- Edição Nº2425  -  21-5-2020

EUA despedem médicos e encerram hospitais

O sistema nacional de Saúde dos EUA, geneticamente injusto e deficitário, encontra-se agora à beira do colapso. Porque este sistema assenta em seguros de saúde privados contratados pelos patrões, os trabalhadores só têm acesso à saúde se estiverem empregados. Desde o início da pandemia, 36 milhões de estado-unidenses ficaram desempregados, um número que a Casa Branca estima que possa atingir os 47 milhões no início de Junho. Por outras palavras, é possível que, a breve trecho, um terço da população dos EUA esteja privada do acesso à saúde.

A perda do acesso à saúde terá um efeito multiplicador sobre a crise sanitária, exponenciando o número de mortes, que à data desta publicação, já alcançam os 91 mil. Contudo, o que empurrará para o precipício todo o sistema de saúde é a sua própria natureza. Em plena pandemia, num momento em que os profissionais de saúde nunca foram tão necessários, o número de médicos e enfermeiros desempregados atingiu o valor mais alto de sempre desde a Grande Depressão. Desde Janeiro, segundo o Bureau of Labor Statistics, o número de postos de trabalho na área da Saúde caiu 8,7 por cento. No total, perderam-se 121 mil postos de trabalho em hospitais (2,3 por cento), 1,2 milhões em clínicas de saúde (15,4 por cento) e 519 000 em clínicas de saúde oral (53,2 por cento).

Tudo porque, segundo as estatísticas do National Income and Product Accounts, durante o primeiro trimestre de 2020, o negócio da saúde humana sofreu prejuízos de 18 por cento, enquanto que o PIB, no mesmo período, caiu apenas 4,8 por cento. Segundo a American Hospital Association, os prejuízos dos hospitais ascendem já a 36 mil milhões de dólares. Quantos mais trabalhadores ficam desempregados, menos seguros de saúde e menos lucros, o que tem levado ao encerramento sistemático das clínicas de saúde e ao colapso financeiro dos hospitais, que também sofreram uma brutal queda no número de cirurgias e consultas não relacionadas com a COVID-19, uma redução que pode chegar aos 40 por cento. Segundo o Becker’s Hospital Review, mais de 256 hospitais já recorreram a despedimentos colectivos e 21 por cento dos médicos perderam rendimentos, em alguns casos de 50 por cento. Paralelamente, a crise do sistema privado de saúde veio aplicar uma pressão insustentável sobre a já débil rede de hospitais e clínicas de saúde sem fins lucrativos, que viram o número de pacientes quadruplicar.

O sistema de saúde dos EUA colapsa porque prestar cuidados de saúde deixou de ser lucrativo. Veja-se o exemplo da COVID-19: segundo um estudo da Kaiser Family Foundation, o tratamento de cada paciente com COVID-19 oscila entre os 20 mil e os 80 mil dólares, caso um ventilador seja necessário. Do ponto de vista do capitalista, não faz sentido cobrir estas despesas num seguro de saúde nem há retorno financeiro possível em salvar essas vidas.



António Santos