• Correia da Fonseca

Uma espécie de náufragos

Informou-nos a televisão, e também naturalmente os outros «media», que Donald Trump ordenou que uns milhares de militares da «sua» Guarda Nacional se desloquem para a fronteira com o México com uma missão muito clara: impedirem a entrada nos Estados Unidos de um grupo de milhares de migrantes provenientes da América Central, sobretudo da Guatemala mas não só, que desde há semanas se dirige a pé, agora através de território mexicano, movidos pelo sonho frágil de entrarem no grande país do norte e aí conseguirem viver com as condições mínimas a que não acedem nos seus países de origem. Donald Trump não quer que aquela gente mal vestida e provavelmente famélica, que talvez até cheire mal, entre no grande e poderoso país cuja riqueza não há-de ser para partilhar com tal gentalha, e para impedir essa probabilidade não hesita em recorrer ao argumento das armas que aliás é recorrente nos States, como bem se sabe. Cabe recordar que em matéria de partilhas os Estados Unidos são débeis praticantes, sendo conhecido, ainda que não muito divulgado, que por lá as diversas formas de riqueza e de bem-estar estão tão escassamente partilhadas que vastos ilhéus de pobreza são detectáveis em praticamente todos os estados da União. Não é essa imagem, porém, que motiva os migrantes que atravessam agora o território mexicano e que são esperados pelos soldados da Guarda Nacional que é legítimo imaginar de armas aperradas e pontaria bem treinada.

Empunhando o revólver

Conta-se, e deve ser uma infeliz verdade, que em certos casos de naufrágio alguns dos sobreviventes, enfim instalados em escaleres de salvamento, usam os remos para impedirem que outros náufragos subam para esses mesmos escaleres, empurrando-os assim para o afogamento. Nesses terríveis casos, a explicação para o egoísmo levado ao extremo é o receio de que o escaler não suporte o eventual sobrelotamento e aconteça o afogamento de todos. Porém, no caso da entrada nos Estados Unidos dos «náufragos» caídos em oceanos de miséria não há decerto o risco de todos se perderem: o que haverá, sim, é um egoísmo nacional estimulado pelo próprio presidente. Mas há mais e pior: é que os Estados Unidos e a sua poderosa máquina negocista não são de modo nenhum alheios à situação de pobreza em que permanecem não apenas a Guatemala mas generalizadamente toda a América Central. No quadro das relações individuais não espanta que um agressor recuse auxiliar a sua vítima, mas quando a questão se coloca entre o dirigente de um país dominante e explorador e os cidadãos de um país dominado e espoliado talvez o caso deva ser apreciado de outro modo: os Estados Unidos têm armas, mas têm também um currículo de agressões de diversa ordem contra os seus frágeis vizinhos. Não seria absurdo que se lembrassem disso antes de empunharem revólveres à maneira do Far West.




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