Octávio Pato
Milhares de amigos na despedida


«Continuas ao nosso lado!»
Estas palavras ouvimo-las arrancadas a vozes embargadas pela emoção da despedida a Octávio Pato, marcadas pela confiança de que muitos saberão continuar as suas lutas e seguir-lhe o exemplo.

Muitos milhares de camaradas e de amigos, na grande maioria trabalhadores e povo anónimo, se juntaram no Alto de São João, uns aguardando a chegada do cortejo, outros incorporados nele. Desde a tarde de sexta-feira, ininterruptamente, o Centro de Trabalho Vitória recebia a presença comovida de militantes comunistas, de numerosas personalidades e de muitos cidadãos que se juntaram a prestar homenagem ao combatente antifascista, ao dirigente do PCP cujo exemplo de coragem e de coerência na defesa de ideais que lhe sobrevivem.
Uma hora antes do tempo marcado para o funeral entrar no cemitério já na alameda central frente ao portão muita gente aguardava, recordando em numerosas conversas em voz baixa, o camarada falecido. Dispostas junto às árvores, coroas de flores que já tinham chegado do CT Vitória, assinalavam o último caminho. Viriam ainda mais três carrinhas cheias de flores, homenagens de organizações do Partido, de estruturas sindicais, de autarquias, de colectividades, de personalidades destacadas da vida política e cultural de todo o País.
Foi difícil ao carro fúnebre abrir depois passagem através da multidão onde se distinguiam dirigentes do PCP, capitães de Abril, numerosas personalidades de que procuramos dar conta na lista, necessariamente insuficiente, de gente destacada que se despediu do camarada.
Um longo aplauso acompanhou o féretro à campa. Punhos levantados. Cravos erguidos. Bandeiras vermelhas. Ao findarem as palavras de Carlos Carvalhas, que abaixo transcrevemos, espontaneamente levantaram-se vozes em torno dos dirigentes do Partido: «Força, PCP!» E, em quadras dispersas, uma canção vibrou: «Avante, Camarada!».
Octávio Pato continua a nosso lado.




Nota Biográfica

Octávio Floriano Rodrigues Pato nasceu em Vila Franca de Xira, em 1925, tendo começado a trabalhar aos 14 anos de idade na indústria de calçado e como empregado de comércio.
Era membro do PCP desde 1941, funcionário do Partido desde 1945 e membro do Comité Central desde 1949.
Iniciou a sua actividade revolucionária aos 15 anos na Federação da Juventude Comunista Portuguesa. Após a reorganização de 1940/41 fez parte do Comité Local de Vila F. Xira e do Comité Regional do Baixo Ribatejo. Na região de Vila F. Xira, teve participação activa na preparação, organização e desencadeamento das grandes greves de 8 e 9 de Maio de 1944, que abrangeram todo o Ribatejo, a região de Lisboa e Loures.
Em 1945, perante as ameaças repressivas do fascismo, é obrigado a passar à clandestinidade, ficando a dirigir as organizações juvenis e estudantis do Partido. Em 1946, tendo em vista a necessidade de impulsionar um grande movimento unitário de massas da juventude, foi destacado para essa actividade e, numa situação de semi-clandestinidade e usando o nome Octávio Rodrigues, foi um dos fundadores e dirigentes do MUD-Juvenil (Movimento de Unidade Democrática Juvenil).
Em 1947 voltou à mais rigorosa clandestinidade, continuando a trabalhar no sector das organizações de juventude e passando a integrar a Direcção da Organização Regional de Lisboa do PCP.

Em 1949, foi eleito para o Comité Central como membro suplente e em 1952, já como efectivo, foi designado para o Secretariado do Comité Central. Como membro do Comité Central, trabalhou nas Direcções das Organizações Regionais de Lisboa, do Norte e do Sul, bem como na redacção do «Avante!», tendo sido também responsável pelo controlo das duas tipografias clandestinas centrais.

