- Edição Nº2406  -  9-1-2020

Fuga de Peniche foi há 60 anos mas inspira os lutadores de hoje

EVOCAÇÃO «Daqui fugiram, conquistando a liberdade. Sempre para regressar ao posto de combate na organização partidária clandestina. Sempre para dar mais força ao Partido. Sempre para dar mais força à luta», lembrou Jerónimo de Sousa na evocação da Fuga de Peniche, façanha colectiva do PCP e derrota da ditadura fascista que ainda inspira os lutadores.

O Secretário-geral do PCP falava no Auditório Cultural da Câmara Municipal de Peniche, onde ao final da tarde de sábado, 4, se realizou a sessão de encerramento da iniciativa que assinalou os 60 anos da Fuga de Peniche (ver página 6). A evocação da façanha colectiva do PCP, que a 3 de Janeiro de 1960 devolveu à liberdade dez dirigentes e quadros comunistas, entre os quais Álvaro Cunhal, começou, porém, um par de horas antes, na Fortaleza de Peniche.

A partir da três da tarde e durante cerca de hora e meia, cerca de três centenas de pessoas tiveram a oportunidade de percorrer os pontos principais da fuga, ficar a saber pormenores sobre a sua demorada e complexa organização, bem como episódios e peripécias que sempre ocorrem em situações limite, porque, como frisou na ocasião Domingos Abrantes, uma evasão sabe-se como começa mas nunca se sabe como acaba, comportando sempre riscos.

A orientação do Partido para os seus militantes era no entanto muito clara: a par do comportamento irrepreensível perante a polícia política e durante a reclusão, no cárcere a luta organizada e consequente prossegue e dela faz parte o apuramento constante de oportunidades para escapar, para regressar ao combate junto do povo.

Domingos Abrantes e Adelino Pereira da Silva, foram os cicerones da visita guiada. Ambos são experimentados neste género de iniciativa e as visitas têm-se multiplicado nos últimos meses, já que desde 25 de Abril de 2019 ali funciona a primeira fase do Museu Nacional Resistência e Liberdade (MNRL), aspiração antiga dos ex-presos políticos e dos democratas antifascistas portugueses.

De resto, na sessão de encerramento, Jerónimo de Sousa viria a valorizar o MNRL, notando que «num tempo em que forças da extrema-direita e do próprio fascismo tomam posições e crescem na Europa e no mundo», este «será sempre um farol de alerta, um guia no caminho do conhecimento e da verdade e contra a mistificação e obscurantismo, uma permanente presença de reafirmação da importância da luta pela democracia e a liberdade».

«Fuga Rumo à Vitória»

Muitos dos que no passado sábado estiveram na Fortaleza de Peniche para a evocação dos 60 anos da Fuga de Peniche aproveitaram mesmo para percorrer os núcleos museológicos e espaços abertos ao público, tomando contacto com a exposição patente: «Por teu livre pensamento».

Mas o momento era o de assinalar os 60 anos da heróica Fuga de Peniche que resgatou às garras do fascismo português Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Joaquim Gomes, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Pedro Soares, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Rogério de Carvalho e José Carlos. Destes, seis eram então membros do Comité Central. E conjunto, somavam cerca de 80 anos de prisão. Só Álvaro Cunhal acumulava 11 anos de reclusão, oito dos quais em rigorosa incomunicabilidade, e à data da fuga, a PIDE havia já pedido a prorrogação das famigeradas «medidas de segurança» para lhe prolongar a pena.

Da explicação da «Fuga Rumo à Vitória», como justamente lhe chama o Partido e cujo significado mais profundo Jerónimo de Sousa haveria posteriormente de sublinhar, ocuparam-se Domingos Abrantes e Adelino Pereira da Silva. Um e outro ex-presos políticos em Peniche. Além do mais, o primeiro foi transferido para a cadeia que a PIDE geriu entre 1934 e 1974 pouco tempo depois da histórica evasão. O segundo esteve directamente envolvido na preparação e concretização da Fuga de Peniche a partir do exterior.

