• Fausto Neves

Da infância adversa a um nível artístico de renome, graças ao seu génio musical e trabalho hercúleo, Beethoven debateu-se desde cedo com o drama da surdez
Ode à Liberdade(i)

«Nenhum músico, antes ou depois do autor da Nona Sinfonia, conseguiu uma tão larga simpatia universal, poucos nomes como o de Beethoven terão alcançado uma tão funda ressonância, poucos terão polarizado em si um tão grande número de correntes afectivas, de aspirações ideais, poucos possuirão como ele o valor absoluto de um símbolo, de um símbolo que vai ao ponto de representar um mito (…)»

(Lopes-Graça, 1941, Musicália, 1992, p 61.).

 

Que dizer de um titã da História da Música – Ludwig von Beethoven (1770-1827) – na passagem dos duzentos e cinquenta anos do seu nascimento, após a leitura das entusiastas palavras de Fernando Lopes-Graça? Para já, a nossa ligação «caseira» a Beethoven, ao humanismo e à arte germânica: teve como aluno Carl Czerny, professor do grande Franz Liszt, que ensinou o pianista português Viana da Mota, professor e amigo de Lopes-Graça e formador de mestres dos nossos dias, como os pianistas Sequeira Costa e Helena Costa.

A primeira metade da vida de Beethoven ergueu-se de uma infância brutalmente adversa em condições económicas e afectivas até a um nível artístico de renome, graças ao seu génio musical e a uma capacidade de trabalho hercúlea. Esta progressão profissional foi pouco a pouco quase anulada por uma surdez progressiva, concluindo Beethoven a sua passagem pelo século XVIII com a fuga dos centros sociais e o isolamento progressivo. O aluno Czerny ainda deixou descrita uma das actuações públicas, onde Beethoven impressionava pela sua improvisação, plena de surpresas acústicas que invariavelmente deixavam o público sobressaltado e o jovem pianista em sonoras gargalhadas. Mas o desespero provocado pela surdez levou-o a escrever: «Descrente ano após ano da esperança que o meu estado melhore, forçado a encarar a eventualidade duma enfermidade durável, cuja cura exigiria vários anos, admitindo que ela fosse possível, dotado de um temperamento ardente e activo, dado às distrações que a sociedade oferece, vi-me obrigado a isolar-me, a passar a vida longe do mundo, solitário. (…) Não podia decidir-me a dizer aos homens: Fale mais alto, grite, por que sou surdo. Ah! Como confessar a fraqueza de um sentido, que, em mim, deveria ser infinitamente mais desenvolvido que nos outros, de um sentido que já possuí outrora numa tal perfeição que bem poucos músicos jamais conheceram.» (Beethoven, Testamento de Heiligenstadt, 1802)

À entrada do século XIX Beethoven encontrava-se perto do suicídio. Até aí tinha deixado a sua marca já indelével na História da Música: partilhando a herança, os ensinamentos e o vocativo «Papá Haydn» com Mozart das aulas do maravilhoso Joseph Haydn, Beethoven desde muito cedo se afastou dos outros dois clássicos, reabilitando o discurso musical, depurando e superando criativamente as suas regras, aproximando-se profeticamente da liberdade expressiva dos futuros românticos.

Após a sua crise pessoal, Beethoven, graças a toda uma cultura humanista que dominava e interpretava bem à sua maneira, assumiu a situação de surdez e a sua condição humana, iniciando um ciclo de obras experimentais que se constituíram de imediato obras-primas da Música. Quando o seu ciclo criativo poderia considerar-se fechado, o alemão de Bona que adoptou Viena, iniciou o chamado ciclo monumental do seu catálogo. O exemplo mais popular desta fase é a sua Nona Sinfonia que, coisa nunca vista, ganhou uma enorme extensão e concluiu-se com solistas vocais e um coro.

Sendo Beethoven um compositor que se emancipou da subserviência profissional em que viviam os músicos até então, faleceu reconhecido e homenageado como um grande. Do seu pensamento humanista ficou a sua entusiasmada dedicatória da 3.ª Sinfonia (Heróica) ao revolucionário Bonaparte e o posterior riscar da mesma ao tomar conhecimento da coroação de Napoleão como imperador.

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(i) Segundo vários autores, o poema de schiller, musicado por Beethoven na 9.ª Sinfonia, intitular-se-ia originalmente An die Freiheit (Ode à Liberdade) e não na forma censurada actual: An die Freude (Ode à Alegria, vulgarmente traduzido por Hino à Alegria).



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