• Manuel Pires da Rocha

Manuel Freire

O cantor é a voz dos poetas. Leitor e propagandista, useiro (e vezeiro, quando bom) das habilidades que são as da música, é dele a arte capaz de agitar pensamentos e emoções, ocultando-os (sendo preciso) na vibração das moléculas. Manuel Freire é leitor e é propagandista, mestre também no ofício de fundir palavras em melodias. E é também o timbre e o modo de cantar, grave e cheio, terno e incisivo, único e reconhecível entre a multidão de cantores em que, felizmente, Portugal calhou ser fértil.

Há 50 anos, num dos dias de 1968, entrava nas discotecas um pequeno disco de vinil preto de Manuel Freire que era, afinal, todo um programa de acção. As canções tinham por título Dedicatória (poema de Fernando Miguel Bernardes), Livre (poema de Carlos Oliveira), Eles (poema de Manuel Freire) e Pedro Soldado (poema de Manuel Alegre), mas três delas tomaram o nome que lhes foi dado pelos milhares de vozes que as cantaram. Dedicatória passou a ser Se Poeta Sou, Eles tornou-se Ei-los Que Partem, Livre ficou Não Há Machado Que Corte, e por estes nomes se deu cumprimento às cantigas que foram cantadas mil vezes, nos dias mais sombrios como nos mais luminosos. Só Pedro Soldado assim permaneceu, de tão clara ser a condição dos que se haviam de perder, em corpo ou em alma, nas ravinas da Guerra Colonial.

Manuel Freire trazia os flagelos da guerra e da emigração, a presença do povo e a luta pela liberdade para um palco de canções que ameaçava a compostura radiofónica em que reinavam as melodiosas distracções do nacional-cançonetismo. E levava as suas cantigas pelas colectividades, pelos encontros de democratas, pelas reuniões conspirativas onde marcavam encontro os afinados e os desafinados que, juntando vozes, iam somando cantigas às razões das suas lutas.

Como no Ateneu de Coimbra, no início dos anos de 1970, o salão cheio de gente. Era um tempo em que havia já mais canções do que as quatro daquele primeiro disco: Lutaremos Meu Amor, Sangue Não Dá Flor, Menina dos Olhos Tristes, Dulcineia. À entrada da Pedra Filosofal Manuel Freire dá conta, aos presentes, de um constrangimento que lhe tinha sido comunicado pelos dirigentes da colectividade: o Exame Prévio não lhe permite cantar o poema de Gedeão. É, porém, sabido - e ali se confirmaria -, que as canções grandes reagem com surpreendente facilidade aos impedimentos de ocasião, assim haja quem lhes justifique a função. A ordem censória proibia Manuel Freire de cantar, mas não de tocar. Naquele ajuntamento de insurrectos cantaram os que ali estavam, acompanhados à viola pelo silenciado cantor.

Ao longo dos 50 anos que decorreram desde a publicação do primeiro disco, Manuel Freire nunca foi só-cantor-compositor, repartindo-se por ofícios de outros entendimentos, desde a indústria à Sociedade Portuguesa de Autores. Nada que o tenha impedido de cantar em todo o lado, no Continente e nas Ilhas, nos países africanos por cuja independência também foi combatente, nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Por todo o lado se faz acompanhar por António Gedeão, José Gomes Ferreira, Manuel Alegre, Fernando Assis Pacheco, Eduardo Olímpio, Sidónio Muralha, José Saramago, Vitorino Nemésio e os que mais virão.

Manuel Freire abre o livro, procura o poema, encontra os sons que o saibam dizer. Mas quando canta «não há machado que corte a raiz ao pensamento», há 50 anos como hoje, não se limita a ser a voz do poeta – é a voz da nossa voz.




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