• Manuel Augusto Araújo

Está em curso a entrega de recursos culturais e naturais ao capital privado
À beira do abismo

Nos tempos que se vivem do capitalismo pós-democrático, a financeirização de todas as formas de vida, em que a vida é o capital e o capital é a vida, é estado de sítio que se vive. No The Economist de 11 de Janeiro de 2014 escrevia-se que Thatcher e Reagan usaram as privatizações como ferramenta para combater os sindicatos e transformar em receitas diversos serviços públicos e que os seus sucessores no século XXI «necessitam fazer o mesmo com os edifícios, terrenos e recursos naturais, porque é um enorme valor que está à espera de ser desbloqueado», inquietando-se por «os governos parecerem estranhamente relutantes em explorar essas oportunidades».

Era a evidência de que nos centros decisores do capitalismo internacional – FMI, Banco Mundial, BCE, etc. – já há algum tempo estava a levedar a ideia de uma onda de privatizações de tipo novo e radical: vender património histórico-cultural e natural, onde a única dificuldade será avaliar o Pártenon, o Museu do Louvre, o Parque Nacional de Yellowstone, etc. É cada vez mais evidente que hoje, com o estado de crise permanente do capitalismo em vertigem de montanha russa, tudo está à venda e, parafraseando Lénine, a última coisa a ser vendida será a corda em que será enforcado. Inquietante é quase não surpreender que o Ministério das Finanças grego tenha entregue ao Taiped – o fundo de privatizações fundado por imposição da UE, BCE e FMI – uma extensa lista de monumentos nacionais para venda.

No inventário, com mais de 300 entradas, estão incluídos o palácio de Cnossos do mítico labirinto do Minotauro, em Creta, o túmulo do rei Filipe II da Macedónia (pai de Alexandre, o Grande), a Torre Branca de Salónica, o lugar pré-histórico de Santorini, os lugares arqueológicos de Salamina e Eleusis, muitos dos museus de arqueologia, os museus bizantinos de Salónica e de Véria, os fortes das cidades de Esparta, Corinto e da ilha de Corfu, classificado património mundial pela UNESCO, florestas integradas na Rede Natura, a que se somam, entre outros, os lugares históricos nas montanhas que cercam a Acrópole.

Assalto ao património

Esta fúria privatizadora não é uma particularidade grega. Por quase todo o mundo este assalto com a mão armada de dólares é verificável. Os pretextos e as formas são variáveis; o fim é o mesmo. Em Itália, o governo Berlusconi tentou privatizar todo o património imobiliário público, fosse um edifício pouco caraterizado ou o Palácio do Quirinal, residência do Presidente da República. Era a solução para a dívida pública. Foi travado por uma vasta mobilização que conseguiu reverter parcialmente as intenções iniciais, cancelando essa lei mas não evitando muitas privatizações totais ou parciais de monumentos históricos.

Na área dos recursos naturais as agressões têm séculos mas a ameaça mais grave e imediata é no Brasil de Bolsonaro que prometeu «acabar com a agência brasileira encarregue do controlo da desflorestação e da demarcação das zonas indígenas», um passo para começar a destruição da maior floresta tropical do mundo e, sem recorrer a câmaras de gás, acabar com os índios amazónicos. Um desastre ambiental com consequências incalculáveis.

Em curso a entrega rápida dos recursos sejam culturais ou naturais ao capital privado com o álibi falso de o rentabilizar. Nada comove nem demove essa gente para quem a humanidade, a cultura e a civilização são descartáveis, são inutilidades desde que não se tornem negócio, produzam lucro. É urgente travá-los. Uma luta política para se mudar de políticas que nos conduzem para um abismo.




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