• Manuel Pires da Rocha

O Cante foi feito para ser canto colectivo de encanto e encorajamento
Cante (ou cantar a terra e o trabalho)

«O que são dois alentejanos postos um ao pé do outro? São um coral alentejano!». O corrente dito é antigo e terá sido inventado para ser amável brincadeira. Acaba, porém, por ter a profundidade das sínteses, a luz essencial que se fixa na memória. No Baixo Alentejo o canto colectivo não é só acontecimento natural – é corpo fundamental, por vezes a invenção do próprio chão, como nos tempos de partida: «Vou-me embora p’ra Lisboa, porque a vida por cá ‘stá má, à procura de uma coisa boa, procuro não encontro cá» – Cuba e Aljustrel, Peroguarda e a Aldeia Nova de S. Bento transportadas para o Barreiro e para a Moita, Baixa da Banheira e Montijo, sob a forma de um canto persistente e operário – na terra alentejana e nas fábricas de Lisboa.

No canto alentejano – chamado Cante no dia em que o fonema passou a escrito – a disposição dos cantadores não é capricho coreográfico. Quando o realizador Pierre-Marie Goulet chegou a Lisboa para filmar o documentário Polifonias, notou que nos registos dos arquivos na RTP «todos os grupos estavam em linha, excepto nos arquivos de Giacometti, onde os cantores formavam sempre um círculo, agarrando-se pelos ombros. Nos encontros com os corais falei-lhes de Michel Giacometti e das imagens que ele tinha filmado. Eles confirmaram-me que era assim, em círculo, que cantavam antigamente». Em Povo Que Canta, de Michel Giacometti e Alfredo Tropa, a máquina de filmar fixa um grupo de homens na conveniente configuração, «em redondo», o braço de uns no ombro dos de ao lado, as vozes juntas como juntos os respirares, a vibração dos corpos concordante com a das gargantas.

Feito para ser canto colectivo de encanto e encorajamento, o Cante resistiu a perfilar-se, talvez por não querer perder essa respiração conjunta que o fez consonante e coeso. E assim se foi mantendo, «em redondo», alinhando-se apenas nos dias de subir ao palco, onde foi ferramenta de luta pelo pão e instrumento de construção socialista.

Canto colectivo e resistente

O canto do Baixo Alentejo nunca foi objecto pitoresco, ainda que o regime fascista o tenha procurado juntar ao seu ramalhete de acessórios populares. É que a gravidade do Cante foi sempre a dos protagonistas. Por isso soube ser a crónica cantada dos lugares em que a vida se jogava na praça de jorna, como na moda de protesto em que o Ponto lança a Cantiga – «o homem trabalha a terra / para produzir o pão / hoje é o mesmo que era / continua ainda à espera / de melhor situação» –, o Alto ergue a frase – «Nós somos trabalhadores!» – que o Coro das segundas vozes completa: «que no Campo trabalhamos. / trabalhamos a rigor...». Canto protagonista da velha luta de classes, somando vozes mineiras de Aljustrel às dos asturianos do Pozo Maria Luísa. Internacionalista, portanto, começado lá com «Traigo la camisa roja, Trai larai larai», completado aqui com «do sangue de um companheiro». Protagonista ainda quando proclama «ó Reforma Agrária / eu sonhei contigo / ao ver as mulheres / com espigas de trigo», enquadrando o processo que constituiu a maior das transformações da Revolução de Abril: o da concretização do objectivo de «a terra a quem a trabalha», assente em décadas de luta por trabalho, por horário de trabalho, por salário igual para trabalho igual, pela extinção do latifúndio, pela posse colectiva da terra.

É alentejano o canto que pressentimos nas palavras escritas de Manuel da Fonseca e de José Saramago, que percebemos nas pinturas de Pomar, Pavia, Cunhal e Cipriano Dourado, que encontramos nos bonecos de luz de Sérgio Tréfaut. Canto colectivo, capaz de juntar gente – homens e mulheres – numa voz maior do que a soma das que lhe dão corpo e sentido. Canta os tempos todos visando o mais longe, lá onde ecoa a razão de Amanda Carrusca (de Seara de Vento), gritando para quem a saiba ouvir que «um homem só não vale nada!».




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