«Terra Quente» transmontana

O difícil caminho para o desenvolvimento

A região de Trás-os-Montes tarda em dar o salto para o desenvolvimento. Marcados pelo isolamento, os transmontanos esperam pela conclusão do plano de rega do Vale da Vilariça e desesperam com os ataques ao transporte ferroviário. A responsabilidade vai inteira para os governantes do País.
Situada no Norte de Portugal, a região de Trás-os-Montes e Alto Douro está indelevelmente marcada pelo isolamento a que as suas características geográficas e climatéricas a votaram durante séculos. Uma expressão popular célebre, imortalizada ao longo dos anos, dá conta da dimensão deste isolamento: «Para cá do Marão mandam os que cá estão», diz-se.
Trás-os-Montes é talvez, das regiões do País, a que menos influência externa sofreu. O estado relativamente puro das suas tradições – que em vários aspectos se mantêm intocáveis – é testemunho deste percurso por conta própria, trilhado ao longo do tempo por gente enrijecida na dureza da vida e do trabalho, quer nas infindáveis pastagens do noroeste quer a escavar, à força de braços e enxadas, os socalcos nas escarpadas margens do rio Douro. Sobrevivem ainda vários dialectos, como o mirandês ou o riodinês, e pratica-se em algumas aldeias o comunitarismo como forma de organização social, praticada desde antes da presença romana no que é hoje o território nacional.
As ricas tradições são talvez mesmo o único factor positivo neste isolamento, que persiste. Mas se nada for feito, também estas acabarão por desaparecer, acompanhando os transmontanos que lhes dão corpo. Para uma população de cerca de 700 mil pessoas nos anos 60, a região conta actualmente com menos de 400 mil. A emigração «por fome de pão» e «falta de liberdade», de que falava em 1968 o escritor Miguel Torga, natural de Trás-os-Montes, foi substituída pela fuga para as cidades, por falta de trabalho e perspectivas de vida.
Bragança, Vila Real e Chaves, as principais cidades da província, aumentaram ligeiramente a sua população nos últimos anos, à custa da fuga das aldeias. Mas falharam em tornar-se pólos de desenvolvimento credíveis, muito por culpa da ausência de políticas com vista ao aproveitamento das produções regionais e a dotar a região de infra-estruturas. Ao isolamento forçado pela geografia somou-se o abandono por parte do poder.

Grandes diferenças

A província de Trás-os-Montes e Alto Douro nasceu da reforma administrativa de 1936. Apesar da unidade política e administrativa, alberga diferentes realidades climatéricas, económicas e humanas. Se os rochosos planaltos do nordeste são parte de pleno direito da região, não o será menos o Alto Douro Vinhateiro, considerado recentemente património mundial. E também serão tão transmontanos os pastores que pacientemente guardam o gado como os homens e mulheres que carregam às costas, socalcos acima, o produto da vindima.
De clima austero e geografia inóspita, a «Terra Fria», como é comummente conhecida a zona montanhosa transmontana, é marcada por vastos planaltos, utilizados para o pasto de animais e onde os castanheiros crescem livremente. Durante grande parte do ano, as temperaturas descem frequentemente abaixo de zero e o solo fica coberto de neve. A temperatura média anual ronda os 9 graus. Já a estação seca ultrapassa os três meses. «Nove meses de Inverno e três de inferno», é um dito popular muito utilizado para caracterizar o clima na região.
No meio da «Terra Fria», nomeadamente no fundo dos vales, surge a «Terra Quente», que abrange as vertentes do Douro e de alguns afluentes – Sabor, Tua e Corgo, a Norte e Águeda, Côa e Távora, a Sul. Rodeada de altas montanhas, a «Terra Quente» fica protegida dos ventos frios e não deixa mal visto o seu nome: a temperatura sobe frequentemente acima dos 40 graus. Quanto aos invernos, são bastante suaves, embora a amplitude térmica anual média exceda os 20 graus. Neste «enclave mediterrânico», as culturas são a condizer: azeite, vinho, frutos e vegetais.
Tal como outras regiões do País, Trás-os-Montes sofre de um mal: a riqueza criada pouco beneficia a população da região. Quer se fale de energia hidroeléctrica – produzida abundantemente nas águas do Douro –, da imensidão de produtos agrícolas e pecuários tirados dos montes e vales da região, ou do Vinho do Porto, imagem de marca nacional, é incontornável constatar uma dura realidade: independentemente da quantidade e qualidade da produção, os habitantes dos planaltos e vales transmontanos e das margens durienses prosseguem a sua vida e a sua luta diárias, inalteráveis desde há anos. Sem que a justiça seja feita.

