• Manuel Pires da Rocha

Intervieram sempre as canções nas tarefas de transformar o mundo
Do trabalho e do cantar

CULTURA Na ordem de sucessão dos acontecimentos naturais – diz quem sabe – tudo se transforma há muitos milhões de anos sem que de outra mão, que não a da Natureza, tenha havido precisão. Bichos e vegetais foram-se sujeitando aos humores do clima e às farturas e escassezes que lhes fossem calhando, adaptando-se uns, sumindo-se outros, porque «vontade» é qualidade de que não foram dotados. Já aos humanos, não sendo velozes como os felinos nem agarrados ao chão como as árvores, permitiu-se-lhes serem capazes de inventar securas em dia de temporal e regos de levar a água à terra quando ela racha de tanta sede.

A transformação da realidade deixou, portanto, de ser incumbência dos deuses, roubada que lhes foi a exclusividade na produção da luz e das trevas, descoberto que foi o milagre de tirar o pão da espiga e a espiga da semente. A cada qual os seus pelouros, o que nos deuses se diz ser milagre, nos humanos é produto do Trabalho. Nuns e noutros é de transformação que se trata, diferentes apenas os nomes do mecanismo.

Podiam os humanos ter-se ficado pela produção do fogo na sua serventia de luz e de repasto; e podiam ter-se bastado à fixação do animal na perspetiva do caçador. Mas não. Acharam naquelas funções mais utilidade do que a evidente, e puseram-se a representá-las desta e daquela maneira, trabalhando também, mas para acudir a novas e entusiasmantes necessidades. Combinaram pigmentos, juntaram sons, transformaram volumes e, porque hão-de ter gostado do resultado, nunca mais prescindiram daquelas artes de representar a vida.

Talvez por essa razão, a Arte seja, dos traços duradouros, um dos mais constantes na vida da Humanidade. Constante também nas lutas todas da História, sobretudo a Música que é, das Artes, a que se transporta com superior facilidade e inegável emoção, aliada segura das palavras quando elas ali fazem falta.

O canto de trabalho, o cantar o Trabalho

A música mais antiga, a primordial, não há-de ter sido a composta, mas antes a percebida: o silvo do vento, a pulsação do gotejar, o canto das aves consoante a natural intenção (o de acasalar diverso do de alertar). Talvez depois tenha havido imitação e até mistura dos muitos elementos da banda sonora natural, quando se percebeu que as mãos e a voz eram, afinal, os precursores dos sintetizadores de circuito integrado.

Os primitivos instrumentos musicais, esses sim, eram já produto do Trabalho – no corte da madeira, na curtição da pele, no dimensionamento do tubo oco, tudo extensões da voz humana, tudo mediadores da sua urgência em comunicar entre si e com os ouvidos (e os favores) da Natureza e seus divinos intermediários. Não tardaria a chegar – coisa de uns milhares de anos, apenas – o canto de trabalho, como aquele que acerta a queda da enxada, que Michel Giacometti registou em Tavarede, ou o que desloca o penedo na Cantilena na Pedra, que também o etnomusicólogo gravou na Póvoa do Lanhoso.

No momento em que o canto musical é também instrumento de trabalho, parceiro na labuta pelo melhor-viver, é sozinho sendo pouca a encomenda, é coletivo quando um só par de braços não basta para os devidos encargos. Há-de ter sido nos lugares de trabalhar que as palavras se hão-de ter juntado aos trauteares, revelando vontades (como no Llaço do Ofícios: «Quero d’aprender un ofício / que me mantenga senhor / barbeiro ferreirico / alfaiate ferrador») e desilusões («Fui um ano à vindima / pagaram-me a trinta réis / dei um vintém ao barqueiro / ai, fui pra casa com dez réis»).

Não se sabe em que altura é que o canto prazeiroso passou a ser «de intervenção», mas o processo há-de ter levado o seu tempo, sendo sabido que os breves momentos da História – sabe-o bem quem luta – duram sempre o tempo de vida de uma mão cheia de gerações.

Quando o salazarismo implantou o modelo cultural fascista, procurou depurar a música popular (ou tradicional, ou regional) de todos os vestígios da luta de classes. O Trabalho era, na leitura do fascismo português, uma praça de alegrias entre o celeiro de Portugal e as latadas nortenhas, rústico mas pitoresco, árduo mas saudável. Cabia à Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, a FNAT, a criação de linhas de rumo da «cultura popular», procurando afastar as vozes do povo daquilo que hoje se considera serem «temas fracturantes».

Coexistia, por isso, em linha desencontrada com o folclore oficial, um canto popular que dizia «ó minha mãe dos trabalhos / para quem trabalho eu / trabalho, mato o meu corpo / não tenho nada de meu». Ou «Comem-nos vivos em vida / Mortos a terra nos come / Como dá tanta comida / Quem cá passou tanta fome». Não sendo ainda bandeira de conspiração, este é já um canto consciente e porta-voz dos explorados.

