• Correia da Fonseca

Aniversários

Um dia destes, a televisão veio lembrar-nos de que ocorria o 50.º aniversário da morte de Salazar que, como se sabe, já não estava «operativo» desde Setembro do ano anterior em consequência de queda atribuída à quebra de uma cadeira de repouso no forte de Monte Estoril. Também neste mês de Julho, diversos canais, se não todos eles, assinalaram o centenário de Amália a 23. Tudo bem, cada qual recorda as datas que mais se lhe impõem, e por isso mesmo se compreende que nesta coluna e neste jornal se recorde que no próximo dia 31 será o centenário de Mário Castrim, nosso camarada, brilhantíssimo jornalista e escritor, falecido em Outubro de 2002 mas que continua presente em muitos de nós pelo que muito nos ensinou. Não deixaremos, naturalmente, de assinalar a passagem desse centenário de um modo mais expressivo do que esta breve referência, mas compreender-se-á que ela quase seria inevitável numa coluna que tenta de algum modo, e decerto toscamente, prosseguir o trabalho de denúncia e esclarecimento que é verdadeiro dever cívico quando perante uma televisão anestesiante quando não intoxicante. Um dia, alguém perguntou ao Mário Castrim porque não moderava ele o tom muitas vezes demolidor dos seus textos de crítica e não optava por uma crítica mais «construtiva», ao que ele respondeu textualmente: «-… se a televisão fosse um erro, eu estava disponível para tentar ajudar uma correcção; mas esta televisão é um crime!» Era então, precisemos, a televisão do fascismo, da PIDE e da guerra colonial, do quotidiano bombardeamento de falsificações e imposturas.

Uma voz a dizer «não!»

O impacto da crítica de televisão do Mário Castrim no «DL» foi tal que houve quem supusesse que isso da crítica de TV era uma espécie de peculiar invenção portuguesa. Não era assim, naturalmente; a crítica de televisão estava então presente na imprensa de outros países, e até aconteceu que em França esteve durante algum tempo a cargo de um Nobel da literatura, François Mauriac. O que sucedeu, sim, é que na concreta situação sociopolítica de Portugal os textos do Mário perante uma televisão servidora do regime, sua cúmplice, eram um quotidiano acto de pública resistência, um exemplo e um estímulo. Por isso esta aliás insuficientíssima referência ao centenário de Castrim é também um acto de gratidão: dia após dia, nas páginas do jornal, era uma voz que dizia «não!» ao regime e às suas múltiplas pressões, que encaminhava os leitores para terrenos de lucidez e por essa via terá tido um efeito verdadeiramente pedagógico no plano da cidadania. De facto, para milhares de leitores era um verdadeiro mestre: descodificava, desmantelava armadilhas, explicava. Nunca teremos tido oportunidade de lhe agradecer tudo quanto nos dava. Tentemos colmatar um pouco essa omissão lembrando-o especialmente no próximo dia 31.




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