O Avanteatro é uma relevante mostra do que de melhor se faz em Portugal em termos de artes de palco
O fascismo ontem e hoje e o teatro como projecção de novos caminhos

RESISTÊNCIA A programação deste ano do Avanteatro centra-se no fascismo, tanto o que vigorou em Portugal durante 48 anos como o que hoje ameaça vários pontos do mundo, e particularmente da Europa, explicou ao Avante! Manuel Mendonça, um dos organizadores.

O espectáculo de abertura da edição deste ano do Avanteatro – uma vez mais situado junto à nova entrada da Festa, na Quinta do Cabo – acabou por ser o que determinou a orientação geral da programação: 1936, o Ano da Morte de Ricardo Reis, a adaptação que Hélder Mateus da Costa e A Barraca fizeram do livro de José Saramago. Esta peça esteve prevista para a edição do ano passado, o que acabou por não ser possível, ficando desde logo acertada a sua presença em 2018.

Como sublinha Manuel Mendonça, o tema geral deste espectáculo (e do livro que o inspira) e a actual situação internacional forneceram o pano de fundo para a restante programação. São, garante, muitos os momentos em que a temática do fascismo estará presente.

Mas centremo-nos, primeiro, na adaptação da obra-prima do Nobel português e, sobretudo, no ano que José Saramago escolheu para «matar» Ricardo Reis, o médico emigrado no Brasil que se comprazia em observar o «espectáculo do mundo». Ora, em 1936, tornava-se impossível apenas assistir ao desenrolar da História; havia que tomar partido e lutar com afinco e abnegação.

Esse ano que tornou obsoletos os ricardos reis deste mundo foi o mesmo em que, por cá, se criou a Legião e a Mocidade portuguesas e se abriu o Campo de Concentração do Tarrafal. E foi, também, aquele que assistiu, aqui mesmo ao lado, em Espanha, ao deflagrar da guerra civil, na sequência da sublevação militar com que os fascistas pretenderam derrotar a Frente Popular, vencedora das eleições de Fevereiro. 1936 foi ainda o ano da invasão da Etiópia pela Itália de Mussolini e da Renânia pela Alemanha de Hitler, países que juntamente com o Japão celebraram, em Novembro, o Pacto Anti-Comintern.

Olhar o presente
e projectar futuros

É certo que a História não se repete, mas não é necessária muita sagacidade para perceber que, tal como nesse ano de 1936, os tempos não estão para contemplações: o aumento brutal da exploração, o ataque sem tréguas do capital aos serviços públicos e aos direitos políticos, económicos, sociais e culturais dos trabalhadores e dos povos, o incremento do racismo e da xenofobia e das forças de extrema-direita são realidades contemporâneas, a par da perigosa deriva militarista do imperialismo.

Mas a História fazem-na os homens, com a sua acção e iniciativa. Daí ser precisamente estes – e à sua consciência, inteligência e sensibilidade – que o teatro pretende interpelar, não só denunciando os podres do capitalismo e os seus responsáveis como imaginando rumos novos. É o que faz Cláudia Dias em Segunda-feira: Atenção à Direita, primeira parte do ciclo Sete Anos, Sete Peças (a terceira estreou recentemente no Festival Alkantara), ao representar o quotidiano de um povo num país subjugado como um combate de boxe, em que cada golpe corresponde a um obstáculo e, ao mesmo tempo, à construção de saídas e alternativas.

Numa linguagem estética totalmente diferente mas com uma mesma inquietação, A Pessimista, de Hélder Mateus da Costa, ironiza com o calculismo reinante, ao mesmo tempo que satiriza o cinismo e pedantismo que analistas e fazedores de opinião lançam sobre a Humanidade. Este espectáculo da histórica companhia A Barraca é, pois, uma comédia que põe a ridículo o dia-a-dia da nossa sociedade.

Sendo sobre memórias, identidades e construções do real, Eu Uso Termotebe e o Meu Pai Também reflecte igualmente a condição de operário e a sua emancipação, bem como as mutações dessa identidade ao longo de gerações.

Batalha pela memória

No texto de apresentação da edição deste ano adianta-se aquele que poderia ser o mote do Avanteatro 2018: Fascismo e identificação de um país. É que se há período que marcou profundamente Portugal e o seu povo foram os 48 anos de opressão, violência, miséria e obscurantismo – e, claro, também de resistência e luta! A construção de um futuro que tenha os valores de Abril como referência fundamental faz-se também na batalha pela memória de que sim, houve fascismo em Portugal.

É esta precisamente a proposta do Teatro Art’Imagem, com o espectáculo O Fascismo (aqui) Nunca Existiu, escrito, dramatizado e encenado por José Leitão. Na peça, que tem como pano de fundo uma «casa portuguesa, pobre mas honrada», há referências às «eleições» de 1958, à PIDE, ao movimento sindical e às lutas da oposição democrática, à tropa e à guerra colonial...

Cartas, de «Um coletivo Associação Cultural», é uma criação original a partir da correspondência trocada, entre 1946 e 1960, entre Amílcar Cabral e Maria Helena, a sua primeira mulher. Uma viagem à intimidade de um dos mais importantes patriotas africanos, cujo assassinato não travou a independência do seu povo.

Há Beira na Revolta!, da Estação Teatral com encenação de Nuno Pino Custódio, reúne várias histórias de força, coragem e resistência numa Beira Interior situada entre o século XIX e meados do século XX. Histórias de perseguições, pedradas, palavrões, punhos erguidos, canções, suspiros e corações. O cinema documental, há muito presente no Avanteatro, não destoa da proposta geral: Luz Obscura, de Susana de Sousa Dias, explora a rede familiar que se esconde por detrás do dirigente comunista Octávio Pato, preso durante quase uma década e clandestino mais de 20 anos.


Propostas variadas
e de qualidade

Da programação do Avanteatro fazem parte outras propostas, representativas do que de melhor se faz em Portugal ao nível das artes de palco. Em teatro, será ainda possível assistir, no exterior, ao espectáculo Sorriso, do Teatro Só (com encenação e dramaturgia de Sérgio Fernandes), uma história de amor inspirada não em Romeu e Julieta de Shakespeare, mas na «vida comum de um velho casal»; Prelúdio, a Mulher Selvagem, do Teatro da Didascália, assume-se como um «grito interior, visceral mesmo, que aponta directamente à natureza visceral das mulheres». A encenação é de Bruno Martins.

As manhãs são reservadas à infância, com Adormecida, do Teatro de Marionetas de Mandrágora, e Pastéis de Nata para Bach, da Companhia de Teatro de Almada. As noites fecham com música: Cindazunda; Tributo a Zeca Afonso – Marimba & Violoncelo; O Tango, com Daniel Schvetz Quartet; e A Orquestra de Foles.

Para além de um grupo de artistas chineses, o programa conta ainda com um debate, sobre as políticas culturais que temos e aquelas por que se bate o PCP e a parte substancial da comunidade cultural e artística.

 



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