Há uma sub-orçamentação na saúde que é prejudicial aos serviços
Jerónimo de Sousa no debate quinzenal com o primeiro-ministro
PCP avisa que arrastar a solução dos problemas é pôr o SNS em sério risco

DIREITOS Jerónimo de Sousa instou o primeiro-ministro a não se ficar por «declarações de boas intenções» e alertou para os perigos de não agir a tempo para resolver os problemas na saúde.

«Quanto tempo mais vamos esperar para garantir os profissionais necessários ao funcionamento do Serviço Nacional de Saúde?», questionou o Secretário-geral do PCP, ao intervir dia 27 no debate quinzenal com o chefe do Governo, a quem avisou que «há problemas que não podem ser adiados por mais tempo», e que a «melhor forma de acabar com o SNS é arrastar a solução dos problemas».

O líder comunista não escondeu a sua preocupação por aquilo que considerou ser a «diabolização do SNS» a que se «assiste diariamente», veiculada pelos «detentores dos grupos privados interessados sobretudo na drenagem de milhares de milhões de euros para sustentarem o seu crescimento», mas também por aqueles que, «alegadamente preocupados com as insuficiências do serviço público, nunca aceitaram a criação do SNS contra os interesses instalados na saúde».

«E o que faz o Governo? Bloqueia administrativamente o recrutamento de novos profissionais e desvaloriza profissional e salarialmente os que estão», verberou, apontando ainda como traços negativos o facto de não serem garantidas «condições de trabalho adequadas nas unidades do SNS», de persistir uma sub-orçamentação que é prejudicial aos serviços, «nomeadamente na aquisição de novos equipamentos», e uma prática de «fecho e concentração de serviços» que «dificulta cada vez mais o acesso aos cuidados de saúde».

O caso da Pediatria no Garcia de Orta é, na óptica de Jerónimo de Sousa, um exemplo disso mesmo. «Ao contrário das soluções que se impõem, que é criar as condições para que os médicos não saiam para os privados, a opção parece ser a da fuga para a frente, optando pela concentração», lamentou, antes de alertar para os riscos que advêm de uma tal decisão.

«Segundo informações que nos chegaram estará a ser estudada a possibilidade de juntar em Almada os pediatras dos hospitais da Península de Setúbal», revelou o Secretário-geral comunista, que se mostrou convicto de que isso criaria um «problema ainda maior às famílias dos concelhos mais distantes de Almada».

Fugir à questão

«Há hoje mais 15 mil profissionais de saúde do que há quatro anos», voltou a ouvir-se da boca do primeiro-ministro, repetindo a informação que tem servido de «muleta» sempre que é confrontado com os problemas que dificultam o acesso aos cuidados de saúde ou que atingem os profissionais deste sector.

Admitiu, ainda assim, que os profissionais «são insuficientes», explicando ser essa a razão pela qual «está aberto concurso para médicos especialistas» e que haverá um outro para «aumentar o número de formadores» de molde a que a «Ordem dos Médicos possa alargar também o reconhecimento da idoneidade das capacidades de formação de especialistas, para poder tê-los onde faltam».

António Costa referiu, por outro lado, que não se pode «olhar para o SNS» e «querer fazer mais do mesmo». «Temos de fazer também diferente, para poder servir melhor», declarou. E dando o exemplo das urgências, recusou a ideia de que se trate de «concentrar». Só que não deu uma explicação convincente para demonstrar que assim não é. «A decisão não foi simplesmente encerrar no período nocturno as urgências pediátricas no Hospital Garcia de Orta, foi alargar até à meia-noite o período de atendimento permanente dos cuidados de saúde primários em Almada e Seixal», limitou-se a dizer.

Na réplica, Jerónimo de Sousa afirmou não ter vislumbrado nas palavras do primeiro-ministro uma «resposta concreta» à «questão concreta» que lhe colocara relativa a um «problema concreto»: o de saber se vai ou não haver «concentração de serviços de saúde».

No dia seguinte, quinta-feira, 28, em debate temático sobre a saúde na AR, a mesma questão voltou a ser colocada pela bancada comunista, agora pela voz da deputada Paula Santos. Desta feita foi a ministra da Saúde a esquivar-se ao esclarecimento da matéria.



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