Em Dezembro de 1961 foi preso pela PIDE. Barbaramente espancado e torturado (impedido de dormir durante 18 dias e noites seguidos e 4 meses incomunicável), recusou-se a responder a quaisquer perguntas. Foi espancado no decorrer do próprio julgamento no Tribunal Plenário de Lisboa pela firme defesa política que aí fez. Condenado a oito anos e meio de prisão, indefinidamente prorrogáveis por "medidas de segurança", foi libertado em 1970 após um grande movimento de solidariedade.
Tendo voltado pouco depois à luta na clandestinidade, era no período que antecedeu o 25 de Abril membro do Secretariado e da Comissão Executiva do Comité Central, tendo a seu cargo, entre outras tarefas, a responsabilidade pela redacção do «Avante!».
Depois do 25 de Abril, Octávio Pato foi deputado e Presidente do Grupo Parlamentar do PCP na Assembleia Constituinte (1975), candidato à Presidência da República em 1976, e deputado à Assembleia da República de 1976 a 1991; membro da Comissão Central de Controlo e Quadros de 1988 a 1992; membro da Comissão Política de 1974 a 1988 , e do Secretariado do Comité Central de 1974 até ao seu falecimento.

 


Carlos Carvalhas na despedida:
«O exemplo que nos deu
e o valor que sobrevive»


Camaradas e amigos :

