Euronadel deslocaliza parte da produção

Novas vítimas da corrida aos lucros

Gustavo Carneiro
Os patrões da Euronadel – o grupo alemão Groz-Beckert, líder mundial do fabrico e comercialização de agulhas – estão a deslocalizar sectores da produção para a República Checa e para a Índia. Os trabalhadores, menos de metade do que eram há dois anos, rejeitam a teoria da crise e reafirmam que a empresa é viável.
A empresa em causa chama-se Euronadel e situa-se no concelho de Cascais. Mas podia chamar-se outra coisa qualquer e estar situada num outro local do País. Se fosse a novidade critério único de avaliação de interesse jornalístico, então este caso não teria nenhum, pois o processo em curso na Euronadel nada tem de novo. A história é simples, mas acarreta graves consequências económicas e sociais: um grupo forte e consolidado no mercado mundial, que lidera, está a deslocar partes – apenas partes, por agora – da produção feita em Portugal para outros locais mais apetecíveis, nomeadamente no leste da Europa. A mão-de-obra barata e os fundos que receberá para a fixação num dos futuros países membros da União Europeia são motivos mais que tentadores.
Até há dois anos atrás, os cerca de oitocentos e cinquenta trabalhadores da empresa produziam mais de 50 tipos de agulhas. Hoje, os operários são cerca de quatrocentos e não fazem dez agulhas diferentes. As restantes passaram a ser produzidas noutros pontos do mundo.
2001 foi o ano de viragem. Carlos Martins é dirigente sindical e conta que até essa altura a empresa teve sempre «uma estratégia de reforço económico e de aumento de produção». Inclusivamente, candidatou-se a diversos fundos comunitários – PEDIP I e PEDIP II – que lhe foram atribuídos. Em 1998 chegou mesmo a aumentar os postos de trabalho. A partir de 2001, a estratégia alterou-se. Sem razões aparentes, pelo menos de ordem económica ou de mercado, começaram as rescisões e o fecho, total ou parcial, de secções, sobretudo daquelas em que se inicia o processo de fabrico. O sindicato teme que no futuro a fábrica se limite a acabar o produto iniciado noutros países, enfraquecendo a sua posição estratégica. Ou nem isso.
Ana Rijo, afinadora de máquinas, está sem fazer nada. Entra de manhã e sai à tarde, cumpre o horário completo. Mas a secção onde trabalha está a ser deslocada. Nesta situação estão muitos mais operários da Euronadel. «Muitas máquinas estão paradas há mais de um ano à espera que acabe o prazo do PEDIP para depois as levarem para a República Checa», denuncia a operária. João Veríssimo, dirigente sindical e igualmente afinador de máquinas, contesta a atitude da empresa mas vai mais longe nas críticas. Na sua opinião, não deveria ser possível receber fundos para adquirir máquinas e depois, passado um determinado prazo, levá-las para outro país. E aqui os governos têm culpa, considera. João Veríssimo chegou a ensinar a trabalhadores checos as artes do ofício. Quando estão preparados, regressam a casa. Atrás deles seguem as máquinas e os postos de trabalho da Euronadel, acusa.

