EUA atacam imprensa árabe
As estações de televisão árabes Al Jazira e Al Arabiya rejeitam acusações dos EUA de mentir sobre a situação no Iraque e reafirmam a sua independência.
«EUA querem os meios de comunicação sob o seu comando»
O subsecretário de Estado norte-americano de Defesa, Paul Wolfowitz, acusou no fim-de-semana as emissoras de televisão árabes Al Jazira e Al Arabiya de «deformarem terrivelmente as informações sobre o conflito no Iraque» e de «difundirem reportagens falsas e parciais a fim de incitar a violência contra os soldados do seu país». Segundo a agência France Press, as acusações do número dois do Pentágono suscitaram o mais vivo repúdio das estações visadas, que na segunda-feira reiteraram as suas linhas editoriais.
«As afirmações de Wolfowitz são calúnias contra os meios de comunicação árabes em geral e contra a Al Arabiya e Al Jazira em particular», afirmou Salah Al Qallab, porta-voz da Al Arabiya, emissora privada com investimentos principalmente sauditas, kuwaitianos e libaneses, com sede no Dubai.
«Wolfowitz não deve esperar que a Al Arabiya considere as forças norte-americanas como forças de libertação. De acordo com a Organização das Nações Unidas, são forças de ocupação», disse Qallab, fazendo notar que, «durante a guerra do Iraque, a sua emissora estivera sempre ao lado da verdade: nem com Saddam Hussein, nem com as forças de ocupação».
Os ataques de Wolfowitz visaram sobretudo a conhecida estação do Qatar, a Al Jazira, acusando-a, entre outras coisas, de «ter difundido a notícia falsa sobre a prisão de um dos principais imãs da cidade santa de Najaf».
Para o director da estação, Adnan al Charif, o que desagrada aos norte-americanos é a forma independente como trabalha a Al Jazira.
«Os meios de comunicação ocidentais não encontrarão na nossa região emissoras árabes ao jeito deles. Nós ganhámos espaço graças ao respeito pela verdade, o que não agrada àqueles que se sentem prejudicados por essa política», disse Charif.
Defendendo a «credibilidade da Al Jazira», al Charif garantiu que a estação «não difunde qualquer informação sem tentar entrevistar, previamente, as partes norte-americanas envolvidas».
Ameaças e mentiras
O correspondente da Al Jazira em Bagdad, Iasser Abu Hilala, considera por seu turno que a questão «é muito simples», resumindo-se ao facto de «as forças norte-americanas querem que os meios de comunicação estejam sob o seu comando». «Isso sim, é inadmissível», afirma o jornalista.
«Os meios de comunicação respeitáveis negam-se a baixar a cabeça perante a vontade dos governantes e, principalmente, de um invasor», disse Hilala, sublinhando as enormes dificuldades que os jornalistas enfrentam actualmente para trabalhar no Iraque.
Tendo em consideração as palavras de Wolfowitz, tais dificuldades poderão agravar-se a curto prazo. Em declarações à estação de televisão dos EUA, Fox News, em claro tom de ameaça, Wolfwitz aconselhou os governos saudita e do Qatar a «parar para pensar e ver que a situação não é um jogo», pois no entender dos EUA a imprensa árabe «está a ameaçar a vida dos soldados norte-americanos».
O recado não parece ter impressionado a Al Jazira, cujo director exigiu a Wolfowitz um pedido de desculpas pelas suas acusações.
A exemplo do que sucedeu a propósito das alegadas «armas de destruição maciça» do Iraque, não é de excluir que Wolfowitz venha um destes dias admitir que mentiu também neste caso. Para quem não se recorda, vale a pena lembrar que, numa entrevista à revista Vanity Fair, publicada em 30 de Maio, o número dois do Pentágono confessou que o perigo das armas iraquianas foi deliberadamente exagerado «por motivos burocráticos». E explicou a razão: «Concordámos num ponto – as armas de destruição em massa – pois esse era o único argumento em relação ao qual todo mundo estaria de acordo».
