• António Santos

O palácio e os palacianos

O processo de destituição do presidente Trump, alavancado na semana passada pelo Partido Democrata na Câmara dos Representantes com o início de um inquérito formal, é o último sintoma do recrudescimento das contradições internas de que padece o grande capital dos EUA. Não está em causa a política de Trump contra a classe trabalhadora mas apenas a efígie da «segurança nacional». O inquérito com vista à destituição, anunciou a chefe dos democratas na Câmara Baixa, Nanci Pelosi, correrá sobretudo nos corredores do Comité de Serviços Secretos, e não no Comité Judiciário, como todos os anteriores inquéritos de impeachment. Estamos perante uma guerra entre dois campos concorrentes da grande burguesia apoderada de diferentes esferas do aparelho do Estado: os republicanos controlam o poder executivo, mas os democratas controlam os serviços secretos.

A justificação do inquérito agora em curso é a denúncia, por um denunciante anónimo da CIA, do pedido feito por Trump ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, para que este investigasse Joe Biden, adversário democrata nas eleições do próximo ano. Na verdade, outros inquéritos semelhantes já corriam em seis outros comités da Câmara dos Representantes, pelo que o caso Zelensky é apenas uma formalização do início do processo de destituição.

A reacção de Trump superou a fúria que caracteriza a sua conta de Twitter, prometendo mesmo uma «guerra civil de que este país nunca mais recuperará» no caso de ser «removido». Esse é, no entanto, um cenário altamente improvável: Trump criará todos os entraves possíveis ao desenrolar do inquérito que se poderá arrastar para além das eleições de 2020 e, mesmo que terminasse antes dessa data e o presidente fosse destituído pela Câmara Baixa controlada pelos democratas, ainda teria de ser «removido» pelo Senado, algo que só seria possível com a traição de muitos republicanos alinhados com Trump. E, mesmo que fosse removido a tempo das eleições de 2020, o ceptro passaria para o seu vice, o proto-fascista evangélico Mike Pence. E Trump, em princípio, poderia candidatar-se mesmo depois de ser removido.

O processo de destituição é, sobretudo, um golpe mediático para as eleições de 2020 que permite aos democratas centrar a discussão política em torno de aspectos formais, legais e morais da administração Trump, desviando as atenções das suas propostas reais, tantas vezes semelhantes. A promessa de Trump, de desencadear uma segunda guerra civil, até pode ser verdadeira, como não serão falsas as razões dos democratas para dar um golpe palaciano. A questão é que num golpe palaciano todos querem deixar o palácio intacto.




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