Salários, direitos e lutas

Foi igualmente a partir desse ano de 2001 que se intensificou o confronto na empresa. Para além da pressão exercida sobre os trabalhadores para continuarem a rescindir os contratos, também a luta salarial e pelos direitos assumiu contornos agudos. Com o fim de algumas secções, os trabalhadores que ficam fazem de tudo, contam Ana Rijo e João Veríssimo. «Aplicam o pacote laboral mesmo antes de estar aprovado», conclui Eduardo Carrilho, polidor e delegado sindical.
Em 2002, a empresa recusou-se a negociar qualquer caderno reivindicativo e rejeitou todas as propostas dos sindicalistas. Nesse ano, não houve quaisquer aumentos e todas as outras reivindicações foram desprezadas. Carlos Martins conta que, não satisfeitos com a situação, os trabalhadores mobilizaram-se e travaram uma intensa e desgastante luta, ao longo de quatro meses.
Não tendo sido uma luta vitoriosa, deixou sementes. No plano que havia traçado para cinco anos, a empresa não previa quaisquer aumentos. Contudo, após as lutas do ano anterior, aumentou os salários dois por cento. Mas nem assim a empresa conseguiu evitar novos sobressaltos, pois os trabalhadores consideraram o valor inaceitável. Para além de não cobrir o avanço da inflação não os compensa das perdas dos anos anteriores. «Em dois anos, os trabalhadores perderam sete por cento para a inflação», afirma Carlos Martins. Quanto aos cargos de chefia, foram generosamente aumentados, afirma Eduardo Carrilho, polidor e delegado sindical. A revolta aumentou.
Sem respostas acerca do futuro da empresa e a perder cada vez mais poder de compra, os trabalhadores recomeçam os protestos. Sucedem-se os plenários e as reuniões com as mais diversas entidades oficiais: grupos parlamentares, ministérios e autarquias. Caíam definitivamente por terra os planos da empresa em levar para a frente todo o processo discretamente. À excepção da Câmara Municipal de Cascais, todas as entidades contactadas ouvem as razões dos trabalhadores. Esperam-se as respostas. Da parte do PCP, lembra Brás Neves – responsável pelo trabalho partidário nas empresas do concelho –, a resposta passa pela adopção das medidas propostas no projecto de lei apresentado pelo grupo parlamentar comunista sobre as deslocalizações, que foi chumbado pela maioria de direita.

Erro ou estratégia?
Surpreendentemente ou não, dias depois do recomeço da contestação na Euronadel, no mês de Março, dois representantes do grupo Groz-Beckert vêm a Portugal e demitem três membros da administração: o gerente, o director de produção e uma assessora. As razões para tão radical e súbita decisão por parte do grupo alemão continuam desconhecidas: Operação de cosmética por parte do grupo? Má gestão? Desvio de dinheiro para benefício próprio? Todas elas? Outra qualquer?
Nenhum dos quatro trabalhadores da empresa que falou para o Avante! tem a certeza de nada. Eduardo Carrilho avança com a hipótese da má gestão. «Se não fosse assim, não tinham sido despedidos», considera. João Veríssimo tem outra opinião. Segundo ele, a situação da Euronadel tem menos a ver com má gestão do que com estratégia. Segundo este dirigente sindical, o grupo já há muito que definiu o que quer para a empresa. Mas pelo menos para já o segredo está longe, algures na Alemanha.

Atrás da linha
Praia, sol, jogo, animação nocturna e os inevitáveis «meninos da linha» são apenas algumas das realidades que vulgarmente se associa ao concelho de Cascais. A sua privilegiada localização geográfica, a elevada afluência de turistas e a fixação neste concelho do maior casino da Europa, confirmam estar correctas as anteriores associações.
Mas outras poderiam ser feitas. Para lá da linha de comboio e da avenida marginal, outra Cascais emerge, já sem os descapotáveis, as matrículas e pronúncias estrangeiras. Exclusão, desemprego, precariedade e baixo nível de vida fazem mais o seu estilo.
Para esta Cascais escondida, os hotéis e os casinos são locais de trabalho e de esforço, a troco de pouco. Ultimamente, de quase nada. Brás Neves, dirigente comunista do concelho de Cascais, lembra casos recentes de despedimentos colectivos no concelho: com o encerramento do hotel Estoril Sol, cerca de 230 pessoas ficaram sem emprego. A «reestruturação» do Casino Estoril, pertencente ao mesmo dono do hotel – o multimilionário Stanley Ho –, poderá custar mais cem postos de trabalho. Com o encerramento da Sanofi, foram mais 200 a ficar sem emprego. A Sodishoes levou o emprego a 70 trabalhadores. Quanto à Alcatel, reduziu 200 postos de trabalho.
Brás Neves conta que a situação é ainda mais grave, pois, lembra, também houve despedimentos na Altamira. Na Euronadel saíram da empresa, ao longo dos anos, mais de 400 operários e o futuro


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