Soldados dos EUA
agridem
jornalistas japonês
Um jornalista japonês foi detido e agredido durante uma hora por soldados norte-americanos, depois de ter filmado, no domingo, o ataque a uma casa de Bagdad onde as forças de ocupação pensavam que estivesse o ex-presidente iraquiano, Saddam Hussein.
Segundo a imprensa japonesa, o jornalista Kazutaka Sato, de 47 anos, foi atirado ao chão e pontapeado por vários soldados norte-americanos após ter filmado os corpos de cinco civis iraquianos a serem retirados de uma viatura atingida durante o ataque.
Sato contou que estava a filmar junto ao cordão de segurança instalado pelas tropas norte-americanas quando estas, sem lhe darem qualquer explicação, o tentaram impedir de registar mais imagens, «talvez para tentarem esconder as mortes de civis».
A casa visada pertence ao príncipe Rabiah Muhammed al-Habib, um influente líder iraquiano, que não se encontrava na residência. Os soldados entraram aos tiros na mansão, disparando igualmente contra automóveis e pessoas que se aproximaram do local. Segundo testemunhas, pelo menos cinco civis foram mortos na operação.
Queixa no TPI
contra tropas britânicas
A Associação de Advogados de Atenas apresentou uma «comunicação» ao Tribunal Penal Internacional (TPI) sobre a actuação das tropas britânicas durante a guerra do Iraque.
O documento, entregue pessoalmente pelo presidente da Associação, Dimitris Paxinis, ao procurador do TPI, o argentino Luis Moreno Ocampo, contém «22 acusações que se referem a incidentes específicos» e pede ao Tribunal que exerça as suas competências para julgar «crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio», informa um comunicado do TPI.
Segundo o jornal brasileiro »Vermelho», as denúncias foram acompanhadas de um dossier que inclui 74 recortes de jornais e 13 filmes de vídeo com notícias sobre a guerra contra o Iraque.
O Reino Unido é um dos 90 países que assinaram e ratificaram o acordo de Roma que cria o TPI, pelo que os militares britânicos podem ser julgados pelo Tribunal se o procurador considerar a queixa procedente. No entanto, mesmo que tal se verifique, dado que o TPI se rege pelo princípio da complementaridade, só julgará o caso se o país de origem dos acusados, na circunstância o Reino Unido, não puder ou não quiser fazê-lo.
Quanto aos Estados Unidos, não só não ratificaram o TPI como têm vindo a estabelecer acordos bilaterais com os países subscritores, sob chantagem, para garantir a imunidade dos seus cidadãos.
«As afirmações de Wolfowitz são calúnias contra os meios de comunicação árabes em geral e contra a Al Arabiya e Al Jazira em particular», afirmou Salah Al Qallab, porta-voz da Al Arabiya, emissora privada com investimentos principalmente sauditas, kuwaitianos e libaneses, com sede no Dubai.
«Wolfowitz não deve esperar que a Al Arabiya considere as forças norte-americanas como forças de libertação. De acordo com a Organização das Nações Unidas, são forças de ocupação», disse Qallab, fazendo notar que, «durante a guerra do Iraque, a sua emissora estivera sempre ao lado da verdade: nem com Saddam Hussein, nem com as forças de ocupação».
Os ataques de Wolfowitz visaram sobretudo a conhecida estação do Qatar, a Al Jazira, acusando-a, entre outras coisas, de «ter difundido a notícia falsa sobre a prisão de um dos principais imãs da cidade santa de Najaf».
Para o director da estação, Adnan al Charif, o que desagrada aos norte-americanos é a forma independente como trabalha a Al Jazira.
«Os meios de comunicação ocidentais não encontrarão na nossa região emissoras árabes ao jeito deles. Nós ganhámos espaço graças ao respeito pela verdade, o que não agrada àqueles que se sentem prejudicados por essa política», disse Charif.
Defendendo a «credibilidade da Al Jazira», al Charif garantiu que a estação «não difunde qualquer informação sem tentar entrevistar, previamente, as partes norte-americanas envolvidas».
Ameaças e mentiras
O correspondente da Al Jazira em Bagdad, Iasser Abu Hilala, considera por seu turno que a questão «é muito simples», resumindo-se ao facto de «as forças norte-americanas querem que os meios de comunicação estejam sob o seu comando». «Isso sim, é inadmissível», afirma o jornalista.
