Venezuela

Um destino em jogo

Pedro Campos

Poucos anos após o achamento da Venezuela, o cronista Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdés – íamos no ano de 1535 – fez uma primeira referência escrita de um europeu ao petróleo: «alguns que o viram dizem ser chamado pelo naturais de Stercus demonis e que é utilíssimo em medicina». Não é, pois, de estranhar que, em 1539, atendendo a uma ordem da rainha D. Juana, seja enviado a Espanha um barril de petróleo para aliviar a gota de Carlos V.

De então para cá, o petróleo não parou de ganhar importância. «Quem for dono do petróleo será dono do mundo, porque governará os mares através dos crudes pesados, o ar através do petróleo ultra-refinado e a terra através das gasolinas1». «O almirantado deveria converter-se em proprietário e explorador das jazidas capazes de atender as suas próprias necessidades de combustíveis2» . «É muito provável que a superioridade das nações se possa determinar pela posse do petróleo disponível e dos seus produtos3». «Até certo ponto, o petróleo é actualmente a arma de arbitragem internacional. Hoje o petróleo começa a controlar o dinheiro do mundo, e portanto, a vontade das nações para a guerra4». «A indústria vê-se obrigada a intervir em política em todo o mundo para derrubar regimes aqui e subornar uns e outros aqui e acolá, e não hesitará perante a perspectiva de uma guerra mundial se tal guerra parece conveniente para resolver o seu problema principal (…) A indústria deve governar5».

Neste momento, os Estados Unidos já não são o primeiro produtor de hidrocarbonetos e transformaram-se no grande importador neto. A sua produção actual é metade da que se registava há 30 anos. De cada dois barris que consome, um é importado, mas dentro de duas décadas a relação será ainda pior: de cada três, dois virão do estrangeiro. Hoje as suas reservas estão em níveis anormalmente baixos. Num momento em que estão a ponto de começar uma guerra imoral, ilegal e ilegítima – mas inevitável, tendo em conta as suas ambições imperialistas – isso torna-os tão agressivos que são capazes das piores formas de agressão unilateralista, mesmo ao preço de antagonizar aliados fundamentais e históricos.

É por está razão que, na Venezuela, há muito em jogo nestes dias. Não é só o destino do governo de Hugo Chávez que se discute, mas também o destino do país, na medida em que um triunfo das forças da reacção, apoiadas pelo capital nacional e internacional, poriam a principal indústria nacional nas mãos das transnacionais6». Por outro, está também em cima da mesa o futuro de vários povos da América Latina, que vêem no processo político da Venezuela – e também nos do Brasil e Equador –, um caso de estudo para as suas próprias realidades. O regime de Washington sabe que uma eventual derrota das novas administrações destes países, significa a apropriação fácil das suas riquezas naturais, a imposição automática da ALCA e de outras políticas neocolonialistas, capazes os pôr de joelhos – e a todos os outros – durante várias década mais.

Num comentário de bom olfacto político sobre as origens do golpe de estado de 11 de Abril de 2002, um jornalista espanhol afirmou que tinha um «cheiro a hamburguesa, jabugo (presunto espanhol) e petróleo». Referia-se claramente à participação norte-americana e espanhola, entre outras estrangeiras. De facto, aquilo tresandava a esterco do demónio, e ainda que, depois de um breve momento de pesadelo, foi derrotado, a verdade é que não foi totalmente desarmado. De então até hoje, a reacção nacional, aliada ao capital petrolífero internacional, trabalha activamente, repetindo passos já dados, noutro golpe com o mesmo fedor.


Mais sobre a internacionalização…


Walter Martínez, condutor de Dossier –um programa de televisão diário sobre política internacional – publicou há algumas semanas um artigo na imprensa de Caracas7, que dá conta de uma informação na qual se faz uma avaliação da política de internacionalização de Petróleos de Venezuela, S. A. (PDVSA). Ali afirma-se o seguinte: «As razões esgrimidas para justificar o programa (nomeadamente a necessidade de garantir destinos para o crude pesado venezuelano) não concordam com a detalhada evidência micro-económica disponível sobre o comércio externo do crude venezuelano no mercado norte-americano. O programa pareceria girar de preferência à volta de um objectivo fiscal: reduzir a carga impositiva de PDVSA através de mecanismos de transferência de benefícios e importação de custos, e a posterior recirculação – para fins de investimentos de activos fixos no estrangeiros – de fluxos de dinheiros criados desta forma, segundo um complexo esquema cujas bases são o endividamento externo e meios de engenharia financeira domiciliados em paraísos fiscais».

