• Filipe Diniz

Outro Novembro

Outro Novembro é, por exemplo, o de 1919. A intervenção da Grã-Bretanha na Guerra Civil da Rússia ao lado dos «russos brancos» mobilizara uma frota para o Mar Báltico. Tinha por objectivo apoiar os independentistas estónios e letónios e a tomada de Petrogrado pelos contra-revolucionários, objectivo que para estes era central. Traiu os primeiros e falhou no apoio aos segundos.

O envio dessa frota desencadeou revoltas das tripulações tanto nos portos de embarque como no Báltico. A história contada em inglês disfarça a coisa: «estavam fartos de guerra, mal alimentados e alojados, não tinham tido tempo de licença», mas haveria também «efeitos da propaganda bolchevique» nessa atitude.

O certo é que o fracasso da intervenção imperialista na guerra civil – tal como fracasso do bloqueio económico desencadeado após a revolução – é também resultado do descrédito da classe dominante nos países agressores, do enorme prestígio conquistado pela Revolução Bolchevique, da esperança mundial que suscitou, da confiança dos «de baixo» em que, com ela, tinham passado a ter uma palavra a dizer sobre «tudo o que lhes dissesse respeito».

Em intervenções da altura, Lénine refere que o maior êxito soviético nesses curtos anos é a conquista da paz, e esta não resulta apenas da vitória do Exército Vermelho. A agressão militar fora então o único instrumento possível do imperialismo. O «poder soviético venceu – no sentido de que a simpatia das massas trabalhadoras foi já conquistada por toda a parte». Era apenas um começo.

Vários dos marinheiros amotinados foram presos e condenados a trabalhos forçados. Fazem parte dos vencedores, não dos derrotados. Há muitos novembros, e muito caminho a andar.




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