«Os meios de comunicação respeitáveis negam-se a baixar a cabeça perante a vontade dos governantes e, principalmente, de um invasor», disse Hilala, sublinhando as enormes dificuldades que os jornalistas enfrentam actualmente para trabalhar no Iraque.
Tendo em consideração as palavras de Wolfowitz, tais dificuldades poderão agravar-se a curto prazo. Em declarações à estação de televisão dos EUA, Fox News, em claro tom de ameaça, Wolfwitz aconselhou os governos saudita e do Qatar a «parar para pensar e ver que a situação não é um jogo», pois no entender dos EUA a imprensa árabe «está a ameaçar a vida dos soldados norte-americanos».
O recado não parece ter impressionado a Al Jazira, cujo director exigiu a Wolfowitz um pedido de desculpas pelas suas acusações.
A exemplo do que sucedeu a propósito das alegadas «armas de destruição maciça» do Iraque, não é de excluir que Wolfowitz venha um destes dias admitir que mentiu também neste caso. Para quem não se recorda, vale a pena lembrar que, numa entrevista à revista Vanity Fair, publicada em 30 de Maio, o número dois do Pentágono confessou que o perigo das armas iraquianas foi deliberadamente exagerado «por motivos burocráticos». E explicou a razão: «Concordámos num ponto – as armas de destruição em massa – pois esse era o único argumento em relação ao qual todo mundo estaria de acordo».
Soldados dos EUA
agridem
jornalistas japonês
Um jornalista japonês foi detido e agredido durante uma hora por soldados norte-americanos, depois de ter filmado, no domingo, o ataque a uma casa de Bagdad onde as forças de ocupação pensavam que estivesse o ex-presidente iraquiano, Saddam Hussein.
Segundo a imprensa japonesa, o jornalista Kazutaka Sato, de 47 anos, foi atirado ao chão e pontapeado por vários soldados norte-americanos após ter filmado os corpos de cinco civis iraquianos a serem retirados de uma viatura atingida durante o ataque.
Sato contou que estava a filmar junto ao cordão de segurança instalado pelas tropas norte-americanas quando estas, sem lhe darem qualquer explicação, o tentaram impedir de registar mais imagens, «talvez para tentarem esconder as mortes de civis».
A casa visada pertence ao príncipe Rabiah Muhammed al-Habib, um influente líder iraquiano, que não se encontrava na residência. Os soldados entraram aos tiros na mansão, disparando igualmente contra automóveis e pessoas que se aproximaram do local. Segundo testemunhas, pelo menos cinco civis foram mortos na operação.
Queixa no TPI
contra tropas britânicas
A Associação de Advogados de Atenas apresentou uma «comunicação» ao Tribunal Penal Internacional (TPI) sobre a actuação das tropas britânicas durante a guerra do Iraque.
O documento, entregue pessoalmente pelo presidente da Associação, Dimitris Paxinis, ao procurador do TPI, o argentino Luis Moreno Ocampo, contém «22 acusações que se referem a incidentes específicos» e pede ao Tribunal que exerça as suas competências para julgar «crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio», informa um comunicado do TPI.
Segundo o jornal brasileiro »Vermelho», as denúncias foram acompanhadas de um dossier que inclui 74 recortes de jornais e 13 filmes de vídeo com notícias sobre a guerra contra o Iraque.
O Reino Unido é um dos 90 países que assinaram e ratificaram o acordo de Roma que cria o TPI, pelo que os militares britânicos podem ser julgados pelo Tribunal se o procurador considerar a queixa procedente. No entanto, mesmo que tal se verifique, dado que o TPI se rege pelo princípio da complementaridade, só julgará o caso se o país de origem dos acusados, na circunstância o Reino Unido, não puder ou não quiser fazê-lo.
Quanto aos Estados Unidos, não só não ratificaram o TPI como têm vindo a estabelecer acordos bilaterais com os países subscritores, sob chantagem, para garantir a imunidade dos seus cidadãos.