A ofensiva
dos EUA
contra a China
tem expressão mediática
Tiananmen: verdades e mistificações

CHINA A passagem de 30 anos sobre os acontecimentos de Maio-Junho de 1989 na Praça de Tiananmen, em Pequim, tem dado renovado pretexto para uma nova campanha política contra a República Popular da China.

Esta campanha – em torno de Tiananmen, mas não só – e a pressão sobre a China, tendo como objectivo a sua transição para o capitalismo (que propositadamente confundem com «democracia»), ganha hoje maior expressão. Não só pelo aniversário redondo dos acontecimentos na Praça da Paz Celestial (tradução de Tiananmen) como pelo actual contexto internacional, marcado pela ofensiva dos EUA contra a China, de que a «guerra comercial» é um aspecto particularmente visível, estando porém muito longe de ser o único.
A República Popular da China é apontada como a grande ameaça na nova doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos. A espiral de sanções económicas que preenchem páginas de jornal e tempo de antena dos noticiários é acompanhada por outro aspecto, porventura menos notório mas nem por isso de menor gravidade: o substancial reforço da presença militar norte-americana no Extremo Oriente e no Pacífico, precisamente junto às fronteiras chinesas.
Na recente reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO, o Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, considerou a «competição estratégica da China» como uma das «ameaças emergentes» a que os EUA e também aquele bloco político-militar se deveriam opor. É este o pano de fundo que envolve a renovada ofensiva no plano ideológico e mediático contra o grande país asiático, que de forma nenhuma pode ser desvalorizado.

Reformas com impactos

Mas recuemos a 1989 e aos acontecimentos que culminaram a 4 de Junho no coração da capital, Pequim. Nessa altura, as consequências das medidas de «Reforma e Abertura», iniciadas 10 anos antes, atingiam um ponto crítico: as mudanças implementadas, que incluíam privatizações e uma dinâmica geral de liberalização, acentuaram factores de desequilíbrio e efeitos sociais negativos, muito embora apontando para uma tendência de desenvolvimento económico que esteve sempre presente.
É precisamente em 1989 que se verifica a quebra brusca do crescimento económico: o PIB, que crescera acima de 11 por cento em 1988, cresce apenas 4,2 por cento nesse ano e ainda menos no seguinte – os ritmos de crescimento acelerados seriam retomados logo em 1991, com uma taxa de 9,2 por cento, e 1992, com uns impressionantes 14 por cento. Nesse ano de 1989, os instrumentos de regulação estatal mostraram-se incapazes de lidar com alguns dos efeitos das reformas. Em consequência, a inflação dispara, a sobreprodução instala-se, as desigualdades agravam-se e, com elas, a insatisfação social de largas camadas da população, que a disseminação de casos de corrupção contribui para intensificar. As reformas na terra e a aceleração da dinâmica de urbanização também deixam fortes marcas num país ainda predominantemente rural.
Determinante para os acontecimentos foi, também, o quadro internacional em que se realizaram, em plena ofensiva do imperialismo norte-americano no plano global e a crise do sistema socialista na Europa, que acabaria por conduzir ao fim do bloco de países socialistas no Leste da Europa. Na União Soviética, acentuava-se igualmente a dinâmica negativa da perestroika. A visita de Gorbatchov à China, entre 15 e 18 de Maio, coincide com o agravamento das manifestações estudantis.

Socialismo ameaçado

As reformas económicas e os seus impactos tiveram também reflexos no Partido Comunista da China, em cujo seio se acentuavam as divisões: ao mesmo tempo que o governo dirigido por Li Peng declarava a Lei Marcial, o Secretário-geral Zhao Ziyang seguia uma linha de apaziguamento com os organizadores das manifestações.
Quanto à dinâmica dos acontecimentos, iniciada por estudantes mas que envolveu outras camadas da população, apontava ao próprio sistema político e social da República Popular da China. A «liberalização» que apregoava, a ir por diante, conduziria ao comprometimento da opção da China pela via do socialismo. É isto que Deng Xiaoping, na liderança efectiva do partido, trava com firmeza.
O imperialismo – que desde o primeiro momento, e procurando tirar partido das contradições, fomentou e apoiou a dinâmica de manifestações que levou aos acontecimentos de 4 de Junho em Tiananmen, com vista à debilitação da China e da sua opção pelo socialismo – impôs a este país sanções económicas, políticas e diplomáticas e, ao mesmo tempo, lançava contra ele uma poderosa ofensiva política e mediática.
Nos anos seguintes, o crescimento da economia chinesa e do seu papel no plano internacional levaram ao abandono de muitas das sanções implementadas pelo imperialismo. 30 anos passados, porém, os EUA voltam a promover uma ofensiva contra a China e, com ela, Tiananmen regressa à ordem do dia.

 



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