Os presos comunistas fugiam para voltarem à luta no exterior
A imensa coragem num salto para a luta

EVOCAÇÃO Na madrugada de 17 para 18 de Dezembro de 1954 o dirigente comunista António Dias Lourenço protagonizou uma audaciosa fuga da prisão do Forte de Peniche, que só não lhe custou a vida graças à sua inabalável determinação. No dia 4 de Janeiro, o PCP comemora ali os 60 anos de outra extraordinária fuga, que devolveu à liberdade e à luta Álvaro Cunhal e outros nove destacados militantes do Partido.

«Nunca foi a sede de liberdade que motivou a questão das fugas. O que motivou o sentimento de evasão foi sempre a necessidade de voltar a ingressar no combate que cá fora se travava. Era a ideia de que cá fora somos mais úteis. Porque lutar, organizar, fazer tudo o que é humanamente possível a um indivíduo, era cá fora. Portanto, fugir significava reingressar no combate contra o fascismo.»

A citação é do próprio António Dias Lourenço, que assim explicou a um estudante universitário, na década de 90 do século XX, o que motivou a sua corajosa fuga de há 65 anos, e foi dada a conhecer por Manuela Bernardino, da Comissão Central de Controlo do PCP, na sessão evocativa realizada recentemente no Centro de Trabalho de Peniche. Tanto nas palavras proferidas nessa noite pela dirigente comunista como no filme de Luís Filipe Rocha, A Fuga, exibido na ocasião, ficaram evidentes a audácia, a coragem e a criatividade necessárias à concretização da fuga, após a qual António Dias Lourenço retomaria o seu posto na luta antifascista (ver caixa).

Na sessão, Manuela Bernardino considerou a fuga de Dezembro de 1954 uma «verdadeira odisseia», opinião que deverá ser partilhada pelo realizador Luís Filipe Rocha, que se inspirou nela para a primeira longa-metragem da carreira (significativamente dedicada a todos os antifascistas presos e torturados pela PIDE). Como em todas, houve que estudar as possibilidades existentes e elaborar um plano. Pelo meio, era ainda preciso iludir a vigilância constante dos carcereiros, reunir (e esconder) o material necessário e aproveitar a mínima oportunidade para pôr o plano em prática.

E que plano era esse? No caso, um particularmente arriscado, que passava por saltar para o mar e nadar até à praia. Em Dezembro. No mar revolto de Peniche.

Audácia e coragem

Na prisão do Forte de Peniche eram frequentes os castigos aos presos, forçados regularmente a permanecer longos períodos no «Segredo», cubículo sem luz instalado junto à muralha. Foi durante uma dessas punições disciplinares que António Dias Lourenço começou a cortar um postigo da porta do «Segredo» com uma faca de sapateiro que conseguiu levar consigo, apesar de, antes, ter sido despido e a sua roupa minuciosamente revistada. Os cortes na porta foram de tal forma disfarçados que os guardas não se aperceberam deles nas vistorias que diariamente realizavam.

Os 15 dias de castigo, todavia, não foram suficientes para terminar a tarefa e a fuga teve de ser adiada. Mas a cela estava preparada para a execução do plano e qualquer outro preso que fosse castigado a seguir poderia aproveitar o estado adiantado da desmontagem do postigo, terminá-la e evadir-se.

Porém, foi o próprio António Dias Lourenço a voltar ao «Segredo», depois de ter sido apanhado por um guarda a escrever uma mensagem numa mortalha – que rapidamente engoliu para que não fosse lida. Na noite de 17 de Dezembro de 1954, concluiu o corte do postigo, fez uma corda com cobertores e saiu para o exterior com a trouxa de roupa à cabeça.

O primeiro percalço deu-se na descida para o mar: a corda era demasiado curta e teve de se deixar cair para o oceano, perdendo a roupa e as botas. Mas este era só o primeiro problema, e o menos sério. Ao contrário do que calculara, a maré estava a vazar, empurrando-o para longe da costa. Durante mais de uma hora lutou com o mar gelado e agitado. Quando finalmente chegou a terra, bem mais longe do que tinha planeado, estava exausto e em hipotermia acentuada.

Para a fuga ser bem sucedida, havia que sair de Peniche o quanto antes, pois mais cedo do que tarde dariam pela sua falta na célula disciplinar. Conseguiu graças à solidariedade dos trabalhadores de uma carrinha de peixe, que aceitaram escondê-lo e levá-lo ao Bombarral. Perante a desconfiança inicial dos trabalhadores, motivada pelo seu aspecto – molhado, meio despido e com a barba por fazer –, Dias Lourenço quebrou-a confessando-lhes quem era e o que acabara de fazer.