O povo canta o Trabalho porque o trabalho é a sua vida, ao mesmo tempo riqueza maior e chão da sua pobreza. E canta-o permanentemente, porventura para «que na grande construção do mundo se sinta o fio das vozes e a razão dos sons, com suas primas e bordões, ajudando a enterrar sementes que serão Futuro e que hão-de fecundar o chão que é nosso».

Tamanha sementeira vem sendo necessária nos tempos todos, já que «a história das sociedades é a história das lutas de classes» – no campo, que foi o lugar central da produção ao longo de milénios, e na fábrica, onde mais modernamente se constitui a classe operária, mas é tomada de novas urgências no momento em que a fábrica passa a ser o lugar central da apropriação do produto do trabalho, em ambiente de privação das mais básicas condições de bem-estar.

Por isso, quando o compositor italiano Luigi Nono (1924-1990) se lança à criação de La Fabbrica Illuminata (de 1962, para soprano e fita magnética de quatro pistas sobre textos de Scabia e Pavese), o seu objectivo é denunciar as condições de trabalho dos operários siderúrgicos italianos. A Italsider situada em Cornigliano (perto de Génova) era, na altura, a maior produtora italiana de aço, conhecida como «a fábrica dos mortos», tão frequentes que eram, ali, os acidentes de trabalho. Nono inclui na primeira das três secções de La Fabbrica Illuminata o ambiente sonoro que registou da Italsider, adicionando-lhe as vozes de operários e a leitura de excertos de documentos sindicais com que acentua a intenção política da obra.

Muitos anos mais tarde, também a islandesa Bjork integra o ambiente sonoro de uma fábrica na escrita da canção Cvalda para a longa-metragem Dancer in the Dark (2000). De novo a teia rítmica da maquinaria, uma vez mais o Trabalho no centro da acção sonora, uma vez mais a denúncia da desumanização das relações de produção.

Marx, inspirador de canções

Para lá da imensa obra que legou à luta pelo socialismo e pelo comunismo, Marx constituiu-se escritor de canções por interpostas mãos. Working Class Hero (Herói da Classe Operária), de John Lennon, foi classificada no seu país como «canção política». Lennon concorda e aumenta os receios da classe dominante: «Eu acho que é uma canção revolucionária – é realmente revolucionária.» A canção, composta muito antes da invenção do «empreendedorismo» individualista, traça um retrato do filho da classe operária a quem a sociedade de consumo rouba a consciência de classe a golpes de «religião, sexo e TV», a escrita de Lennon a desenhar dois mundos paralelos e conflituantes: o do operário e o de «eles» («they»).

Em Factory (Fábrica), Bruce Springsteen canta os passos do «seu» operário ao longo da dura jornada de trabalho: «De manhã cedo soa a sirene da fábrica / o homem levanta-se e veste-se / leva o almoço, vai sob a luz da madrugada / é o trabalho, o trabalho, uma vida de trabalho; Final do dia, soa a sirene / os homens atravessam os portões com a morte nos olhos / é o trabalho, o trabalho, uma vida de trabalho.»

Dizem as canções que aqui referimos que a condição de vida de um operário dos EUA de Springsteen, ou da Liverpool de John Lennon, não é diferente da do operário chileno da canção Te Recuerdo Amanda de Victor Jara. Manuel, «que partió a la sierra / que nunca hizo daño / que partió a la sierra / y en cinco minutos quedó destrozado / suena la sirena / de vuelta al trabajo / muchos no volvieron / tampoco Manuel». Ou do personagem de Foi a Trabalhar, de Sérgio Godinho, afirmando que «Quem me usa não me merece / só merece o meu desprezo quem abusa / da minha força e da minha competência / e até mesmo da impaciência / de dar de comer aos meus filhos», consciente de que «É a trabalhar / que a gente paga o jantar / mas foi a trabalhar / que a gente fez a faca para o cortar».

Num tempo de patética imposição da «concertação social», numa sociedade capitalista desconcertada por natureza, cantar o Trabalho é sonorizar o futuro. Mesmo que, como refere Manuel Gusmão, «de há uns tempos para cá vozes muito dissemelhantes [pareçam] insinuar, se não explicitamente afirmar, que não há futuro para ninguém». E, contudo, se não houver futuro, se não tivermos futuro, seremos como dizia o outro, «cadáveres adiados que procriam». Com efeito, «não há experiência histórica, não há história sem a categoria do futuro, mesmo que essa categoria seja a de uma falta ou ausência, que se desloca e move no passado a reconstruir, e no presente que reencena o passado. Não somos adivinhos, nem sabemos rigorosamente prever qual será o rosto do futuro, mas isso não nos impede de o desejar. O carácter profundamente transformador do trabalho humano, o facto de uma criança de dois anos ser capaz de produzir uma frase que nunca ouviu, o facto de a poesia reinventar a língua em que se escreve, o facto de as artes serem construções antropológicas e de os humanos se configurarem e reconfigurarem, segundo uma auto-poesis histórica, são fundamentos suficientes para que nos possamos, sem mais garantias, prometer um futuro, “uma terra sem amos“. Porque nós habitamos o mundo, e o mundo é a nossa tarefa».

