Miguel Madeira, presidente da Federação Mundial da Juventude Democrática

A prioridade é envolver as organizações na FMJD

A JCP foi recentemente eleita para a presidência da Federação Mundial da Juventude Democrática, em assembleia geral. Miguel Madeira, o novo presidente, aborda os objectivos do seu mandato e fala sobre os problemas dos jovens.
- Como correu a Assembleia Geral da FMJD?
- Foi uma iniciativa muito participada, onde esteve presente a grande maioria das organizações. Os documentos aprovados – quer a declaração política, cuja discussão foi iniciada há vários meses, quer as resoluções regionais e as resoluções temáticas – vão ao encontro dos principais problemas e das principais aspirações da juventude do mundo.
Há problemas muito diferentes, de região para região e de país para país, mas há um traço condutor. Isso ficou patente nos documentos, quase todos aprovados por unanimidade. Esses textos têm de constituir uma base de trabalho para o futuro, sem que os anteriores documentos percam validade. Na iniciativa entraram novas organizações e foram recebidos pedidos de outras adesões. Numa altura em que se falava muito na guerra contra o Iraque, verificou-se um claro predomínio da luta anti-imperialista e de defesa dos direitos da juventude.
A assembleia geral foi também um momento muito importante para a JCP reforçar o relacionamento bilateral com outras organizações da FMJD.

- O que significa esta eleição para a JCP?
- Desde já, significa uma grande responsabilidade. A candidatura da JCP foi muito ampla, pelo conjunto de apoio que reuniu e pelo número de organizações que nos colocaram a importância de assumirmos mais responsabilidades neste momento, o que passaria por assumir a presidência da federação.

- Que argumentos vos foram apresentados?
- Era importante que na direcção da federação estivessem organizações anti-imperialistas, organizações de massas, organizações muito ligadas à realidade dos seus países. Obviamente, a JCP não só cumpre estes critérios, como tem tido um papel de reconhecido mérito pelo trabalho que tem desenvolvido ao longo dos anos. Muitas organizações viram na JCP uma solução para assumir a presidência da federação. A JCP considera que foi feito um trabalho bastante positivo na FMJD, independentemente das dificuldades e obstáculos que surgiram desde 1999. Nesta fase importa ultrapassá-los e melhorar o trabalho que foi feito nestes quatro anos.

- O que a JCP vai trazer de novo à federação?
- Existe um conjunto de assuntos e temas que a federação tem vindo a agarrar e terá de continuar a fazê-lo. Pelo conteúdo da discussão política na assembleia geral e no quadro das características da federação – estrutura anti-imperialista e pela paz, de esquerda, progressista, democrática, onde converge um conjunto muito alargado de organizações –, a JCP terá de procurar pontos de convergência com base nestes eixos.

- O que já tem sido feito.
- Claro e é preciso aprofundar e continuar a trabalhar. A FMJD é um todo, independentemente de haver diferenças de região para região. Uma das questões que estarão em cima da mesa será a comemoração dos 60 anos da federação em 2005, como um momento importante de luta anti-imperialista e ao mesmo tempo um momento de convívio e afirmação.
Por outro lado, parece-nos que é fundamental que, nas tomadas de posição da federação, não sejam apenas as organizações que estão na sede a decidir, mas que haja um envolvimento do Conselho Coordenador, do Conselho Geral e de todas as organizações. Conseguir garantir uma ligação mais regular entre a direcção e todas as organizações é um dos nossos objectivos. Por outro lado, não sendo uma prioridade, queremos fazer com que a FMJD tenha uma expressão maior e mais efectiva nos espaços em que participa a nível internacional, nomeadamente na ONU, levando a reflexão sobre a juventude.
Estas são algumas questões essenciais, para além de campanhas que terão de ser discutidas. Algumas organizações colocaram-nos a ideia de a federação promover uma campanha em torno da problemática da sida no continente africano, puxando por exemplo o facto de hoje existirem medicamentos que atenuam a doença e que a sua disponibilização é muito limitada. A região da Europa e América do Norte já começou uma acção contra o exército europeu. É preciso potenciar todas as actividades ao mesmo nível nas diferentes regiões.

Discutir até encontrar consensos

- Sendo composta por tantas organizações, a federação não corre o risco de tomar posições demasiado gerais e abrangentes?
- A federação tem-se caracterizado pela capacidade de tomar posição sobre um conjunto de assuntos indo ao encontro do espírito da própria federação. Para a JCP, o facto de haver um conjunto de organizações muito diferentes entre si não é um handicap, pelo contrário. É uma forma de explorar os pontos comuns das organizações, através da discussão de opiniões inicialmente diferentes e às vezes divergentes e contraditórias, com base no projecto da federação. Isso tem permitido que as posições não fiquem no ar. A FMJD tomou posição sobre a guerra no Afeganistão, os ataques à Jugoslávia e a prisão de membros de uma organização da Ucrânia, por exemplo. Um dos objectivos tem de ser aprofundar cada vez mais a discussão política sobre assuntos que cabe à federação tomar a dianteira.
Outra ideia é que é fundamental a luta que cada organização trava no seu país. Essa luta está em consonância com os princípios da federação e esse é um contributo essencial para que os jovens de cada país estejam identificados com os valores da FMJD.

- É através dessa discussão que se chega a consensos?
- É com certeza através da discussão, da maior aproximação das organizações e do seu maior envolvimento na tomada de posições da federação. E muitos passos positivos foram dados neste últimos quatro anos. É preciso discutir não só no seio da federação, mas também potenciar os encontros de cada região com regularidade, com reuniões bem preparadas, para que as organizações tenham tempo de reflectir.

Afirmar a FMJD como estrutura incontornável

- Quais são as prioridades do trabalho da JCP?
- Para nós é fundamental envolver as organizações nas tomadas de decisão, a valorização dos espaços formais da federação, a afirmação da FMJD como uma estrutura internacional incontornável com um passado de luta incomparável e reforçar a federação com a entrada de novas organizações e de trabalho efectivo.

- Quais os principais problemas dos jovens?
- O emprego, a educação, a saúde, a liberdade de organização e participação na sociedade. Havendo excedente alimentar mundial, a verdade é que hoje a fome continua a ser um problema gravíssimo. Outras questões passam pelo acesso ao desenvolvimento tecnológico, a luta pela paz contra a Nato e a crescente militarização, o direito à autodeterminação e independência dos povos. O emprego é um problema que afecta transversalmente os jovens a nível mundial

- Pessoalmente, como vês esta tua nova função?
- É a JCP que assume a presidência e tenho a certeza que se vai enriquecer com esta experiência. Do ponto de vista pessoal é uma experiência diferente, quanto mais não seja por desenvolver trabalho fora do País. É fundamental uma grande articulação de trabalho e um contacto permanente com a JCP e com a realidade social da juventude portuguesa. É um desafio e achamos que estamos à altura dele.



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