Sementes carregadas de futuro

O objectivo de transformar a opinião publicada em opinião pública falhou estrondosamente

Para a generalidade dos comentadores e editorialistas defensores da guerra e apoiantes incondicionais dos Estados Unidos da América (os quais, diga-se, ocupam a maior parte do espaço e do tempo nos media de maior audiência com a sua propaganda belicista) as coisas eram simples: as toneladas de bombas que iriam ser lançadas conduziriam à imediata submissão do Iraque, cujo povo acorreria em massa a beijar as mãos dos seus «libertadores», paladinos da «liberdade, da democracia e dos direitos humanos». As previsões desses comentadores e editorialistas apontavam, também, para que os soldados iraquianos, mal ouvissem o fragor das primeiras toneladas de bombas caídas sobre o seu país e o seu povo, se rendessem em massa e, em massa, corressem a beijar os pés dos seus «salvadores». Papagaios e servis, estes ecos de Bush garantiam, igualmente, estarmos perante uma espécie de «guerra santa» conduzida por quem, graças a um «mandato divino», tem a seu cargo a sagrada missão de vencer as «forças do mal» (ou, dito de outra forma: tem a seu cargo a «democrática missão» de «libertar o Iraque da tirania de Saddam» e de «libertar o mundo do perigo» consubstanciado no «poderoso arsenal de armas químicas, biológicas, de destruição maciça» de que o Iraque seria possuidor). Asseguravam, ainda os ditos escribas e oradores que a liquidação do «mal» ocorreria num ápice, coisa de um dia ou dois, quiçá de horas. Depois, tratar-se-ia apenas de mostrar ao mundo o espectáculo da entrada triunfal, em Bagdade, dos «soldados do bem», da grande festa abrilhantada pelos «cruzados da liberdade e da democracia»...


A sincronia perfeita nas falas e escritos dos referidos comentadores e editorialistas, bem como as suas «previsões» passadas a papel químico, são filhas não de um processo de reflexão no decorrer do qual cada um deles concluiu o que muito bem entendeu, mas sim da utilização da cassette gravada na Sede do Império e distribuída pelos seus porta-vozes à escala planetária. E lembremos que o ridículo e boçal argumentário produzido pelo Império sobre as «razões da guerra» e as «previsões do seu desenvolvimento», repetido exaustivamente pelos media dominantes, é um autêntico atentado à inteligência humana.

A realidade tem vindo a destroçar, a fazer em fanicos, quer as patranhas sobre as «razões» dos bombardeamentos, quer as «previsões» avançadas.

Assim, se é verdade que os EUA e a Grã Bretanha lançaram já sobre o Iraque milhares de toneladas de bombas (daqui por algum tempo saberemos que milhares de iraquianos foram mortos nesta «acção libertadora»), não é menos verdade que o povo iraquiano tem resistido e parece, até, decidido a continuar a resistir – possivelmente sabendo que irá ser derrotado, mas talvez sabendo também que é grande a diferença entre ser derrotado por virar costas à luta e ser derrotado por efeito de flagrante desproporção de meios face ao inimigo; e talvez querendo mostrar, ainda, que entre o invasor anglo-americano (antidemocrático, brutal, criminoso e poderosamente armado) e o regime de Saddam (antidemocrático, brutal, criminoso e previamente desarmado por ordem do invasor), não hesita em combater o invasor da sua Pátria. Por outro lado, os soldados iraquianos – em visível inferioridade geral face às hordas invasoras que constituem a maior força bélica existente no Planeta – não só não se prostraram aos pés dos invasores como estava «previsto» que acontecesse, como ousaram lutar e resistir (aliás, com resultados totalmente fora das «previsões» anunciadas). Por outro lado, ainda, a ideia da «guerra santa» não passou: com a excepção dos ingénuos de profissão, ninguém duvida das intenções dos assassinos do Pentágono e cresce o número de observadores a considerar que as afirmações sobre «as armas de destruição maciça» que, segundo os EUA, estariam na posse do Iraque, não passam de uma das várias patranhas inventadas pelo Império para disfarçar o verdadeiro objectivo do massacre: a ocupação do Iraque e a apropriação por parte dos EUA das riquezas petrolíferas daquele país.


Quer isto dizer que a comunicação social dominante (propriedade dos grandes grupos económicos e financeiros e, por isso, em muitos casos, propriedade dos principais interessados na guerra) se encontra, desde já, e ainda bem, entre os grandes vencidos desta guerra. Desta vez, o objectivo de transformar a opinião publicada em opinião pública falhou estrondosamente. Bem podem esses poderosos media recorrer a todos os seus pesos pesados, chamar à liça os seus directores e editorialistas principais, bem podem multiplicar-se na repetição exaustiva da mesma mentira com a esperança de ela vir a tornar-se verdade universal... De facto, a opinião pública mundial rejeita-os, trata-os como mentirosos e manipuladores, ri-se deles, sai para a rua em manifestações gigantescas, denuncia com lucidez os reais objectivos do Império, trata pelos nomes devidos Bush, Blair, Aznar, Barroso e Cia., põe o dedo na ferida em relação ao que, na verdade está em jogo nesta guerra criminosa, reclama a paz e exige o fim da guerra.

É certo que, como parece óbvio, mais tarde ou mais cedo a força bruta do Império ocupará o Iraque, consumará plenamente o brutal, bárbaro, sangrento crime que esta guerra constitui. Mas é igualmente certo – e este será um dado relevante nesta situação – que as dezenas de milhões de homens, mulheres e jovens que têm vindo para as ruas em nome da vida, da verdade, da democracia, da liberdade, dos direitos humanos, são sementes carregadas de futuro.