Palco Paz
Três dias em que tudo coube

O Palco Paz estreou-se na Festa do Avante!. Foram três dias da programação mais diversa, com a qualidade de sempre. Três dias em que coube música de Norte a Sul de Portugal e sonoridades de todo o mundo. Três dias de festa, convívio e fraternidade. Três dias de rock, blues, samba, música tradicional e reggae. Três dias em que tudo aconteceu, tudo menos aquilo que disseram (de mal) que iria acontecer. Três dias em que, também ali, os comunistas lembraram aos portugueses e a todos os que lá passaram como é ser feliz.

Apesar de a tarde de sexta-feira ir avançada quando entrou no Palco Paz o primeiro grupo que lá actuaria, o calor que se tinha feito sentir ao longo do dia não abrandou. A temperatura serviu de feição aos G-Combo, que também não deixaram o público abrandar com uma enchente de ritmos marcadamente latinos, rápidos e quentes. Do lado da plateia ninguém repreendeu a banda por os fazer dançar naquela velocidade frenética.

Quem não dançou – na plateia com os lugares assinalados a tinta branca ou nas bancadas ali erguidas para fazer crescer o número de possíveis visitantes daquele novo palco – abrandou o passo, curioso pela actuação do grupo que ali fez muita festa.

Seguiu-se a Charanga, um exemplo perfeito da fusão entre o velho e o novo. Apresentaram-se armados de computadores, beatboxes e sintetizadores, mas não dispensaram o tambor, a gaita-de-foles e outros instrumentos da música tradicional portuguesa. As letras das suas músicas, quase cómicas, esconderam à vista de todos verdades sobre a vida portuguesa. Foi um presente para o público que assistiu.

Tem Pô foi quem encerrou a noite. Acordeão nas teclas, tambores na percussão e flautas e gaitas-de-foles no sopro, foi o que bastou para o público vibrar naquele final de noite. Visitaram o repertório de José Afonso com De não saber o que me espera, beberam das origens portuguesas com temas comummente dançados pelos Pauliteiros de Miranda, interpretaram poemas de Alberto Caieiro e lançaram os tambores ao ar em tantos outros temas explosivos.

Do rock à gaita-de-foles

Projecto Bug fez saltar para o Palco Paz, na tarde de sábado, mais de uma dezena de músicos. Trouxeram à Festa temas familiares com fachadas novas. Mas foi a harmonia entre as várias influências, estilos e pessoas que subiram a palco que agarrou o público. E se alguém na plateia estava de pé atrás, todas as dúvidas desapareceram quando ouviram Katyusha», Laurindinha ou Bella Ciao.

Fast Eddie Nelson entrou em cena no início da noite e trouxe consigo João Alves, dos Peste & Sida, para o baixo. Não há muito que se possa dizer acerca de um espectáculo destes, mas pode-se afirmar que mostrou ser um verdadeiro animal de palco e que deixou bem à vista de todos o porquê de ser um veterano na Festa do Avante!. Ao abandonar o público que lá teria ficado até ao final da noite para ouvir o Rockeiro do Barreiro, Fast Eddie Nelson apelou ao público: «Estejam cá sempre! Estejam sempre cá na Festa!».

A qualidade do que se ouviu no Palco Paz não diminuiu com a programação que se seguiu. Jhon Douglas & JungleBoys surpreenderam o público com uma viagem inesperada. Guiados pelo vocalista natural do estado da Rondônia, Brasil, viajou-se directamente até à Amazónia, pelo funk, pelo samba, por uma mistura de ritmos açambarcantes e fluídos.

Se a noite tivesse ali terminado, os visitantes da Festa teriam ido satisfeitos para casa. Mas não foi apenas um bom final de noite, foi um final de noite ainda melhor com o que se seguiu. Com destaque para a música portuguesa, os Velha Gaiteira subiram ao palco. Três membros foi o que bastou para fazer toda a gente dançar ao som dos bombos e das gaitas-de-foles.

No domingo, terminado o comício, o Palco Paz voltou a receber público. Desta vez o destino da viagem foi a Guiné-Bissau. Os Djumbai Djass apresentaram os ritmos intensos, mas serenos, do Gumbê que nasceu da fusão de vários ritmos tradicionais da África Ocidental.

Cinco gaitas-de-foles, dois tambores e um bombo encerraram o Palco Paz, desta vez de forma definitiva. Foi o ritmo frenético e contagiante daqueles sons que deixaram os visitantes ali assíduos a quererem mais. Que só virá em 2021.

A Orquestra de Foles «quer deixar este tempo para trás», este tempo de «sarilho», como disseram. Mas da mesma forma que um dos membros do grupo se alegra por sair de casa e todos os dias do ano ver a bandeira comunista hasteada no cimo da Atalaia, também os portugueses poderão ter a certeza, que todos os anos, no primeiro fim-de-semana de Setembro, lá estará a Festa do Avante! de portas abertas e pronta para os receber.



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