• Correia da Fonseca

O retrato

Está o país, decerto estaremos todos, em sobressalto, ainda que em maior ou menos grau: como se uma praga tivesse sido disparada de algures sobre o mundo inteiro, a doença e o receio dela percorrem o planeta. O nosso quotidiano está perturbado, parcialmente arruinado, e esse facto é um pouco como se também fosse uma doença ainda que não letal. A televisão traz-nos informações que nos preocupam, que nos assustam, algumas que nos surpreendem, como a de que um hospital inteiro encerrado por ter sido contaminado, «ocupado», pelo agente da doença. Por todo o lado, ainda que em certas zonas mais que noutras, os pais temem pelos filhos, estes temem pelos pais e pelos avós, os amigos temem pelos amigos. Nunca se vivera um pesadelo colectivo assim e a expectativa é de que ele durará meses que serão meses de medo e, pior, de morte. A menos que entretanto aconteça uma espécie de milagre fabricado pelas mãos dos homens, que são muitas vezes os verdadeiros produtores de milagres, e surja um medicamento que destrua o assassino e nos devolva o mundo tal como ele era.

Feio, redondo e mau

Neste quadro, que é um feíssimo quadro, e no âmbito da actividade televisiva, veio acontecendo um relativo pormenor que, sem ser grave, é de um gosto porventura ainda abaixo do discutível: certamente na intenção de complementarem a informação que nos prestam, alguns dos canais portugueses, ou talvez todos eles, decidiram ornamentar alguns dos seus serviços noticiosos com a imagem, em fundo, do vírus assassino que nos está visitando. A julgar por essa imagem, transmitida de modo a ocupar todo o fundo, é redondo, esferoide, rosado, dotado de umas hastes repugnantes, feio de meter medo, e o seu retrato ali é mantido durante toda a informação que se lhe refere ou até durante todo o serviço noticioso. Haverá decerto quem creia que aquela imagem vagamente aterrorizante reforça a qualidade da informação prestada, embora seja certo que a circunstância de a termos olhado não conduz a que possamos reconhecer o assassino na rua se acontecer cruzarmo-nos com ele. Mas haverá também quem pense que a permanência do retrato do vírus durante todo o tempo noticioso era dispensável. Até porque o monstro não merece essa relativa honra. E a nós já bastava a certeza de que ele existe e anda por aí.




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