Na saudação que dirigiu ao Comité Central após a fuga, o dirigente comunista lembrou os «honrados e anónimos filhos do povo» que o ajudaram a escapar e a retomar as fileiras da luta clandestina contra o fascismo. Nunca soube quem eram, mas nunca os esqueceu: tiveram também o seu papel na conquista da liberdade.

Um dos imprescindíveis

Quando António Dias Lourenço se evadiu da prisão do Forte de Peniche, em Dezembro de 1954, estava preso há cinco anos e era já um destacado dirigente do PCP. No momento da sua captura, acompanhava e dirigia a luta dos operários agrícolas do Alentejo contra o desemprego, a miséria e a exploração.

Antes, fora responsável pela região de Lisboa, onde substituíra Alfredo Dinis «Alex» (assassinado pela PIDE em 1945), e assumira outras importantes tarefas: na reorganização do Partido de 1940/41; na direcção das greves de 8 e 9 de Maio de 1944 e, três anos depois, na paralisação dos operários da construção naval; no Conselho Nacional do MUNAF, em representação do Partido. Era ainda muito jovem quando, nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico/OGMA, onde trabalhou, e nas colectividades de Vila Franca de Xira desenvolveu ampla actividade política, sindical e cultural. Foi um dos organizadores dos célebres Passeios no Tejo, que reuniam importantes intelectuais neo-realistas e operários, e colaborou com diversos jornais progressistas.

Após a fuga, desempenha novas tarefas: integra a Comissão Política em 1956 e o Secretariado no ano seguinte, quando assume a responsabilidade pelo Avante!, que mantém até 1962, quando é novamente preso. Acompanhava, nesse momento, as grandiosas manifestações do 1.º de Maio e a luta pelas oito horas nos campos do Sul. Entretanto, teve ainda um papel destacado, a partir do exterior, na fuga colectiva de Peniche de 3 de Janeiro de 1960 (ver caixa).

Libertado pelo 25 de Abril – passou 17 anos na prisão! –, António Dias Lourenço foi nas décadas seguintes um destacado dirigente do PCP: foi director do Avante! entre 1974 e 1991, eleito deputado diversas vezes e, até ao fim da sua vida, em 2010, um empenhado divulgador do que foi o fascismo e a resistência. Era, como um dia escreveu Brecht, um dos imprescindíveis, que lutou toda a vida pela liberdade, a democracia e o socialismo.

4 de Janeiro de 2020 em Peniche - 60 anos da fuga rumo à vitória

No próximo dia 4 o PCP evoca em Peniche o 60.º aniversário da fuga de dez destacados dirigentes e militantes comunistas da prisão política instalada na Fortaleza daquela localidade: às 15h00 há uma visita guiada aos locais fulcrais da fuga e às 17h30, no Auditório do Edifício Cultural de Peniche, Jerónimo de Sousa intervém numa sessão evocativa.

Esta foi uma das mais espectaculares evasões de toda a história da resistência antifascista e, porventura, a mais importante, desde logo pelo numeroso grupo de destacados dirigentes e quadros do Partido que devolveu à luta: Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Joaquim Gomes, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Pedro Soares, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Rogério de Carvalho e José Carlos. Para o êxito de tal epopeia, foi necessário um cuidado planeamento, um rigoroso secretismo, uma férrea disciplina e uma ampla coordenação entre os presos e a direcção do Partido no exterior. Para além, é claro, da coragem e audácia dos participantes.

Das peripécias e episódios que rodearam esta fuga falaremos na edição de 9 de Janeiro, na reportagem sobre a evocação. Hoje, recordamos «apenas», e em traços muito gerais, os efeitos que teve na luta contra o fascismo: a correcção do «desvio de direita», o reforço orgânico do Partido e a correcção da sua linha política – retomando e desenvolvendo a via do levantamento nacional para o derrube do fascismo – tiveram efeitos consideráveis no desenvolvimento da unidade e da luta antifascista. O grandioso 1.º de Maio de 1962 e a conquista da jornada de oito horas pelo proletariado rural do Alentejo e Baixo Ribatejo foram resultados visíveis disto mesmo.

Por tudo isto, e muito mais, é justamente considerada uma «fuga rumo à vitória», precisamente o lema da evocação.

 



 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: