• Correia da Fonseca

Um verso de Aragon

Na passada semana, a televisão trouxe-nos imagens de Paris, talvez continue a trazê-las quando este número do Avante! saia a circular pelo País, mas desta vez não se tratou das habituais imagens do peculiar encanto parisiense, das margens do Sena com os seus pescadores sempre aparentemente optimistas ou da Torre Eiffel festivamente iluminada: foram imagens dos manifestantes que protestavam contra os agravados preços dos combustíveis e da repressão policial que contra eles se abatia.

Num entendimento mais amplo, bem se poderá dizer que se tratava de protestos contra a governação Macron, que eleito após dois presidentes manifestamente decepcionantes, trouxe para a gestão do país a nada surpreendente marca do meio financeiro e técnico do grupo Rothschild, de onde veio. Para essa distintíssima gente, parecem continuar válidas análises coerentes com a frase atribuída a Maria Antonieta quando vieram dizer-lhe que o povo se revoltava porque não tinha pão: «- Se não têm pão, comam brioches!...», terá respondido.

Esse entendimento das coisas custou-lhe muito caro, como bem se sabe, mas o episódio foi escassamente aprendido: em verdade, o que a direita arrogante e também ignorante tem por hábito fazer nos mais diversos lugares do mundo é mandar que os explorados «comam brioches», ainda que não use estas palavras, e assim permanece até que um dia as situações explodem.

Les pavés

A televisão trouxe-nos, pois, imagens das manifestações havidas em Paris contra uma das medidas do governo Macron, tal como há apenas alguns meses nos tinham mostrado imagens das manifestações havidas há cinquenta anos, no Maio de 68, e do fundo da memória pôde revisitar-nos um verso de Louis Aragon, poeta e comunista, isto é, poeta e combatente: «Paris qui n’est Paris qu’arrachant ses pavés», numa tradução medíocre «Paris só é Paris arrancando as pedras da calçada».

É certo que os governos franceses, tendo aprendido com repetidas experiências, providenciaram no sentido de serem alcatroadas as ruas parisienses e assim eliminadas as munições de circunstância que eram usadas contra as repressões, mas não puderam eliminar a indignação e o instinto de protesto activo que faz parte do património histórico do povo parisiense. Entretanto, a questão que fundamentalmente se põe à França, e por consequência à Europa, é a de se saber por quanto tempo a ilusão Macron se vai manter: já claramente se viu que o presidente francês não pode continuar a dissimular de onde veio, para onde vai, qual é a sua rota.

Dir-se-ia talvez que essa questão é problema dos franceses, mas dizê-lo seria regressar ao equívoco de supor que os problemas dos franceses são apenas deles, não da Europa e até do mundo. Pelo que é preciso confiar na vigilância dos próprios franceses e da sua tradição de resistência. Ilustrada pelo verso de Aragon.




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