A visita guiada iniciou-se junto ao Pavilhão C, continuou no seu interior e terminou junto a uma guarita, tendo Domingos Abrantes e Adelino Pereira da Silva detalhado que, antes de mais, Álvaro Cunhal, Jaime Serra e Joaquim Gomes concluíram que escapar daquela célula de alta segurança – onde os presos estavam isolados nas celas e com restrições extremas de comunicação, e na qual a vigilância era feita por guardas prisionais no interior e por GNR no exterior – não era possível sem a cumplicidade de um Guarda.

Joaquim Gomes identificou, assim, um GNR – Jorge Alves, que parecia manifestar maior respeito pelos presos e pelas suas aspirações democráticas. Informou o Partido no exterior e, daí em diante, o contacto com o militar foi estabelecido por Dias Lourenço e Pires Jorge, então membros do Secretariado do CC do PCP.

Foi Jorge Alves, com quem o PCP cumpriu tudo o que ficou acordado a troco da sua colaboração, bem como em relação à sua família, quem passou a Joaquim Gomes, pelas grades da janela da cela, informações, o clorofórmio com que foi neutralizado o Guarda Prisional no corredor e o aparelho médico que lhe foi colocado na boca para que não sufocasse. E foi também Jorge Alves quem, na noite de 3 de Janeiro de 1960, levou, debaixo do seu capote, para iludir as restantes sentinelas, seis dos dez fugitivos: da porta do Pavilhão C para o muro do patamar superior da Fortaleza, donde, através de uma figueira que ali existia, desceram para o segundo patamar. No segundo patamar, correram para a guarita que se situa num dos extremos, junto da qual foi atada uma corda feita de lençóis permitindo descer para o fosso, e, finalmente, correr os últimos metros do cárcere e saltar o muro que confina com a praça da então Vila de Peniche.

Contado assim, resumido, até parece um acontecimento simples e sem sobressaltos. Mas Domingos Abrantes e Adelino Pereira da Silva deixaram claro e deram vários exemplos de que o não foi. A «Fuga Rumo à Vitória» exigiu uma impecável coordenação entre a organização no interior e no exterior, tendo demorado seis meses a preparar.

Era preciso garantir meios financeiros, percursos principais e alternativos temporizados e o mais seguros possível; casas de apoio para levar os fugitivos; viaturas e condutores (três automóveis foram usados para os levar e um quarto foi conduzido pelo actor Rogério Paulo, que cumpriu a missão de parar à frente da Fortaleza horas antes e dar o sinal de que, no exterior, tudo estava pronto). Acresce que a evasão tinha de ser a um domingo, porque a movimentação interna de funcionários da cadeia era menor; entre as 19h00 e as 21h00, quando os presos estavam juntos e se fazia a rendição; de Inverno para que a escuridão fosse aliada, e, ainda, tinha de coincidir com o turno de Jorge Alves no pátio exterior do Pavilhão C, pressupostos que, se aliarmos o facto de a comunicação no interior da prisão e dali com o exterior ser feita clandestinamente, são suficientemente elucidativos da complexidade do processo.

Mais! Como é natural, nem tudo correu como previsto, embora, como sabemos, sem que o sucesso tivesse sido comprometido. A fuga teve de ser antecipada de dia 10 de Janeiro de 1960 para o dia 3. Isto devido a uma alteração nas escalas, levando o GNR Jorge Alves a entender que tudo estava perdido. Dias Lourenço e Pires Jorge lá o convenceram que não. No cárcere, os presos tiveram igualmente de acelerar a distribuição das tarefas: quem faz a corda de lençóis, quem distrai o guarda prisional, quem o imobiliza e quem lhe administra o narcótico, quem fecha as celas dos presos que permaneceriam a fim de que o alarme fosse dado o mais tardiamente possível e para acautelar que estes pudessem invocar ignorância sobre o sucedido.

O mesmo Jorge Alves, durante a ronda com os presos sob o seu capote, só passou os seis primeiros para junto da figueira, tendo os demais sido obrigados a desenrascar-se no caminho entre o Pavilhão C e o muro a partir do qual se alcançava a árvore.

