A estratégia do confronto
Numa década, a Cometna passou de empresa de referência da metalomecânica pesada europeia para uma situação em que a possibilidade do seu encerramento é usada para ameaçar os trabalhadores. É o capitalismo igual a si próprio.
Na Cometna (Companhia Metalúrgica Nacional) parece valer tudo. O patrão dita as leis e a Lei, com maiúscula, fica à porta. Não fosse a capacidade reivindicativa dos trabalhadores e tudo seria pior, garante Nelson Martins, da Comissão de Trabalhadores. Desde que tomou posse, em Setembro de 2002, a actual administração – ligada ao grupo BCP – não tem parado de confrontar os trabalhadores e os seus órgãos representativos, «através de comunicados, ofensas verbais e medidas ilegais», adianta o membro da CT. Tudo para que os «objectivos» do patronato sejam cumpridos e a empresa não encerre. A administração já fez saber que isso sucederá, caso não se facture mensalmente 1 milhão e 200 mil euros. Nelson Martins considera a ameaça de encerramento, que paira constantemente sobre os trabalhadores, uma forma de pressão, até por que «sabemos que há encomendas e que há trabalho».
No ano passado, a empresa apresentou um plano de viabilização, que passava pela redução de cerca de 160 postos de trabalho. «Nós não fomos consultados, mas fizemos saber que discordávamos desta medida, pois a empresa não estava dimensionada para cento e cinquenta trabalhadores», lembra Nelson Martins. «Mesmo com trezentos era difícil, quanto mais com cento e cinquenta», assegura, lembrando que a administração criou todas as condições para facilitar as saídas «amigáveis». «Nós insistimos para que ninguém abandonasse o seu posto de trabalho, pelo menos enquanto não fosse cumprido o que a lei prevê» relativamente às indemnizações, recorda. Mas a pressão patronal foi mais forte e «eles conseguiram que trabalhadores saíssem, e com menos de metade do dinheiro a que tinham direito», destaca.
Para além dos 160 efectivos, a Cometna conta actualmente com mais 80 trabalhadores subcontratados: mão-de-obra barata, não qualificada e altamente explorada. Nelson Martins lembra que estes trabalhadores fazem longas jornadas de trabalho. Muitas vezes de vinte, e mesmo de vinte e quatro horas seguidas. Alguns nem sabem quanto vão ganhar, denuncia. Numa primeira fase, as horas extraordinárias eram realizadas exclusivamente pelos subcontratados. Mas, como já haviam alertado os órgãos representativos dos trabalhadores, o tipo de trabalho que a Cometna faz necessita da mão-de-obra valorizada e qualificada que a empresa possuía – e possui ainda – nos seus quadros. «Há clientes que devolvem trabalhos feitos na empresa, com defeitos», afirma Nelson Martins, lembrando que isso nunca acontecera anteriormente. «Nós sempre achámos que a Cometna deixaria de ser competitiva a nível internacional com os trabalhadores mais experientes fora da empresa», recorda. Mas a administração achou que não.
A realidade falou mais alto e a administração recuou. As horas extraordinárias foram abertas aos trabalhadores efectivos. Mas a empresa não estava disposta a pagar o que está acordado no contrato colectivo de trabalho e afirmou que pagaria as horas extraordinárias com apenas 25 por cento de acréscimo. Perante a recusa, «aumentaram» para 50 por cento, ainda abaixo do que o contrato obriga: 50 por cento de acréscimo na primeira hora, 65 na segunda, 100 na terceira e 300 por cento ao sábado. Alguns trabalhadores aceitaram, inclusivamente membros dos órgãos representativos. A maioria recusou. Vítor Mendes, responsável do PCP pelo sector de empresas do distrito de Odivelas, considera que a intenção da administração é dividir os órgãos dos trabalhadores. «Felizmente que os ORT’s conseguiram perceber o alcance desta medida e estão a tentar manter a situação estável», afirma.
