• João Ferreira

Previsões (pouco) primaveris

As recentes previsões económicas da primavera, da Comissão Europeia (CE), apontam para uma quebra da atividade económica, em 2020, de 7,7 por cento, em termos médios, na zona euro e de 7,4 por cento na média da UE, em resultado dos impactos da COVID-19.

Mesmo tendo presente a enorme incerteza associada a estas previsões e, bem assim, a folha de serviço da CE, recheada de clamorosas falhas de previsão, mesmo em situações de menor incerteza, há aspectos interessantes a reter.

Os referidos valores médios escondem situações muito diferentes entre os Estados-Membros. Segundo a CE, a queda do PIB em 2020 variará entre países, oscilando entre 4 e 10 por cento. Também a dinâmica da retoma económica, esperada em 2021, variará muito. Ou seja, um primeiro aspecto a reter, nada surpreendente, é que a actual situação, decorrente do surto de COVID-19, irá provavelmente agravar as desigualdades consideráveis existentes entre países na UE.

A CE prevê também um aumento da taxa de desemprego, para 10 por cento na zona euro, para 9 por cento na média da UE.

Tal como no que se refere à queda do PIB, no que se refere ao aumento do desemprego, o impacto negativo nos países que partilham a moeda única, em termos médios, será maior do que naqueles que não fazem parte do euro. Este será outro aspecto a reter, que aliás já se havia verificado na anterior crise. Mais uma vez se demonstra a falácia, difundida por alguns, de que o euro seria «um escudo contra a crise».

O aumento do desemprego, diz a CE, será mais significativo nos países que registam maior precariedade laboral, além de uma maior dependência do turismo. Nenhuma surpresa. Portugal, em consequência, que actualmente tem níveis de desemprego abaixo da média da UE e da zona euro, saltará para níveis superiores à média da UE e da zona euro.

Ainda sem surpresa, prevê-se um aumento da dívida e dos défices públicos, que também diferirá de país para país. Esse aumento, em termos médios, tanto em relação ao défice como em relação à dívida, será maior nos países que estão no euro, em comparação com os que têm moeda própria. Também a falácia que dizia ser o euro sinónimo de contas públicas equilibradas é, assim, desmontada na prática, mais uma vez. No caso de Portugal, prevê-se que o peso da dívida salte para 132 por cento do PIB, anulando toda a trajetória decrescente dos últimos anos e demonstrando o que pode esperar um país da periferia do euro: uma dívida «ioió», tendencialmente alta, que decresce lentamente e dispara rapidamente.

Previsões à parte, a evolução real da situação económica em cada país será determinada, em grande parte, pela estrutura da sua economia e pela capacidade de resposta na retoma da atividade económica; pela forma como as políticas vigentes acentuem ou contrariem dificuldades estruturais de partida; também pela evolução da própria COVID-19, o que exigirá uma reorganização da actividade económica, que salvaguarde a saúde e segurança dos trabalhadores. Reorganização cujos custos o capital não está disposto a (ou em condições de) suportar. Também situações excepcionais como as que vivemos evidenciam e reforçam a necessidade de superação do capitalismo.




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