Por outro lado, o referido GNR, acometido pelos nervos e pelo facto de terem escapado mais presos do que aqueles que julgava inicialmente, uma vez na praça da Vila de Peniche, desatou a correr esbaforido e aos gritos de «fui traído, fui traído». Valeu Joaquim Gomes que foi atrás dele e, lembrando-se que nesse dia tinha havido uma partida de futebol na terra, gritava em seguida «fomos traídos pelo árbitro», iludindo os transeuntes. Pese embora seja claro para todos que a descida do muro da Fortaleza através de uma corda de lençóis não passou despercebida. Ninguém contudo lançou o alerta ou denunciou qualquer episódio à posteriori, o que diz muito da têmpera antifascista dos penichenses.

Por fim, importa referir que dois dos dez fugitivos ficaram feridos durante o percurso: Pedro Soares na descida da figueira, Guilherme Carvalho, com gravidade, na descida pela corda de lençóis, obrigando mesmo Carlos Costa a carregá-lo o resto do percurso até aos automóveis, estacionados na praça.

Exemplo a reter

Pelo facto de ser ter tratado de uma evasão colectiva de uma cadeia fascista, ainda para mais de alta segurança; pela minúcia, engenho e audácia que obrigou na sua concretização; pelo envolvimento do Partido no exterior e pela demonstração da sua capacidade de resistência, e, sobretudo, pelas consequências políticas que teve, quer no PCP, quer na luta de massas, quer ainda no abalo da ditadura, a Fuga de Peniche é considerada um dos maiores feitos na história antifascista, não apenas em Portugal mas ao nível mundial.

E por isso continua a inspirar gerações de lutadores, fazendo prova de que o combate de classe faz-se com organização e sejam quais forem as condições impostas, com desassombro, iniciativa e perseverança revolucionárias.

«Extraordinária vitória do nosso Partido»

Depois da visita guiada aos locais mais emblemáticos da Fuga de Peniche, a maioria dos que lá estiveram deslocaram-se ao Auditório do Edifício Cultural da Câmara Municipal, lotando rapidamente o espaço onde decorreu a sessão de encerramento das comemorações dos 60 anos daquele heróico episódio da história do PCP e da resistência antifascista.

Da mesa onde se encontravam Pedro Varão e André Martelo, da Direcção da Organização Regional de Leiria do PCP, Manuela Bernardino, Manuela Pinto Ângelo, Luísa Araújo, José Capucho e Ângelo Alves, dos organismos executivos do Comité Central, saiu Jerónimo de Sousa para usar da palavra. E começou logo por saudar «todos os resistentes, todos os homens, mulheres e jovens que passaram por todas as prisões fascistas: Tarrafal, Angra do Heroísmo, Aljube, Caxias, Prisão da PIDE no Porto, Peniche», bem como os que «não hesitaram em arriscar as suas vidas pela liberdade e a democracia» e «com a sua luta e firme resistência lançaram à terra muitas das sementes que viriam a florir na liberdade conquistada no dia 25 de Abril de 1974».

E todos «são os muitos milhares de homens e mulheres de várias gerações que nas duras condições da luta clandestina ou na luta semi-legal ou legal, nas fábricas e nos campos, nas universidades, nas colectividades, nos sindicatos, nos quartéis, nas ruas e praças deste País, resistiam à ditadura e lutavam pela restauração da liberdade e da democracia», aduziu o Secretário-geral do PCP, que centrando atenções na «extraordinária vitória do nosso Partido, da resistência, do nosso povo sobre o fascismo», que constituiu a fuga de «um dos mais sinistros cárceres do fascismo», não deixou de notar que a maioria dos que estiveram presos em Peniche foram militantes comunistas.