A morte dos que nos são mais queridos ou próximos provoca sempre, todos o sabemos, uma dor que é maior que todas as outras dores, uma amargura que é mais forte que todas as outras amarguras e uma tristeza que é mais funda que todas as outras tristezas
E é certamente assim que muitos nos sentimos quando aqui vimos hoje despedirmo-nos de Octávio Pato, nosso camarada de luta e de ideais, nosso companheiro em tantas e tantas batalhas, cidadão vertical e destacado obreiro da democracia portuguesa, grande e respeitada figura de militante e dirigente comunista em quase seis décadas de vida e intervenção do Partido Comunista Português.
Como todos também sabemos, nenhumas palavras nem nenhumas maneiras de dizer podem rasurar, esconder ou contornar esta dor, esta amargura e esta tristeza, que, não o esquecemos, inevitavelmente atinge de uma forma particularmente sofrida a sua família a quem renovamos o nosso abraço de sincera e fraterna solidariedade no momento difícil por que passam.
Mas há palavras que é preciso dizer quando nos despedimos de Octávio Pato para fazer alguma justiça em relação aquilo que o PCP e os comunistas portugueses, os trabalhadores, o povo português, Portugal e sua democracia indiscutivelmente lhe devem.
Entre muitas outras coisas, devemo-lhe o tocante exemplo da sua generosa entrega, logo aos 15 anos, à causa da libertação do povo português da odiosa ditadura fascista e dos ideais do socialismo e do comunismo traduzida no seu ingresso na Federação da Juventude Comunista Portuguesa em 1940, da sua entrada para as fileiras do PCP em 1941, a sua passagem a funcionário do Partido em 1945.
Devemos-lhe a persistência, a audácia, a coragem, a firmeza de convicções, a capacidade de trabalho e o espírito de iniciativa com que honrou as exigências e as responsabilidades da luta clandestina do nosso Partido ao longo de quase três décadas.
Devemo-lhe, entre tantos outros períodos e batalhas cruciais, a sua participação na organização das grandes greves de 8 e 9 de Maio de 1944, o seu papel e o seu trabalho na fundação e actividade do MUD- Juvenil, o seu trabalho à frente de diversas organizações regionais do Partido em todos esses longos e duríssimos anos em que o nosso Partido enfrentou a brutalidade da repressão do regime fascista, que hoje alguns pretendem insolentemente retocar pela mentira e pela complacência, em todos esses longos e duríssimos anos em que a generosidade, a capacidade política, a inexcedível determinação de militantes, quadros e dirigentes como Octávio Pato e tantos outros já falecidos ou ainda felizmente no nosso convívio puderam assegurar não apenas que o PCP sobrevivesse mas que se fortalecesse e sempre renovasse as suas sólidas raízes na classe operária, no povo e na sociedade portuguesa.
Devemos a Octávio Pato a contribuição da sua presença e destacadas responsabilidades na acção clandestina no interior do país nos anos que imediatamente precederam o 25 de Abril, no quadro da sua reafirmada entrega à luta concretizada logo após a sua libertação da cadeia de Peniche em 1970, após nove anos de prisão.
Devemos a Octávio Pato a sua contribuição dinâmica e empenhada no processo em que, a seguir ao 25 de Abril, o PCP conseguiu o feito de grande alcance histórico de realizar uma audaciosa inserção nas novas condições de luta criadas pela conquista da liberdade, assegurar de forma criativa a sua passagem de partido clandestino a um grande partido de massas, e dar uma incomparável contribuição para o processo de democratização da vida nacional e para a revolução democrática, ao mesmo tempo que respondia com grande êxito às tarefas da sua estruturação nacional e do fortalecimento da sua organização e intervenção nas mais diversas esferas da sociedade portuguesa.
E devemos ainda a Octávio Pato que, em coerência com o seu exaltante percurso de revolucionário e de comunista, do 25 de Abril de 1974 até aos últimos momentos da sua vida, tenha assumido tantas e por vezes tão difíceis tarefas e responsabilidades no quadro da direcção do PCP nestes últimos 25 anos em que vivemos do melhor e do pior, em que vivemos vitórias e derrotas, em que vivemos alegrias inesquecíveis e amarguras profundas, mas em que sempre soubemos viver com uma grande confiança no valor dos nossos ideais, com legitimo orgulho na nossa história e no que representámos, representamos e havemos de representar no nosso país para a conquista de novos horizontes de felicidade e emancipação humana.
Tudo o que devemos a Octávio Pato tem um valor e um significado que, desta ou daquela forma e por muitos caminhos, sempre sobreviverão à sua morte.
Porque a luta dos comunistas portugueses não se faz por mera justaposição ou simples sequência da acção e do papel das sucessivas gerações de comunistas.
Faz-se também e sobretudo do património comum de experiência, de luta e de valores que umas gerações legam às outras e que estas também concebem e renovam e faz-se da síntese criadora que só a capacidade, o esforço e o mérito de cada um conjugados com o trabalho colectivo a solidariedade na acção asseguram.
Aqui quisemos portanto dizer da nossa gratidão pelo muito que devemos ao camarada Octávio Pato de que agora nos despedimos.
Mas queremos crer que Octávio Pato seria o primeiro a achar que falta dizer alguma coisa mais.
E essa alguma coisa mais é a evocação de um grande valor e de uma atitude que, ontem como hoje, conserva importância e actualidade no património do nosso Partido.
Essa alguma coisa mais é que, no nosso Partido, é bom que se reconheça o valor dos homens e mulheres comunistas individualmente considerados e o que todos lhes devemos. Mas tem ainda mais valor os homens e as mulheres comunistas que são capazes de compreender que muito do que cada um vale e das marcas que cada um deixou no seu tempo também é indissociável do que viveu e aprendeu com os outros comunistas, do que viveu e aprendeu na calor e na aspereza das batalhas travadas pelo Partido, de que viveu e aprendeu nas experiências e no enriquecimento humano, cívico e político que só a comunhão de ideais, a acção comum e a solidariedade de combate podem forjar.
Octávio Pato não estará mais ao nosso lado nos combates e trabalhos que temos pela frente, sempre com os trabalhadores, sempre pelos interesses e aspirações do nosso povo, sempre pela causa da democracia, do socialismo e do comunismo.
Mas estará ao nosso lado a memória do seu exemplo, a memória do seu empenhamento, a memória da sua generosidade, a memória de que dedicou 60 anos da sua vida a trabalhar e a lutar para que, hoje infelizmente já sem ele, continue a haver razões para que não nos falte a força de alma, a convicção num projecto político transformador e revolucionário, a capacidade de agregar novas energias para responder aos novos desafios, a determinação e a esperança no êxito da luta do Partido Comunista Português e no seu presente e futuro.
Em nome do PCP, e certamente expressando também o sentimento da família de Octávio Pato, a todos que aqui vieram queremos agradecer o conforto da sua companhia, do seu calor humano, da sua amizade e da sua solidariedade.

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A última homenagem

«Com profunda tristeza, o Secretariado do Comité Central do PCP comunica o falecimento de Octávio Pato».
Estas as primeiras palavras da nota em que é anunciada a morte do dirigente comunista e que evoca o «seu alto exemplo de grande figura da resistência e combate à ditadura fascista e da construção do Portugal democrático saído da Revolução de Abril, com uma vida inteira generosamente dedicada à luta dos trabalhadores e do povo português pela liberdade, pela democracia e pelo progresso social, à afirmação na sociedade portuguesa dos ideais do socialismo e do comunismo e ao fortalecimento do PCP como uma grande força democrática e revolucionária».
No funeral de Octávio Pato - partilhando a última homenagem ao dirigente comunista - estiveram presentes o Presidente da República, Jorge Sampaio, Almeida Santos, Presidente da Assembleia da República e o Presidente do Conselho de Ministros, António Guterres. O governo fez-se representar pelos ministros Jorge Coelho e João Cravinho e a Câmara Municipal de Lisboa, pelo seu Presidente, João Soares.
Na tarde de sexta-feira, largas centenas de pessoas prestaram a última homenagm a Octávio Pato, no Centro de Trabalho Vitória, onde esteve em câmara ardente.

