Octávio Pato
Milhares
de amigos na despedida
«Continuas ao nosso lado!»
Estas palavras ouvimo-las arrancadas a vozes embargadas pela emoção da despedida a Octávio Pato, marcadas pela confiança de que muitos saberão continuar as suas lutas e seguir-lhe o exemplo.
Muitos milhares de
camaradas e de amigos, na grande maioria trabalhadores e povo
anónimo, se juntaram no Alto de São João, uns aguardando a
chegada do cortejo, outros incorporados nele. Desde a tarde de
sexta-feira, ininterruptamente, o Centro de Trabalho Vitória
recebia a presença comovida de militantes comunistas, de
numerosas personalidades e de muitos cidadãos que se juntaram a
prestar homenagem ao combatente antifascista, ao dirigente do PCP
cujo exemplo de coragem e de coerência na defesa de ideais que
lhe sobrevivem.
Uma hora antes do tempo marcado para o funeral entrar no
cemitério já na alameda central frente ao portão muita gente
aguardava, recordando em numerosas conversas em voz baixa, o
camarada falecido. Dispostas junto às árvores, coroas de flores
que já tinham chegado do CT Vitória, assinalavam o último
caminho. Viriam ainda mais três carrinhas cheias de flores,
homenagens de organizações do Partido, de estruturas sindicais,
de autarquias, de colectividades, de personalidades destacadas da
vida política e cultural de todo o País.
Foi difícil ao carro fúnebre abrir depois passagem através da
multidão onde se distinguiam dirigentes do PCP, capitães de
Abril, numerosas personalidades de que procuramos dar conta na
lista, necessariamente insuficiente, de gente destacada que se
despediu do camarada.
Um longo aplauso acompanhou o féretro à campa. Punhos
levantados. Cravos erguidos. Bandeiras vermelhas. Ao findarem as
palavras de Carlos Carvalhas, que abaixo transcrevemos,
espontaneamente levantaram-se vozes em torno dos dirigentes do
Partido: «Força, PCP!» E, em quadras dispersas, uma canção
vibrou: «Avante, Camarada!».
Octávio Pato continua a nosso lado.
Octávio
Floriano Rodrigues Pato nasceu em Vila Franca de
Xira, em 1925, tendo começado a trabalhar aos 14 anos de
idade na indústria de calçado e como empregado de
comércio. Em 1949, foi eleito para o Comité Central como membro suplente e em 1952, já como efectivo, foi designado para o Secretariado do Comité Central. Como membro do Comité Central, trabalhou nas Direcções das Organizações Regionais de Lisboa, do Norte e do Sul, bem como na redacção do «Avante!», tendo sido também responsável pelo controlo das duas tipografias clandestinas centrais. Em Dezembro de 1961 foi
preso pela PIDE. Barbaramente espancado e torturado
(impedido de dormir durante 18 dias e noites seguidos e 4
meses incomunicável), recusou-se a responder a quaisquer
perguntas. Foi espancado no decorrer do próprio
julgamento no Tribunal Plenário de Lisboa pela firme
defesa política que aí fez. Condenado a oito anos e
meio de prisão, indefinidamente prorrogáveis por
"medidas de segurança", foi libertado em 1970
após um grande movimento de solidariedade.
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Carlos Carvalhas na despedida:
«O exemplo que nos
deu
e o valor que sobrevive»
Camaradas e amigos :
A morte dos que nos
são mais queridos ou próximos provoca sempre, todos o sabemos,
uma dor que é maior que todas as outras dores, uma amargura que
é mais forte que todas as outras amarguras e uma tristeza que é
mais funda que todas as outras tristezas
E é certamente assim que muitos nos sentimos quando aqui vimos
hoje despedirmo-nos de Octávio Pato, nosso camarada de luta e de
ideais, nosso companheiro em tantas e tantas batalhas, cidadão
vertical e destacado obreiro da democracia portuguesa, grande e
respeitada figura de militante e dirigente comunista em quase
seis décadas de vida e intervenção do Partido Comunista
Português.