Não para «reivindicar louros e condecorações para os militantes comunistas e para o seu Partido», ressalvou, mas «tão somente para sublinhar que nesse tempo difícil da opressão e da repressão fascistas, nesse tempo em que lutar pela liberdade e pela democracia podia ter como consequência a prisão, a tortura, muitas vezes a morte, os militantes do PCP souberam assumir dignamente a sua condição de comunistas, integrando sempre, durante 48 anos, a primeira fila da luta e da resistência».

Entrega revolucionária

Por outro lado, chamou ainda à atenção Jerónimo de Sousa, no cárcere os comunistas prosseguiram «a luta nas difíceis condições impostas, sabendo que em tais condições só uma elevada resistência moral e uma profunda entrega à luta revolucionária lhes permitiria manter a sua dignidade». E fizeram-no «sempre para regressar ao posto de combate na organização partidária clandestina. Sempre para dar mais força ao Partido. Sempre para dar mais força à luta».

Reforço decisivo

Um outro aspecto que o dirigente comunista não deixou passar em claro foi o facto de a «Fuga Rumo à Vitória» ter assumido, «pelas características de que se revestiu e pelas consequências que viria a ter na vida política nacional e do próprio Partido, uma importância e um significado marcantes».

«Em corolário dela assistimos, desde logo, a um notável reforço do Partido – reforço orgânico, ideológico e de intervenção no seio das massas populares – e a uma viragem na orientação política, rectificando a linha política do Partido corrigindo o desvio de direita que se verificava na sua actuação desde 1956 e, consequentemente, na dinamização da luta que tinha como objectivo primeiro o derrubamento do fascismo».

«Decisivo, nesse sentido, viria a ser o grande debate ideológico que, logo a seguir à fuga, se desenvolveu em todo o Partido e que culminou na reunião do Comité Central de Março de 1961 – que elegeu para Secretário-geral do Partido o camarada Álvaro Cunhal», salientou também Jerónimo de Sousa, que lembrou, além do mais, que foi «na sequência da fuga de Peniche e do intenso e amplo debate ideológico levado a cabo no colectivo partidário» que se construiu «esse histórico VI Congresso no qual foi discutido e aprovado o Programa para a Revolução Democrática e Nacional, que definia o caminho para o derrubamento do fascismo e os objectivos da revolução portuguesa; esse histórico VI Congresso do “Rumo à Vitória” e cujas decisões, inquestionavelmente, criaram as condições para a Revolução de Abril, para essa realização histórica do povo português e um dos mais importantes acontecimentos da História de Portugal».

Inspiração

Ora, a fuga, «pela forma como foi concretizada e pelas consequências que teve», confirma, «nesse tempo longínquo, como nos dias de hoje, a importância decisiva da luta, sejam quais forem as circunstâncias, as dificuldades e os obstáculos existentes». E é «com esta perspectiva e com a mesma confiança de sempre que travamos os combates de hoje».

Entre estes, prosseguiu, estão a luta contra a falsificação da história e do papel dos comunistas e contra a ascensão de forças de extrema-direita e fascizantes, para as quais o Museu Nacional Resistência e Liberdade será sempre um farol de alerta, um guia no caminho do conhecimento e da verdade e contra a mistificação e obscurantismo, uma permanente presença de reafirmação da importância da luta pela democracia e a liberdade».

Contudo, tal «não basta e é preciso agir também noutras dimensões. A par do conhecimento, o combate às forças da extrema-direita e fascizantes tem que passar por impedir que medre o caldo de cultura que as gera - as políticas do capitalismo neoliberal dominante que estimulam as injustiças sociais e as desigualdades, que há muito saqueiam os direitos sociais, promovem a precariedade, o trabalho sem direitos, os salários degradados para centralizar cada vez mais a riqueza nas mãos de uma minoria»; que «fomentam o desrespeito por sentimentos e soberanias nacionais para garantirem um poder sem limites às multinacionais», alertou o Secretário-geral do PCP, antes de apelar a que «tal como nesse dia glorioso saíram daqui esses valorosos combatentes para se entregarem à luta pela libertação do seu povo, saiamos hoje de Peniche com a mesma força, a mesma convicção, a mesma determinação que os animava».