITAS que a igreja dispunha de uma rede de mais de 2500 associações sociocaritativas, criara 40 000 postos de trabalho e garantia a assistência a 250 000 necessitados. Nesses tempos recentes, a hierarquia católica adoptara até então um aparente distanciamento político denunciando mesmo, como é seu dever moral, algumas situações de pobreza, de injustiça ou de corrupção. Personalidades como Alfredo Bruto da Costa, Manuela Silva ou D. Manuel Martins, chegaram a distinguir-se no plano da intervenção social. Vieram, logo a seguir, as eleições legislativas e a consequente viragem à direita golpista e ao empresariado explorador. Logo os bispos silenciaram. Quando, agora, algum quebra o pacto de silêncio é para descrever, com tintas cor de rosa, a vida ficcionada do povo português (pacífico e dado à reconciliação) que a necessidade obriga a um moderado «apertar do cinto» cujas causas estão sempre longe daqui, fora das fronteiras do país. Eclesiásticos e tecnocratas apenas reproduzem então, com palavras próprias, os argumentos já defendidos pelos políticos e pelos teóricos do neoliberalismo capitalista. Não são porta-vozes do povo católico mas da Igreja, S.A.
No entanto, há que atender-se ao que as palavras dos bispos traduzem. O episcopado teve tempo, em três anos de crise, para solucionar os problemas eclesiais internos? Será capaz a igreja portuguesa de sair desta crise, mais forte e respeitada? Provavelmente a resposta a cada uma destas questões será simultaneamente, não e sim. Como igreja, a doutrina católica não voltará a dispor do antigo prestígio entre as massas populares. Mas o saber acumulado pelas elites praticantes virá a dar os seus frutos. Como grupo empresarial e como lobby político. Afinal, o que as minorias religiosas exigem das suas hierarquias, nestes tempos de crise, é que as políticas confessionais sejam capazes de garantir a penetração profunda das elites no tecido social, aliadas ou não aos interesses laicos dominantes. Porque, nas sociedades modernas, não basta a uma instituição controlar uma malha de uns milhares de organizações dispersas e acantonadas na base popular da pirâmide social. É necessário que o poder da igreja seja efectivo e operacional, domine núcleos fortes bem distribuídos e se afirme a todos os níveis da sociedade. Secundarizem-se, pois, as estruturas tradicionais e reconstrua-se a igreja com base em critérios de eficiência, de valorização de meios e de afirmação estratégica. Em suma, construa-se uma igreja de sucesso. A igreja tão desejada por D. José Policarpo e pelos seus. No espírito da partilha lucrativa do poder. E o cardeal patriarca parece persuadido de que descobriu o novo elixir da juventude da igreja. Como bom administrador não oculta, porém que a um novo investimento terá de corresponder o aumento dos lucros e da área de expansão da grande empresa que os bispos administram. Lucro capitalista, naturalmente: a sorte favorece os audazes. A igreja atingiu os píncaros da fama. Domina bancos, institutos financeiros, universidades, lobbies e fundações. Exerce sólidas influências indirectas. A União Ibérica, vassala do Vaticano, está já a um pequeno passo de distância. Tal como a Federação Europeia, marioneta do Opus Dei. Que se espera então da igreja portuguesa?
No entanto, há que atender-se ao que as palavras dos bispos traduzem. O episcopado teve tempo, em três anos de crise, para solucionar os problemas eclesiais internos? Será capaz a igreja portuguesa de sair desta crise, mais forte e respeitada? Provavelmente a resposta a cada uma destas questões será simultaneamente, não e sim. Como igreja, a doutrina católica não voltará a dispor do antigo prestígio entre as massas populares. Mas o saber acumulado pelas elites praticantes virá a dar os seus frutos. Como grupo empresarial e como lobby político. Afinal, o que as minorias religiosas exigem das suas hierarquias, nestes tempos de crise, é que as políticas confessionais sejam capazes de garantir a penetração profunda das elites no tecido social, aliadas ou não aos interesses laicos dominantes. Porque, nas sociedades modernas, não basta a uma instituição controlar uma malha de uns milhares de organizações dispersas e acantonadas na base popular da pirâmide social. É necessário que o poder da igreja seja efectivo e operacional, domine núcleos fortes bem distribuídos e se afirme a todos os níveis da sociedade. Secundarizem-se, pois, as estruturas tradicionais e reconstrua-se a igreja com base em critérios de eficiência, de valorização de meios e de afirmação estratégica. Em suma, construa-se uma igreja de sucesso. A igreja tão desejada por D. José Policarpo e pelos seus. No espírito da partilha lucrativa do poder. E o cardeal patriarca parece persuadido de que descobriu o novo elixir da juventude da igreja. Como bom administrador não oculta, porém que a um novo investimento terá de corresponder o aumento dos lucros e da área de expansão da grande empresa que os bispos administram. Lucro capitalista, naturalmente: a sorte favorece os audazes. A igreja atingiu os píncaros da fama. Domina bancos, institutos financeiros, universidades, lobbies e fundações. Exerce sólidas influências indirectas. A União Ibérica, vassala do Vaticano, está já a um pequeno passo de distância. Tal como a Federação Europeia, marioneta do Opus Dei. Que se espera então da igreja portuguesa?