A exposição não é sobre protecção civil mas a prevenção de fenómenos extremos terá forte presença
Espaço Ciência analisa relação entre o Homem e a Natureza

CONHECIMENTO Transferido para a zona do lago, onde até há pouco tempo se encontrava o Auditório 1.º de Maio, o Espaço Ciência te este ano como tema «O Homem e a Natureza: cooperação e conflito!». Uma vez mais, ao rigor científico juntar-se-à uma linguagem acessível a todos os visitantes e formatos inovadores e interactivos.

Desde há muito que o Espaço Ciência conquistou o seu lugar entre a intensa, diversificada e qualificada programação da Festa do Avante!. Contando já com um público fiel, ano após ano são cada vez mais os que o visitam em busca daquilo que a Ciência – e só ela – é capaz de fornecer: conhecimento. Fazem-no visitando as exposições, participando nos debates e realizando as experiências científicas que sempre marcam a programação daquele espaço. Este ano, confiam os membros do Grupo de Trabalho da Ciência, não será diferente.

A nova localização do espaço, junto ao lago, garante desde logo uma maior tranquilidade, o que é positivo para o decurso dos debates, das experiências e da apreensão cabal do conteúdo da exposição. As consequências negativas que porventura existiriam pelo facto de o Espaço Ciência já não estar, como nos últimos anos, no centro da Festa, serão seguramente atenuadas pelo facto de existir nas proximidades uma paragem do comboio interno que este ano circulará pelo recinto.

Como fez questão de sublinhar Augusto Flor, que na direcção da Festa do Avante! responde pelo Espaço Ciência, a exposição deste ano responderá, como todas as anteriores, a três preocupações centrais: rigor científico, linguagem acessível e originalidade. Relativamente a este último aspecto, o responsável recorda que as exposições do Espaço Ciência são construídas de raiz pelo Grupo de Trabalho: da escolha dos temas à investigação e desta à redacção dos textos e escolha das imagens.

Sílvia Silva, igualmente do Grupo de Trabalho da Ciência, realça que para além dos conteúdos, se tem uma crescente preocupação com os formatos das exposições. Este ano, acrescenta, será dada uma atenção ainda maior aos materiais dos painéis, para que a exposição possa ser mais facilmente transportável, depois da Festa, para escolas e outras instituições. Além disso, a própria estrutura do pavilhão foi concebida para permitir uma maior comunicação com o exterior.

À semelhança do que tem acontecido nos últimos anos, o Núcleo de Física do Instituto Superior Técnico volta a marcar presença no Espaço Ciência, continuando como até aqui a ser um elemento relevante na componente experimental. O astrónomo Máximo Ferreira dará também o seu contributo qualificado nas questões relacionadas com o Cosmos. Na zona reservada às crianças, para além dos formatos tradicionais (desenhos, imagens e puzzles) haverá uma mais forte vertente interactiva e digital e um pequeno auditório de cinema pensado para os mais pequenos.

Cooperação e conflito

A escolha da temática para esta edição do Espaço Ciência – «O Homem e a Natureza: Cooperação e Conflito» – não foi aleatória. Este era, aliás, um dos assuntos que desde há uns anos estava «na calha» para ser apresentado, mas foi a realidade que o impôs para esta edição: os violentos incêndios de 2017 em Portugal, os tornados e furacões na América do Norte e Central e Caraíbas, os sismos no Japão, Itália ou Chile e outros «fenómenos extremos» que se têm verificado acrescentaram premência à questão e tornaram quase obrigatória a escolha do Grupo de Trabalho.

Como explicou Augusto Flor, na exposição procurar-se-á analisar questões tão diversas como as causas destes fenómenos extremos e os impactos da acção humana sobre a Natureza e, ao mesmo tempo, avaliar as políticas públicas de protecção do ambiente (em sentido lato) e afirmar as propostas do PCP em áreas que vão do ordenamento do território à floresta e do mar à Protecção Civil.

A Anabela Silva, outro dos membros do grupo, cabe-lhe produzir os conteúdos para a primeira parte da exposição, dedicada aos vários ecossistemas existentes no território nacional e às perturbações aos seus equilíbrios. Estes, lembrou, tanto podem ser naturais como antrópicas, ou seja, resultantes da intervenção humana. Em alguns casos, tais desequilíbrios podem colocar em causa a sobrevivência de populações animais ou vegetais. Entre as perturbações de origem natural a exposição sublinhará as que advêm do clima e da atmosfera, que serão desenvolvidas por Emília Costeira e Célia Figueira, ou da sismologia, a cargo de António Amorim.