O Trabalho no canto essencial

Intervieram sempre as canções nas tarefas de transformar o mundo, estandartes de sons em vez (ou junto) de bandeiras de pano – empunhadas por vozes em vez de mãos – símbolos por igual nas lutas de há muito tempo nos idiomas todos da Terra.

Não se sabe qual foi a primeira canção da primeira luta, mas sabe-se que A Internacional herdou os cantos que a terão precedido e prevalece, desde a sua criação, como canto universal dos trabalhadores: «De pé, ó vítimas da fome! / De pé, famélicos da terra!». A letra original de A Internacional foi escrita em 1871 pelo communard Eugène Pottier (1816-1887). Pottier tencionava que o poema se juntasse à melodia da Marselhesa, mas Pierre De Geyter (1848–1932) alterou o projecto inicial, compondo em 1888 a música que viria a acolher as dezenas de poemas por que A Internacional responde nos quatro cantos do globo. Companheira do Partido Comunista Português na clandestinidade, a Revolução de Abril devolveu-lhe o eco das ruas e a presença em todos os actos partidários.

A Revolução permitiu (exigiu) que mais cantos fossem compostos ou redescobertos para as suas muitas tarefas, uns condenados a perecer às mãos da rima fácil, outros calhados para durar. Entre estes está o Hino da Intersindical. A partitura foi retirada da canção do século XIX (1852) Guerrilheiro, descoberta por Luís Cília (compositor de Avante, Camarada!, de 1968) na Biblioteca Gulbenkian de Paris. Guerrilheiro terá sido composta por autores alentejanos anónimos no tempo das lutas civis da Patuleia e Maria da Fonte, e convertida em hino sindical num processo semelhante ao da passagem dos sinais identitários de geração em geração.

Trabalhar sem receber

Produto também da História, as canções trazem sempre agregadas ao seu corpo a marca da classe a quem servem. Ao mesmo tempo que as classes dominantes geram e disseminam produtos de entretenimento na linha do denunciado por John Lennon em Working Class Hero, cantar o Trabalho visa agora a denúncia da exploração de uma geração tão especializada quanto vulnerável.

Parva Que Eu Sou é denúncia e é lamento na voz de Ana Bacalhau – de um lado a ignomínia, do outro a resignação que alimenta um desencontro de classes precisado de luta: «Sou da geração sem remuneração / e não me incomoda esta condição. / Que parva que eu sou! / Porque isto está mal e vai continuar, / já é uma sorte eu poder estagiar. / Que parva que eu sou! / E fico a pensar, / que mundo tão parvo / onde para ser escravo é preciso estudar.»

Mudam-se os tempos, mas há vontades que não mudam. Que seria do Capital sem a apropriação do produto do Trabalho? Que seria do crescimento do lucro privado sem o «contributo» dos baixos salários ou do trabalho (os tais estágios) não remunerado? Um coro de milhares de jovens cantava na edição da Festa do Avante! a plenos pulmões um tema de Boss AC em que o salário é a preocupação central: «Tantos anos a estudar para acabar desempregado / Ou num emprego da treta, mal pago / E receber uma gorjeta que chamam salário / Eu não tirei o Curso Superior de Otário / Não é por falta de empenho / Querem que aperte o cinto mas nem calças tenho / Ainda o mês vai a meio já eu 'tou aflito / Oh mãe fazias-me era rico em vez de bonito / É sexta-feira / Suei a semana inteira / No bolso não trago um tostão / Alguém me arranje emprego / Bom bom bom bom / Já, já, já, já.»

Conta-se que era uma vez uma cigarra que, cantando e cantando de fome viria a morrer; e que era uma vez uma formiga que, trabalhando e trabalhando chegaria ao inverno abastada de migalhas. A fábula está errada: porque de Trabalho é feito o Cantar da Humanidade, e porque a cantar sempre se trabalhou (e trabalha) neste mundo. Vozes ao alto, portanto, que o caminho é comprido e a tarefa – como diz a Heróica de José Gomes Ferreira e Fernando Lopes Graça – é a de «chegar ao fim da estrada ao sol desta canção»!




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