• Anabela Fino

O quê?

Centeno sai do Governo. Centeno fica no Governo. Centeno vai para o Banco de Portugal. Centeno não vai para o Banco de Portugal. Centeno de pedra e cal no Eurogrupo. Centeno de saída do Eurogrupo. Centeno em rota da colisão com Costa. Costa reitera confiança em Centeno. Centeno e o PR. Centeno e a Assembleia da República. Centeno a prazo. Centeno...

A avaliar pelo massacre dos últimos dias dir-se-ia que por cá, COVID-19 à parte, tudo se resume a «Centeno ou não Centeno, eis a questão».

A ser assim, é caso para perguntar, parafraseando a famosa canção de Dorival Caymmi:

O que é que o Centeno tem? Não será nenhum dos atributos da baiana – logo ele, tantas vezes apontado como uma espécie de Calimero –, mas alguma coisa terá para assim atrair críticas, elogios, louvores, censuras, com mais eficácia do que papa moscas. Tem uma agenda própria, diz o agenda-mor do seu pelouro televisivo, semeando suspeitas de jogos de contornos obscuros.

Seja como for, o que os últimos dias evidenciaram com a inenarrável encenação em torno do Novo Banco e do ministro das Finanças é que não há limite para a falta de vergonha, a hipocrisia, o despautério, a manipulação, o obscurantismo. Quando se pensa que já se viu tudo, que já se bateu no fundo e não é possível descer mais baixo, eis que novo capítulo mostra o contrário.

De repente, a propósito dos 850 milhões de euros emprestados ao Fundo de Resolução para meter no Novo Banco, a direita veio verter lágrimas de crocodilo e exsudar indignação, ao mesmo tempo que uma bateria de comentadores, em magnífica manifestação de ignorância e/ou má fé, atirava achas para a fogueira da desinformação. Centeno acertou no alvo ao acusar o PSD de ter «palavras sem vergonha e sem memória», e ao questioná-lo sobre onde é que estava a 3 de Agosto de 2014, data da resolução do BES e da chamada saída limpa da troika.

O que Centeno não disse foi que, em Dezembro de 2015, o governo PS de que fazia parte reiterou o compromisso assumido pelo anterior governo PSD/CDS com Bruxelas relativo ao BES, enfiando o País na camisa de forças em que se encontra.

As implicações da decisão, transferências de verbas incluídas, são do conhecimento de todos. Por quê então esta encenação de «virgens esquecidas», para citar Centeno?

Numa altura em que a sensibilidade social está à flor da pele com a crise provocada pela pandemia, convém passar uma esponja pelo passado, como fazem PSD e CDS, ou fazer de conta como o PS que não havia alternativa à resolução bancária mais «desastrosa jamais feita» como lhe chamou o ministro das Finanças.

Só que havia alternativa: a nacionalização, como o PCP propôs. O quê? O Centeno, fica, sai, gira, roda, vira, virou....




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