Como todos também sabemos, nenhumas palavras nem nenhumas
maneiras de dizer podem rasurar, esconder ou contornar esta dor,
esta amargura e esta tristeza, que, não o esquecemos,
inevitavelmente atinge de uma forma particularmente sofrida a sua
família a quem renovamos o nosso abraço de sincera e fraterna
solidariedade no momento difícil por que passam.
Mas há palavras que é preciso dizer quando nos despedimos de
Octávio Pato para fazer alguma justiça em relação aquilo que
o PCP e os comunistas portugueses, os trabalhadores, o povo
português, Portugal e sua democracia indiscutivelmente lhe
devem.
Entre muitas outras coisas, devemo-lhe o tocante exemplo da sua
generosa entrega, logo aos 15 anos, à causa da libertação do
povo português da odiosa ditadura fascista e dos ideais do
socialismo e do comunismo traduzida no seu ingresso na
Federação da Juventude Comunista Portuguesa em 1940, da sua
entrada para as fileiras do PCP em 1941, a sua passagem a
funcionário do Partido em 1945.
Devemos-lhe a persistência, a audácia, a coragem, a firmeza de
convicções, a capacidade de trabalho e o espírito de
iniciativa com que honrou as exigências e as responsabilidades
da luta clandestina do nosso Partido ao longo de quase três
décadas.
Devemo-lhe, entre tantos outros períodos e batalhas cruciais, a
sua participação na organização das grandes greves de 8 e 9
de Maio de 1944, o seu papel e o seu trabalho na fundação e
actividade do MUD- Juvenil, o seu trabalho à frente de diversas
organizações regionais do Partido em todos esses longos e
duríssimos anos em que o nosso Partido enfrentou a brutalidade
da repressão do regime fascista, que hoje alguns pretendem
insolentemente retocar pela mentira e pela complacência, em
todos esses longos e duríssimos anos em que a generosidade, a
capacidade política, a inexcedível determinação de
militantes, quadros e dirigentes como Octávio Pato e tantos
outros já falecidos ou ainda felizmente no nosso convívio
puderam assegurar não apenas que o PCP sobrevivesse mas que se
fortalecesse e sempre renovasse as suas sólidas raízes na
classe operária, no povo e na sociedade portuguesa.
Devemos a Octávio Pato a contribuição da sua presença e
destacadas responsabilidades na acção clandestina no interior
do país nos anos que imediatamente precederam o 25 de Abril, no
quadro da sua reafirmada entrega à luta concretizada logo após
a sua libertação da cadeia de Peniche em 1970, após nove anos
de prisão.
Devemos a Octávio Pato a sua contribuição dinâmica e
empenhada no processo em que, a seguir ao 25 de Abril, o PCP
conseguiu o feito de grande alcance histórico de realizar uma
audaciosa inserção nas novas condições de luta criadas pela
conquista da liberdade, assegurar de forma criativa a sua
passagem de partido clandestino a um grande partido de massas, e
dar uma incomparável contribuição para o processo de
democratização da vida nacional e para a revolução
democrática, ao mesmo tempo que respondia com grande êxito às
tarefas da sua estruturação nacional e do fortalecimento da sua
organização e intervenção nas mais diversas esferas da
sociedade portuguesa.
E devemos ainda a Octávio Pato que, em coerência com o seu
exaltante percurso de revolucionário e de comunista, do 25 de
Abril de 1974 até aos últimos momentos da sua vida, tenha
assumido tantas e por vezes tão difíceis tarefas e
responsabilidades no quadro da direcção do PCP nestes últimos
25 anos em que vivemos do melhor e do pior, em que vivemos
vitórias e derrotas, em que vivemos alegrias inesquecíveis e
amarguras profundas, mas em que sempre soubemos viver com uma
grande confiança no valor dos nossos ideais, com legitimo
orgulho na nossa história e no que representámos, representamos
e havemos de representar no nosso país para a conquista de novos
horizontes de felicidade e emancipação humana.