Restauração suicida
Empresa centenária, a Cometna foi nacionalizada após o 25 de Abril. Em meados da década de 80, com a mudança para novas e modernas – para a época – instalações em Famões, então no concelho de Loures, assumia-se como uma empresa de primeira linha da metalomecânica pesada europeia. Apesar dos bons resultados obtidos e da importância que assumia na economia nacional, a restauração capitalista não poupou a Cometna, que passou para a posse daquele que era um seu director, Bissaia Barreto.
Como sucedeu noutras grandes empresas nacionais, com a privatização chegaram as dificuldades. Nelson Martins já então trabalhava na empresa e recorda o mandato de Bissaia Barreto: no tempo em que administrou a Cometna, nada mais fez do que procurar o lucro imediato, não salvaguardando o futuro. «Não houve desenvolvimento tecnológico», afirma este membro da Comissão de Trabalhadores. Apesar dos constantes alertas dos trabalhadores, das populações e das autarquias, a empresa foi-se degradando. A avidez dos privados já fez várias vítimas e muitas grandes empresas sucumbiram. Será a Cometna a seguir?
Pouco interessado em suportar uma empresa que já lhe dava mais problemas do que benefícios, e da qual havia já tirado tudo quanto pretendia, Bissaia Barreto procurou ver-se livre da Cometna, o que conseguiu no início desta década. As promessas de realizar importantes investimentos por parte do grupo norte-americano que entretanto adquiriu a Cometna não passaram disso mesmo. «Continuámos a ver a empresa a afundar-se, as encomendas a diminuir, a não aparecerem novos clientes», recorda Nelson Martins. No início do ano passado, os trabalhadores foram informados de que a empresa estaria à beira da falência.
Vítor Mendes não acompanha a administração nesta ideia. Considera mesmo que a empresa não está tão mal financeiramente como diz estar. «Querem culpabilizar os trabalhadores pelo não cumprimento dos objectivos», afirma. Depois, quem sabe, fechar. Mas Vítor Mendes adverte: os trabalhadores farão tudo ao seu alcance para que a empresa evolua e cresça, querem defender os seus postos de trabalho, mas não têm medo e vão lutar. «Os trabalhadores rejeitam ser culpabilizados por matérias de gestão, cuja responsabilidade cabe exclusivamente à administração», afirma Vítor Mendes. «Isto foi-lhes dito»,
lembra.
Nas mãos do BCP
O futuro da Cometna é incerto. Apesar de ter encomendas e possuir ainda um bom leque de trabalhadores experientes, a administração insiste nas ameaças de encerramento caso não sejam atingidos determinados resultados mensais, por sinal bastante ambiciosos.
Com sucessivas gestões privadas desastrosas, a empresa acumulou pesadas dívidas e contraiu avultados empréstimos ao BCP. Desde essa altura que o grupo financeiro tem um poder decisivo sobre a vida da empresa e que a dirige ao sabor dos seus próprios interesses.
Na opinião de Nelson Martins, a actual administração é comandada pelo banco de Jardim Gonçalves. «Não é por acaso que Filipe Caetano (actual administrador-delegado), ao assumir a administração da empresa, tentou convencer os trabalhadores a abrirem contas no BCP», sob o pretexto de receberem os ordenados por transferência bancária, afirma. Vítor Mendes lembra que os trabalhadores que se recusaram a abrir conta nesse banco não receberam os salários a tempo. «Foi necessária uma paralisação para que os salários fossem pagos», recorda.
Nelson Martins acredita haver razões para pensar que o banco tem planos muito concretos para a empresa. Estes podem passar pelo aproveitamento dos terrenos para fins urbanísticos. A visita aos cerca de 15 hectares de terreno da empresa por parte de um «arquitecto de grandes projectos urbanísticos», acompanhado por vereadores do PSD da Câmara Municipal de Odivelas, faz aumentar esta convicção. Os terrenos da Cometna estão classificados como terrenos mistos, podendo ser ocupados com indústria, como actualmente, ou com urbanizações.