Uma homenagem múltipla

Vários partidos políticos se fizeram representar. O Partido Socialista, por António José Seguro; o Partido Ecologista «Os Verdes», por Isabel Castro; a Intervenção Democrática, por Blasco Hugo Fernandes, Herberto Goulart; Dulce Rebelo; João Corregedor e António Gonçalves; a UDP, por Mário Tomé e Luís Fazenda; o PSR, por Francisco Louçã e a Política XXI, por Miguel Portas, António Matos Gomes e Rogério Moreira.
Sindicatos e associações estiveram igualmente presentes, com destaque para a CGTP-IN, a Associação 25 de Abril, representada por Pezarat Correia e Vasco Lourenço (que representou também o general Garcia dos Santos) e ainda o Sport Lisboa e Benfica, representado pelo seu vice-presidente, José Capristano. De referir que, no jogo Benfica/Guimarães foi guardado um minuto de silêncio em memória de Octávio Pato.
De entre as muitas dezenas de personalidades presentes contavam-se, nomeadamente, os jornalistas Carlos Vargas e Catarina Portas, os generais Vasco Gonçalves e Ramalho Eanes, os almirantes Rosa Coutinho, Martins Guerreiro e Durand Clemente, José Fonseca e Costa, realizador de cinema, Luiza Irene Dias Amado, Luís Cília, Maria Barroso, Maria Eugénia Varela Gomes, Mário Ruivo, Mário Soares, ex-presidente da República, o historiador José Mattoso, Manuel Alegre, deputado do PS, Miguel Galvão Teles, o encenador Rui Mendes, Sérgio Carvalhão Duarte, médico, o professor universitário Sotto Mayor Cardia, Stela Piteira Santos.

Centenas de mensagens

Centenas de outras mensagens escritas foram enviadas pelas organizações do PCP, direcções regionais, comissões concelhias e de freguesias, organismos e células de empresas e de diferentes sectores de trabalhadores.

O Secretariado do Comité Central do PCP enviou à família do dirigente comunista a seguinte mensagem:
«À camarada Paula Henriques e família de Octávio PatoTransmitimo-vos os nossos sentimentos de enorme pesar e tristeza por motivo do falecimento do camarada Octávio Pato.
Acompanhando-vos, nesta hora de dor e luto, temos bem presente o seu exemplo de uma vida consagrada à causa dos trabalhadores, da liberdade e do socialismo.»

A CGTP-In e dezenas de sindicatos e comissões de trabalhadores enviaram igualmente mensagens de pesar, assim como a Associação Nacional de Municípios , Câmaras Municipais, Juntas e Assembleias de Freguesia. Mensagens escritas foram também enviadas por associações e colectividades de vários pontos do país.
De entre as mensagens de partidos políticos contam-se as do Partido Ecologista «Os Verdes», do Secretariado Nacional do PS, do Grupo Parlamentar do PS na Assembleia Legislativa Regional dos Açores, da Comissão Política da Figueira da Foz do PS, da Intervenção Democrática e do PSR. E ainda de outras organizações e instituições, como a URAP e a Embaixada de Cuba.
É extensa a lista de personalidades que enviaram mensagens escritas, e que inclui Jorge Sampaio, António Guterres (em nome do Conselho de Ministros), Mário Soares, Vasco Cabral, vereadores da Câmara Municipal de Lisboa do CDS/PP, o presidente do Sport Lisboa e Benfica, João Vale de Azevedo, o comandante Gomes Mota, Vasco Vieira de Almeida, Luís Catarino, Raul Castro, Cândido de Azevedo, Luís Azevedo, Lopes Almeida, Levy Baptista, comandante Costa Santos.
Muitas dezenas de outras personalidades manifestaram ao Partido Comunista Português e à família sentidas condolências.


«Avante!» Nº 1317 - 25.Fevereiro.1999