Plano de rega tem 40 anos
À es­pera da água ne­ces­sária

No Vale da Vilariça, em Trás-os-Montes, vive-se uma situação insólita. O Plano Integrado de Rega, iniciado nos anos 60, ainda não foi concluído. Das cinco barragens idealizadas, que permitiriam o regadio de uma extensão de dois mil hectares de terra, apenas duas estão a funcionar. A terceira, a maior, está agora em construção. Mesmo depois de construída e a laborar, apenas um terço da área abrangida pelo referido plano ficará regado. Das outras duas barragens, nada se sabe.
Fernando Brás, presidente da Associação de Regantes do Vale da Vilariça, considera que a lentidão na construção das barragens contribui para o atraso da região, ao não serem plenamente aproveitadas as suas capacidades. «Aqui pode-se produzir praticamente de tudo», assegura. Para Fernando Brás, o micro-clima do Vale da Vilariça garante-lhe condições únicas: «Temos uma diversidade de culturas que talvez não se encontre em mais nenhuma zona do País», afirma. Rui Tadeu, presidente da Cooperativa de Olivicultores de Vila Flor e Ansiães, concorda: «Os solos são de altíssima qualidade.» Com água disponível, culturas como o pêssego, o melão ou a ameixa serão possíveis, confia.
Para o presidente da Associação de Regantes do Vale da Vilariça, o regadio é uma questão premente. «O vale é muito seco. No que se refere aos níveis de pluviosidade, são um terço dos verificados no planalto aqui à volta», lembra. Rui Tadeu considera mesmo que quanto mais tarde pior: «As chuvas têm-se concentrado em determinados períodos, enquanto que o estio é cada vez mais prolongado.» Como é óbvio, a agricultura ressente-se das alterações climáticas. «Começa a ser necessário pensar no regadio do olival e da vinha, nomeadamente enquanto jovem», considera. «Para não falar da fruta e dos vegetais, que precisam sempre de muita água», conclui.
Rui Tadeu não tem dúvidas em afirmar que a concretização do plano há mais tempo «teria espicaçado os agricultores a investir». Quem sabe se a agricultura do Nordeste não ocuparia já uma «posição de grande força no contexto nacional», questiona. Até porque, lembra Fernando Brás, «as pessoas aqui sempre foram dinâmicas em termos de investimento». O atraso nas obras é que provoca o imobilismo, asseguram. «Com a situação actual, é um risco fazer investimentos, porque nunca se sabe se vai haver água ou não», explica Fernando Brás. «Eu estive dois anos sem água», lamenta.
Sendo a conclusão do Plano Integrado de Rega do Vale da Vilariça a principal preocupação dos agricultores da região, não é a única. «É necessário dar formação aos agricultores antes de se iniciar a rega», exige o presidente da Associação dos Regantes. A transferência do departamento que ministra a formação para o Porto merece também a reprovação de Fernando Brás. «Isto obriga os agricultores a terem de se deslocar para o Porto para resolver os seus problemas, mesmo os mais pequenos», acusa. «Eu acho que estes serviços devem estar próximos daqueles que deles necessitam», afirma.