Mais adiante: «A estafa de PDVSA à Nação chama-se "internacionalização" (10 mil milhões de dólares pseudo-investidos na compra de 19 refinarias não rentáveis nos Estados Unidos, Europa e Reino Unido); a estafa chama-se CITGO (subsídio aos consumidores norte-americanos com descontos na compra de crudes a PDVSA, entre 2 e 4 dólares o barril, acumulando 6 mil milhões de dólares); a estafa chama-se "abertura petrolífera" (600 mil barris por dia na sua maioria não sujeitos a regulação de produção OPEP e cujos custos oscilam entre 15 e 20 dólares o barril); a estafa chama-se "véus corporativos" (um labiríntico entrecruzar de contas petrolíferas em bancos internacionais na ordem dos 6 mil milhões de dólares vinculados a 190 subsidiárias».


Os pés na Venezuela
e o cérebro nos… Estados Unidos


Em 1999 nasce Intesa, uma empresa formada por PDVSA y SAIC, como uma outsourcing para controlar todos os aspectos informáticos da estatal venezuelana. Considerando que SAIC – acrónimo de Science Applications International Corporation – é uma firma estado-unidense, talvez não possa ser muito estranho que PDVSA tenha aportado o capital inicial e só tenha direito a 40 por cento das acções…Talvez também não surpreenda que Intesa tenha realizado cobranças indevidas por perto de 55 milhões e que PDVSA, depois de um processo de negociação, tivesse acordado receber somente 2.2 milhões8. Mas já não parece tão natural toda esta histórica quando se analisa com um pouco mais de cuidado o que é esta SAIC que, dentro de Intesa, controla todos os processos informáticos de PDVSA.

Detrás desse acrónimo tão pouco revelador encontramos nomes que dizem muito. No seu conselho de administração e outros órgãos de direcção aparecem, entre outros, personagens como William Perry y Melvin Laird, ex secretários de Defesa, e John Deutsch e Robert Gates, antigos directores da CIA. Mas ainda há mais. O general Wayne Downing, ex comandante das forças especiais, é um dos seus administradores. Outros são o também general Jasper Welch, há algum tempo coordenador do Conselho Nacional de Segurança, e o almirante Ray Inman, ex director da Agência Nacional de Segurança e ex director da CIA. Por último, e para não tornar a lista mais longa, temos que preside à SAIC um membro do Comité Assessor de Segurança em Telecomunicações: J. R. Beyster.

SAIC, cérebro das operações informáticas de PDVSA e fortemente ligada ao governo de George W. Bush, é a encarregada de desenvolver o sistema informático do Departamento de Defesa dos Estados, e está instalada nos centros de decisão das principais empresas petrolíferas do mundo, como a BP-Amoco, o principal concorrente de PDVSA9. Se existisse alguma dúvida sobre a importância das relações de SAIC com o regime de Bush, bastaria acrescentar que a empresa tem receitas da ordem dos 2 mil milhões de dólares, sendo 90 por cento das mesmas resultado de contratos com o governo norte-americano nas áreas da defesa e da inteligência. Em breve, está claro que o cérebro da estatal venezuelana está controlado pela CIA, o que explica em grande parte, acaso em tudo, o nível de sabotagem a que tem sido submetida PDVSA desde Dezembro de 2002, quando estalou o lockout-greve golpista porque Hugo Chávez tratou de pôr a indústria ao serviço do povo venezuelano.

Como lembra Eduardo Galeano ao falar nos donos dos meios de comunicação, que «com toda a liberdade, denunciaram o extermínio da liberdade» por parte de Chávez, a manivela do golpe foi accionada «não pelo seu estilo messiânico, nem pela sua tendência para a verborreia, mas pelas reformas que propôs e as heresias que cometeu. Chávez tocou nos intocáveis.» PDVSA, em tanto que «estado dento do Estado», foi, pelo menos até há pouco, intocável.

As coisas estão a mudar. Lentamente. Mas não faltam denúncias inquietantes no sentido de que, apesar dos milhares de despedimentos de tecnocratas golpistas, ainda lá ficam alguns com mentalidade de colonizados, enquanto surgem indícios perigosos de readmissão de muitos dos despedidos.

_________

1 Henry Berenguer, Director da Comissão Francesa do Petróleo para a I Guerra Mundial (1914).

2 Winston Churchill, 1913.

3 Calvin Coolidge, ex presidente dos Estados Unidos (1923-1929)

4 Walter Teagle, Presidente da Standard Oil

5 Henry Deterding, fundador da Royal Dutch-Shell.

6 James Petras, num trabalho recente, afirma: "A curto prazo, o imperialismo estado-unidense está preparado para levar a cabo uma série de guerras de conquista, em princípio contra o Afeganistão, Iraque e Coreia do Norte e depois contra Venezuela, Irão e outros países ricos em petróleo."

7 Últimas Noticias, 12 de Janeiro de 2003

8 Relatório oficial de 2001.

9 Ralph Alexandre Foster e Tulio Monsalve, in Brecha, Uruguai..



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