A cortiça tem hoje múltiplas aplicações em várias áreas
Cortiça, do montado ao Cosmos é mote de exposição no Espaço Central da Festa

PRODUÇÃO A Festa do Avante!, que todos os anos destaca o melhor que o País tem, propõe para a edição de 2019 uma exposição sobre a cortiça, esse produto tão português, multifacetado, ecológico e sustentável.

Porque se organiza no Espaço Central da Festa do Avante! de 2019 uma exposição sobre a Cortiça, que pretende mostrar o sobreiro, o montado, a casca tirada de nove em nove anos ao sobreiro, a cortiça e a sua transformação industrial e comercial? E dar a conhecer os produtos da cortiça, dos mais tradicionais aos mais inovadores e tecnológicos? E valorizar os trabalhadores que, ao longo dos séculos, trabalharam os campos e os montados, especialmente os tiradores da cortiça e os operários industriais, desde sempre dos mais activos e dinâmicos a lutar por uma vida e um mundo melhores? Ora, porque o PCP valoriza a produção nacional e o trabalho dos portugueses.

Um produto, inúmeras valências

Por mais que os governantes nunca tenham defendido e valorizado devidamente os montados e a produção de cortiça, Portugal tem a maior área de montado de sobro do mundo, mais de 720 mil hectares, o que corresponde a cerca de 35 por cento do total mundial. Além disso, é o primeiro produtor (com mais de 100 mil toneladas por ano) e transformador mundial de cortiça. As exportações contribuíram com cerca de mil milhões de euros para a balança comercial e o sector emprega milhares de trabalhadores, nos montados como na indústria.

A cortiça é um produto natural de características únicas: flutuante, vedante, isolante, leve, inodoro, de grande durabilidade e elasticidade, reciclável e amigo do ambiente. É, por isso, capaz de múltiplas aplicações e usos que vão da mais comum – e conhecida – rolhagem dos melhores vinhos, passando pelos aglomerados, utensílios, acessórios e mobiliário tradicionais e modernos (tarros, cocharros, colmeias, bancos, carteiras, sapatos, ténis, cintos, vestidos chapéus, revestimentos de chão e paredes, punhos de facas para noruegueses e canas de pesca para todo o mundo) até aos inovadores designs de mobiliário, pranchas e caiaques de campeões e isolantes de naves espaciais que percorrem o Cosmos. Mais recentemente, a investigação avança no uso das células da cortiça para o combate ao cancro.

O sobreiro e o montado, típicos da área do Mediterrâneo Ocidental, protegem o território dos efeitos dos ventos, das secas, dos calores e da erosão das chuvas, para além de sequestrar o carbono. São ainda sustento da biodiversidade, ao constituírem habitatde uma flora e fauna muito ricas e diversificadas.

Os grandes montados de sobreiros situam-se no Alentejo, Algarve e Ribatejo, mas encontram-se sobreiros e montados por todo o território continental, em especial Trás-os-Montes. Em Águas de Moura, concelho de Palmela, está o Assobiador, ou Casamenteiro, um exemplar excepcional com 235 anos, classificado como Árvore Europeia de 2018.

Na vanguarda da luta
Na mostra serão valorizados os trabalhadores da cortiça – os trabalhadores agrícolas, que tratam da terra, dos animais e dos montados; os tiradores de cortiça, profissão sazonal dura e difícil praticada há séculos com arte, saber, mestria e respeito, muito respeito, pela árvore; e os operários corticeiros, que escolhem, preparam e transformam a cortiça em produtos semi-acabados e acabados –, que são quem sustenta uma indústria que foi migrando de Sul para Norte: de Silves, São Brás de Alportel, Sines, Grândola, Seixal, Cova da Piedade, Barreiro, Moita, Montijo, Vendas Novas e Portalegre para Santa Maria de Lamas, Vila da Feira.

O PCP orgulha-se de ter uma relação história com os trabalhadores deste sector, sejam agrícolas ou tiradores, que tiveram um destacado papel em diversas lutas no tempo da ditadura, em particular nas greves de 1962 pela jornada de oito horas no campos. Quanto aos operários industriais, foram um destacamento de vanguarda nas lutas da Primeira República e, depois, resistiram ao fascismo: nas greves de 1932; na greve geral de 1934, contra a fascisação dos sindicatos; em 1940, 1942, 1946, 1961 e 1962, enfrentando a pior repressão fascista e a própria morte, como aconteceu a Cândido Capilé, numa manifestação nas ruas de Almada em finais de 1961.

Após a Revolução de Abril, os corticeiros continuaram na primeira linha do combate pelo avanço das conquistas e em sua defesa, pelos postos de trabalho, direitos e salários.

Defender e valorizar a cortiça e os corticeiros
A exposição refletirá, portanto, toda esta imensa e rica história, mas também o trabalho dos tempos presentes, com crescentes avanços científicos e técnicos que não só são capazes de resolver problemas ancestrais que afectaram e desvalorizaram a cortiça como projectam mais aplicações criativas e inovadoras da cortiça, que permitem antever um futuro de reconhecimento e valorização deste produto tradicional português.

A componente política da questão também estará presente. Será lembrado, designadamente, que o PCP sempre organizou e dirigiu a luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho e de vida – incluindo dos corticeiros – e apresentou inúmeras propostas na Assembleia da República e no Parlamento Europeu em defesa do sobreiro, dos montados e da valorização da cortiça.

 



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