Quanto às que advêm da acção humana, serão destacadas as que incidem sobre importantes ecossistemas, como a floresta ou o rio. Questões como a erosão, incêndios, cheias ou poluição serão profundamente desenvolvidas. O tema das «alterações climáticas» (será natural? Antrópico? Ambos?) também terá expressão.

Da Natureza para o Homem e vice-versa

O tema desta edição do Espaço Ciência insere-se predominantemente na área das chamadas Ciências Naturais. Contudo, as Ciências Sociais e as Humanidades terão uma vez mais uma forte expressão na exposição. Desde logo porque, como explica Tânia Sousa, a acção do Homem não é só profundamente influenciada pelo meio natural em que se insere, desde logo ao nível dos comportamentos individuais e colectivos, como tem igualmente um forte impacto neste.

As alterações na paisagem introduzidas pelo Homem ao longo dos séculos serão abordadas no âmbito da História, enquanto que as ferramentas da sociologia serão úteis para sublinhar a influência do meio nos comportamentos sociais e os impactos destes no próprio ambiente natural. A antropologia é particularmente útil, destaca por sua vez Augusto Flor, para avaliar por exemplos os «mitos» e suas consequências: «Há acções que praticamos apenas porque “sempre se fez assim”, e que por vezes são perniciosas para o meio que nos rodeia...»

Já habitual nas exposições do Espaço Ciência é a parte relacionada com as Artes e Letras, onde o tema é abordado na óptica da literatura, artes plásticas e performativas, fotografia, arquitectura, música… Alice Figueira, que se ocupará desta secção, deu como exemplo a obra de Miguel Torga, profundamente ligado à terra e à natureza. Aliás, lembrou, o próprio apelido do pseudónimo escolhido por Adolfo Correia da Rocha revela este sentimento. Torga é uma planta silvestre característica de Trás-os-Montes, de onde o poeta era natural. A obra de arte urbana de Bordalo II (nome artístico de Artur Silva) Big Trash Animal, feita a partir de desperdícios, é também sublinhada por Alice Figueira, pela crítica que faz ao consumismo exagerado e à produção em massa.


Opções actuais
e perspectivas de futuro

Falar do impacto da intervenção humana sobre a Natureza obriga a que se tenha em conta assuntos como as formas de organização económica e social ou o modo de produção num dado momento histórico. Mas também outras questões (decorrentes destas), como as políticas públicas para o território, o ambiente e o desenvolvimento económico e a natureza de classe dos riscos, com as camadas mais desfavorecidas a serem muitas vezes empurradas para zonas com maior risco de sismo, cheia ou incêndio.

Como sublinhou Emília Costeira, é fundamental avaliar matérias tão vastas como o conteúdo e grau de implementação das políticas públicas de ocupação e ordenamento do território, áreas protegidas, protecção de albufeiras, águas públicas e estuários e de ordenamento da orla costeira – da responsabilidade dos governos centrais e estruturas intermédias – e dos não menos importantes planos directores municipais. Na exposição, serão destacadas boas e más práticas, acrescentou.

As propostas do PCP relativamente aos diversos assuntos estarão também em destaque.

Aprender, questionar e aprofundar

Da programação do Espaço Ciência fazem parte quatro debates sobre outros tantos ângulos de abordagem do tema geral escolhido para este ano.

O primeiro, moderado por Célia Figueira, versará sobre «Informação, previsibilidade e fenómenos extremos». Participam um meteorologista e o dirigente e deputado do Partido Ecologista Os Verdes José Luís Ferreira. O segundo tem como tema «Políticas de Protecção Civil – prevenção e acção!». Moderado por Emília Costeira, conta ainda com a presença de Duarte Caldeira e Lino Paulo. «O Homem e a Natureza – Mitos e realidades» aborda as vertentes relacionadas com as ciências sociais. As intervenções principais estarão a cargo de Manuela Silva Santos e Raquel Cardoso e a moderação será assegurada por Tânia Sousa.

«Estamos seguros, astronomicamente falando?» é o tema do quarto debate, no qual intervirão Máximo Ferreira e Ana Maria Dias, ficando a moderação a cargo de Anabela Silva.




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