• Fausto Neves

A Valsa, quando surgiu, abalou os valores constituídos
Velho(?) Concerto de Novo(?) Ano…

Assim como a burguesia já foi revolucionária ao tomar o poder às oligarquias nobres e eclesiásticas, também a Valsa, quando surgiu, abalou os valores constituídos, aproximando e enlaçando pares pela primeira vez na história da dança, elevando-os na volúpia de cada volteio, embriagando-os nos círculos coreografados com cumplicidade e perfeição técnicas.

Ciosa da sua Revolução Francesa, da sua Revolução Industrial e dos seus impérios, a burguesia entrou no século onde nasceu a sociedade alternativa que a iria depor a… dançar a Valsa: estávamos no dealbar do século XX e a Revolução de Outubro de 1917 rasgava a primeira sociedade socialista, pondo no poder o proletariado, armado pela sua organização de classe.

A Valsa continuava os seus rodopios que se imploravam eternos, embora se suspeitassem efémeros. Sobressalto reprimido à denúncia expressionista segundo a qual «a Europa dançava sobre um barril de pólvora»…

Os avisos iam-se sucedendo, também na música: as valsas imperiais da família Strauss foram caricaturadas por Ravel (Valsas Nobres e Sentimentais e A Valsa), adquirindo pulsões freudianas de obsessão e desespero; ou por Mahler (Scherzo da sua 1.ª Sinfonia, p. ex.), fixando-se no seu esqueleto e substituindo o seu músculo jovem por um vazio nostálgico…

A Valsa foi abalada por duas guerras – original e dolorosamente apelidadas de mundiais, que dividiram grupos de pares dançantes em coreografias de oposição – e pela citada Revolução Socialista – que mostrou ao Mundo outra forma de dançar…

O hábito de festejar a entrada do Novo Ano é milenar, anterior mesmo ao calendário formal. Vem do tempo em que o Homem celebrava o solstício de Inverno, a vitória da Vida sobre a Morte, a constatação da naturalidade da segunda, imprescindível à primeira.

Formalizando-se calendários, estilizaram-se coreografias que se adaptaram aos senhores das épocas, classes progressivamente mais amplas que se foram substituindo na histórica e sempiterna luta de classes.

Viena e a sua Valsa mantêm o afamado concerto de Ano Novo que, depois da Segunda Guerra, se alicerçou mediática e financeiramente. Na sala dourada do Musikverein, os sorteados milionários que exultam a cada ano por poder pagar fortunas por um lugar do aclamado concerto, escutam, com as motivações que o preço pago pelo bilhete lhes confere, um maestro de topo mundial, à frente da soberba Orquestra Filarmónica de Viena, num programa que gira inflexivelmente em torno das mil valsas straussianas, com algumas polkas ou marchas à mistura, ou de autores de operetas mais ou menos conhecidas. A concluir, ditado pelo horror burguês à insegurança do desconhecido, a estafada Marcha Radetzky, acompanhada de palmas pacientemente disciplinadas pelo maestro, quando a pressa para o almoço festivo emerge.

Não longe do Musikverein, em frente à majestática Ópera de Viena, um ecrã gigante, de excelente reprodução sonora e melhor imagem classista, transmite o concerto para os transeuntes vienenses e de mil outras paragens, que, num ambiente livre de smokings, gravatas, «rabonas» e casacos de pele, arriscam sadios passos de dança no passeio, aquecendo corpos e mentes, às baixas temperaturas habituais.

Continuando a descida hierárquica de classes, chegamos às casas de todo o Mundo, onde as transmissões televisivas do Concerto do Novo Ano erguem pijamas ressacados, aliviam irritações gástricas de exageros gastronómicos, alertam narizes ritmados em ternário para o cheirinho do assado iminente.

Chegando a todas as classes, ninguém recusa à Valsa a irresistível dinâmica de movimento, o volteio ousado, a bela cumplicidade técnica e emocional do par. Libertemos, pois, a Valsa – no início, meio ou fim do ano – das garras alienadoras da burguesia!

«Desculpe-me: dá-me a honra desta valsa?»




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