Linha do Tua em risco

Dez anos após o encerramento do troço entre Mirandela e Bragança, a linha do Tua está novamente ameaçada. Alheios aos impactos do encerramento do transporte ferroviário numa região como Trás-os-Montes, CP e Governo criaram já as condições para se livrarem desta linha, à semelhança do que fizeram com outras. A denúncia é da estrutura local do PCP, que no passado sábado fez a viagem entre Tua e Cachão, numa iniciativa inserida na campanha «Mil localidades: participação e desenvolvimento».
Durante mais de uma hora de percurso, é possível verificar o estado de abandono a que a linha foi votada. A começar pelas composições, alugadas ao Metro de Mirandela. Sem casa de banho, o comboio pára sempre que um passageiro necessite. As estações estão degradadas e os vidros estão partidos, mesmo as que ainda funcionam.
A fórmula é a de sempre: deixar degradar o serviço ao ponto de desencorajar a sua utilização. Depois, argumentando que deixou de ser rentável, fecha-se. Assim se fez noutros tempos, nomeadamente no início da década de 90, quando foram encerrados os vários ramais de via estreita que partiam da linha do Douro rumo a terras transmontanas. O trajecto entre Régua e Chaves fica-se, hoje, por Vila Real. Bragança, capital de distrito, não é servida por transporte ferroviário. A linha do Douro, outrora porta de entrada na Europa, fica-se a meio, no Pocinho.
Pretendendo largar a linha do Tua, CP e Governo viram com bons olhos o interesse de algumas autarquias na exploração da via para fins turísticos. Para breve está a criação e entrada em funcionamento da empresa intermunicipal Comboios do Tua, constituída pelas câmaras municipais de Mirandela, Vila Flor, Carrazeda de Ansiães, Murça e Alijó, bem como pela CP, que manteria uma porção mínima do capital da empresa, para a qual estão já destinadas verbas no Orçamento de Estado. Por esclarecer fica a viabilidade económica de uma empresa desta dimensão, explorando unicamente uma linha de via estreita, no coração de Trás-os-Montes, uma região desertificada.
Quem perde será, obviamente, a população, já fortemente isolada. As grandes estradas construídas, ao invés de resolver o problema, assumem-se cada vez mais como vias rápidas de saída.
Quando encerrou o troço Mirandela/Bragança, a CP colocou como alternativa ao comboio os autocarros da Auto-Viação do Tâmega com o compromisso de manter as regalias sociais. Dois anos depois, porém, também isto se perdeu, no momento da passagem do serviço à Rodonorte. Os preços aumentaram para o triplo.

PCP reúne com agri­cul­tores

Com o objectivo de conhecer melhor os problemas com que se debatem os agricultores do Vale da Vilariça, o PCP promoveu no passado sábado, no âmbito da iniciativa «Mil localidades: participação e desenvolvimento», uma reunião com autarquias e associações de agricultores da região. A delegação do PCP era composta por José Brinquete e Vítor Martins, da Direcção Regional de Bragança, pelo deputado Bruno Dias e por Agostinho Lopes, da Comissão Política e do Secretariado do Comité Central.
Compareceram ao convite do PCP a Associação de Regantes do Vale da Vilariça, a Associação de Agricultores do Vale da Vilariça, a Associação Distrital dos Agricultores de Bragança, a Cooperativa dos Olivicultores de Vila Flor e Ansiães e o Centro de Gestão do Douro Norte. Quanto às autarquias, estiveram presentes as juntas de freguesia de Santa Comba da Vilariça, Vilarelhos e Benlhevai, que também enviou uma representação da assembleia de freguesia.
No encontro, os dirigentes associativos denunciaram o atraso na chegada da água, que não cumpriu com o período de início da rega. O mau estado da rede foi outra das queixas dos agricultores, que mantêm como principal exigência a conclusão célere do plano integrado de regadio.
Mas a reunião não se ficou pelas exigências imediatas. A comercialização dos produtos e a criação de uma marca própria para as produções do Vale da Vilariça foram alguns dos restantes temas levantados pelos representantes das várias associações presentes.
Relativamente à comercialização dos produtos do vale, Bruno Dias afirmou ser este um problema intimamente ligado com as vias de comunicação. Recordando os ataques em curso ao caminho-de-ferro (ver texto), o deputado lembrou que é mais rápido chegar a Lisboa vindo da Extremadura espanhola do que de Trás-os-Montes.
Agostinho Lopes alertou os presentes para o preço da água, recordando que noutros planos de regadio este é muito elevado, não estando ao alcance de todos os agricultores. O dirigente comunista não esqueceu a Política Agrícola Comum, que não apoia os produtos mediterrânicos, os mais produzidos no vale.