• Vasco Cardoso

Os donos do palco

«Joacine e o assessor voltaram a ocupar o centro do palco». Foi assim que o Diário de Notícias fez a sua manchete no passado dia 28 de Novembro. Uma opção não muito diferente das escolhas que têm sido feitas pelos restantes órgãos de comunicação social nas últimas semanas, transformando cada suspiro do Livre em assunto de interesse nacional.

Mas se por um lado se dá guarida e projecção ao que de mais superficial existe, não se pode iludir também que o «centro do palco» é, também ele, cada vez mais ocupado por forças, valores e concepções reaccionárias. Com os seus protagonistas, ditos anti-sistema, a ocuparem paulatinamente o espaço do debate e comentário político, instrumentalizando o justo descontentamento existente, destilando demagogia e a serem naturalizados como se de uns «democratas» se tratasse.

Ao mesmo tempo, o silenciamento, a deturpação, a manipulação das posições daqueles que, como o PCP, se batem por uma efectiva ruptura com os mecanismos de exploração e com os interesses do grande capital. E mesmo que muitas das propostas e posicionamentos de diferentes forças políticas até sejam convergentes em diversas matérias, assumindo um sentido crítico face à situação, o capital faz sempre as suas escolhas, como foi e tem sido patente no acarinhamento mediático ao BE em contraste com a hostilização ao PCP.

Não pode haver espaço para qualquer tipo de ingenuidade nesta matéria. O problema não está nem na eficácia da mensagem nem nos pergaminhos dos mensageiros. Não são as «Joacines» deste mundo que decidem se entram ou não em cena, por muito boa conta que tenham de si próprias («Eu sou o desconforto»!!!). A «eficácia da mensagem» é, na verdade, um mito que visa legitimar a ideia da neutralidade dos órgãos de informação e caucionar todo o tipo de manipulações.

É assim em Portugal. É assim no mundo (veja-se como o recente golpe de estado da Bolívia foi tratado). Na verdade, não foi a nova deputada que se colocou no centro do palco, foram os donos do palco. Foram aqueles que, a cada momento, julgam poder decidir quem entra e sai de cena.




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