Tudo o que devemos a Octávio Pato tem um valor e um significado
que, desta ou daquela forma e por muitos caminhos, sempre
sobreviverão à sua morte.
Porque a luta dos comunistas portugueses não se faz por mera
justaposição ou simples sequência da acção e do papel das
sucessivas gerações de comunistas.
Faz-se também e sobretudo do património comum de experiência,
de luta e de valores que umas gerações legam às outras e que
estas também concebem e renovam e faz-se da síntese criadora
que só a capacidade, o esforço e o mérito de cada um
conjugados com o trabalho colectivo a solidariedade na acção
asseguram.
Aqui quisemos portanto dizer da nossa gratidão pelo muito que
devemos ao camarada Octávio Pato de que agora nos despedimos.
Mas queremos crer que Octávio Pato seria o primeiro a achar que
falta dizer alguma coisa mais.
E essa alguma coisa mais é a evocação de um grande valor e de
uma atitude que, ontem como hoje, conserva importância e
actualidade no património do nosso Partido.
Essa alguma coisa mais é que, no nosso Partido, é bom que se
reconheça o valor dos homens e mulheres comunistas
individualmente considerados e o que todos lhes devemos. Mas tem
ainda mais valor os homens e as mulheres comunistas que são
capazes de compreender que muito do que cada um vale e das marcas
que cada um deixou no seu tempo também é indissociável do que
viveu e aprendeu com os outros comunistas, do que viveu e
aprendeu na calor e na aspereza das batalhas travadas pelo
Partido, de que viveu e aprendeu nas experiências e no
enriquecimento humano, cívico e político que só a comunhão de
ideais, a acção comum e a solidariedade de combate podem
forjar.
Octávio Pato não estará mais ao nosso lado nos combates e
trabalhos que temos pela frente, sempre com os trabalhadores,
sempre pelos interesses e aspirações do nosso povo, sempre pela
causa da democracia, do socialismo e do comunismo.
Mas estará ao nosso lado a memória do seu exemplo, a memória
do seu empenhamento, a memória da sua generosidade, a memória
de que dedicou 60 anos da sua vida a trabalhar e a lutar para
que, hoje infelizmente já sem ele, continue a haver razões para
que não nos falte a força de alma, a convicção num projecto
político transformador e revolucionário, a capacidade de
agregar novas energias para responder aos novos desafios, a
determinação e a esperança no êxito da luta do Partido
Comunista Português e no seu presente e futuro.
Em nome do PCP, e certamente expressando também o sentimento da
família de Octávio Pato, a todos que aqui vieram queremos
agradecer o conforto da sua companhia, do seu calor humano, da
sua amizade e da sua solidariedade.
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A última homenagem
«Com profunda tristeza, o
Secretariado do Comité Central do PCP comunica o falecimento de
Octávio Pato».
Estas as primeiras palavras da nota em que é anunciada a morte
do dirigente comunista e que evoca o «seu alto exemplo de grande
figura da resistência e combate à ditadura fascista e da
construção do Portugal democrático saído da Revolução de
Abril, com uma vida inteira generosamente dedicada à luta dos
trabalhadores e do povo português pela liberdade, pela
democracia e pelo progresso social, à afirmação na sociedade
portuguesa dos ideais do socialismo e do comunismo e ao
fortalecimento do PCP como uma grande força democrática e
revolucionária».
No funeral de Octávio Pato - partilhando a última homenagem ao
dirigente comunista - estiveram presentes o Presidente da
República, Jorge Sampaio, Almeida Santos, Presidente da
Assembleia da República e o Presidente do Conselho de Ministros,
António Guterres. O governo fez-se representar pelos ministros
Jorge Coelho e João Cravinho e a Câmara Municipal de Lisboa,
pelo seu Presidente, João Soares.
Na tarde de sexta-feira, largas centenas de pessoas prestaram a
última homenagm a Octávio Pato, no Centro de Trabalho Vitória,
onde esteve em câmara ardente.
Uma homenagem múltipla
Vários partidos políticos se
fizeram representar. O Partido Socialista, por António José
Seguro; o Partido Ecologista «Os Verdes», por Isabel Castro; a
Intervenção Democrática, por Blasco Hugo Fernandes, Herberto
Goulart; Dulce Rebelo; João Corregedor e António Gonçalves; a
UDP, por Mário Tomé e Luís Fazenda; o PSR, por Francisco
Louçã e a Política XXI, por Miguel Portas, António Matos
Gomes e Rogério Moreira.
Sindicatos e associações estiveram igualmente presentes, com
destaque para a CGTP-IN, a Associação 25 de Abril, representada
por Pezarat Correia e Vasco Lourenço (que representou também o
general Garcia dos Santos) e ainda o Sport Lisboa e Benfica,
representado pelo seu vice-presidente, José Capristano. De
referir que, no jogo Benfica/Guimarães foi guardado um minuto de
silêncio em memória de Octávio Pato.
De entre as muitas dezenas de personalidades presentes
contavam-se, nomeadamente, os jornalistas Carlos Vargas e
Catarina Portas, os generais Vasco Gonçalves e Ramalho Eanes, os
almirantes Rosa Coutinho, Martins Guerreiro e Durand Clemente,
José Fonseca e Costa, realizador de cinema, Luiza Irene Dias
Amado, Luís Cília, Maria Barroso, Maria Eugénia Varela Gomes,
Mário Ruivo, Mário Soares, ex-presidente da República, o
historiador José Mattoso, Manuel Alegre, deputado do PS, Miguel
Galvão Teles, o encenador Rui Mendes, Sérgio Carvalhão Duarte,
médico, o professor universitário Sotto Mayor Cardia, Stela
Piteira Santos.
Centenas de mensagens
Centenas de outras mensagens escritas foram enviadas pelas organizações do PCP, direcções regionais, comissões concelhias e de freguesias, organismos e células de empresas e de diferentes sectores de trabalhadores.
O Secretariado do Comité Central
do PCP enviou à família do dirigente comunista a seguinte
mensagem:
«À camarada Paula Henriques e família de Octávio
PatoTransmitimo-vos os nossos sentimentos de enorme pesar e
tristeza por motivo do falecimento do camarada Octávio Pato.
Acompanhando-vos, nesta hora de dor e luto, temos bem presente o
seu exemplo de uma vida consagrada à causa dos trabalhadores, da
liberdade e do socialismo.»
A CGTP-In e dezenas de sindicatos
e comissões de trabalhadores enviaram igualmente mensagens de
pesar, assim como a Associação Nacional de Municípios ,
Câmaras Municipais, Juntas e Assembleias de Freguesia. Mensagens
escritas foram também enviadas por associações e
colectividades de vários pontos do país.
De entre as mensagens de partidos políticos contam-se as do
Partido Ecologista «Os Verdes», do Secretariado Nacional do PS,
do Grupo Parlamentar do PS na Assembleia Legislativa Regional dos
Açores, da Comissão Política da Figueira da Foz do PS, da
Intervenção Democrática e do PSR. E ainda de outras
organizações e instituições, como a URAP e a Embaixada de
Cuba.
É extensa a lista de personalidades que enviaram mensagens
escritas, e que inclui Jorge Sampaio, António Guterres (em nome
do Conselho de Ministros), Mário Soares, Vasco Cabral,
vereadores da Câmara Municipal de Lisboa do CDS/PP, o presidente
do Sport Lisboa e Benfica, João Vale de Azevedo, o comandante
Gomes Mota, Vasco Vieira de Almeida, Luís Catarino, Raul Castro,
Cândido de Azevedo, Luís Azevedo, Lopes Almeida, Levy Baptista,
comandante Costa Santos.
Muitas dezenas de outras personalidades manifestaram ao Partido
Comunista Português e à família sentidas condolências.