Um órgão de imprensa capaz de intervir e combater a imprensa burguesa
Nova Gazeta Renana: «O melhor, insuperável órgão do proletariado revolucionário»

MARX E A IMPRENSA A obra teórica de Marx no campo filosófico, económico e político está estreitamente ligada ao seu trabalho concreto nas organizações operárias e revolucionárias, mas também na imprensa. A Nova Gazeta Renana – cujo n.º 1 foi publicado a 31 de Maio de 1848, fez agora 170 anos – assinala um marco decisivo na relação dialéctica entre a teoria e a prática, que seria uma constante da vida de Marx e um eixo central da sua obra, relação essa que se tornaria uma característica própria do marxismo-leninismo. A NGR dá-nos, além do mais, um magnífico exemplo da profunda amizade, complementaridade e colaboração entre Marx (então com 30 anos) e Engels (com 28), já existentes antes e que nunca deixariam de existir.

Prosseguindo a abordagem de temas relacionados com o segundo centenário do nascimento de Karl Marx, publicamos hoje um artigo sobre a actividade jornalística de Marx

A Nova Gazeta Renana não resultou de um pontual interesse na concretização de objectivos imediatos, mas sim o ponto alto de uma intervenção na imprensa que desde cedo Marx entendeu como complementar e inseparável do seu trabalho teórico. Não pode ser compreendida fora dos contextos – fundamentais para o nascimento, crescimento e amadurecimento do marxismo que a precederam e tornaram possível. A NGR não nasceu do zero.

Aos 24 anos, pouco depois do doutoramento em Filosofia pela Universidade de Jena (cidade da província da Renânia, integrada no Reino da Prússia, mais tarde absorvido pelo Império Alemão), Marx escreveu aquele que éconsiderado o seu primeiro artigo político, «Observações sobre o mais recente decreto prussiana sobre a censura», o qual, entre outros aspectos, chegava ao ponto de proibir a crítica à religião cristã. Enviado para os Anais Alemães o texto foi... cortado pela censura. Veio mais tarde a ser publicado incluído numa recolha de artigos de vários autores que tinham tido o mesmo destino. O ambiente político estava longe de ser favorável à imprensa livre, incompatível com uma monarquia feudal cujas concessões não iam além da aliança com alguns elementos mais liberais da burguesia, mas tolhidos pelas suas limitadas perspectivas político-ideológicas de classe.

Os inícios

A viver em Colónia, Marx envolve-se mais directamente na vida política integrando o grupo dos chamados Jovens Hegelianos, que tinham uma interpretação «de esquerda» do prestigiado filósofo alemão, acreditando, nomeadamente, no que se refere à política, na possibilidade da evolução de certos sectores da burguesia industrial e comercial de tendência mais liberal para uma postura mais firme de oposição ao absolutismo prussiano. Um grupo destes capitalistas, desejando defender os seus próprios interesses, mas que incluíam uma maior liberdade de imprensa que lhes permitisse defender os negócios, decide publicar a Gazeta Renana (GR), subintitulada Para a política, o comércio e a indústria, que surge em Janeirode 1842, em Colónia. Nos seus quadros incluem-se vários Jovens Hegelianos, convidados para redactores ou colaboradores devido ao seu prestígio intelectual e literário, entre eles Marx e Engels. O jornal, no qual pouco tempo volvido Marx ascende a chefe de redacção, afirma-se sob a sua orientação como um órgão combativo de oposição, capaz de unir numa mesma frente todos os que se opunham ao governo prussiano.

A GR acaba por ser proibida por um conselho de ministros presidido pelo rei, no início de 1943. Mas nada indica que este desfecho tenha sido propriamente um grande desgosto para Marx, cansado pelo exaustivo trabalho a que a chefia o obrigava e as constantes preocupações provocadas pelos proprietários, mas também pelo tempo que lhe roubava ao seu próprio trabalho teórico. Sendo certo que foi muito importante para ele o contacto com a realidade que esta experiência lhe proporcionou. Engels recordaria mais tarde «sempre ter ouvido a Marx que pela sua ocupação com a lei de roubo da madeira e com a situação dos camponeses de Mosela (temas que ele acompanhara na GR) tinha sido dirigido da simples política para as relações económicas e tinha chegado ao socialismo».1

A GR marca uma importante etapa no afastamento de Marx das concepções do «hegelianismo de esquerda» e a sua aproximação definitiva ao materialismo e ao comunismo.

Empenho continuado

Envolver-se-á ainda neste período em outros projectos jornalísticos, também eles fruto do seu permanente empenho numa intervenção social prática consonante com o seu pensamento teórico. O primeiro será os Anais Franco-Alemães, revista nascida da ideia de juntar colaboradores dos dois países, tendo na base o desenvolvimento de uma luta comum da classe operária enquadrada por associações às quais Marx e Engels estavam ligados. Editada em Paris, onde Marx residia desde Outubro de 1843 com sua mulher Jenny, apenas sairá um número, em dois fascículos (Fevereiro de 1844), mas que incluirá, além de várias recensões e análises de imprensa, textos de grande qualidade, por exemplo Para a questão judaica e Para a crítica da filosofia do direito de Hegel. Introdução, de Marx; Esboço para uma crítica da economia nacional, de Engels; um poema do celebrado Heinrich Heine.2

Ainda os Anais não tinham aparecido em público e já Marx estava envolvido noutro projecto, o Vorwarts! (Avante!), um dos vários jornais nessa década publicados em França pela numerosa imigração alemã (cerca de um quarto da população de Paris). O proprietário era, acima de tudo, um empresário interessado em ganhar dinheiro, mas a entrada nos colaboradores de muitos dos que tinham estado nos Anais – tratou-se de uma espécie de manobra de infiltração... – acabou por se reflectir no seu conteúdo. Marx não estava na direcção, o que lhe facilitou o trabalho teórico próprio, no qual estava particularmente empenhado.

A importância de Marx reflecte-se principalmente na influência que exercia no debate interno, na agenda e nas orientações do tratamento da actualidade política, fruto das leituras, das reflexões e da escrita a que crescentemente se dedicava. Iniciada em Janeiro de 1844 a publicação do jornal termina no mês seguinte. A sua duração foi muito curta, mas fez parte de um período de maturação do trabalho teórico-prático de Marx e de Engels, no quadro das novas condições políticas e do desenvolvimento organizado do movimento operário. A imensa capacidade de trabalho de Marx permitia-lhe dividir-se entre a intervenção na imprensa, imposta pela necessidade de acompanhar e influir no movimento de massas, e o não menor desejo de prosseguir e aprofundar a reflexão teórica: a prática era necessária mas obrigava-o à teoria, enriquecendo-lhe a prática. Foi, afinal, na unidade dialéctica entre as duas que o marxismo nasceu e se desenvolveu.

Igualmente curta foi a duração da Gazeta Alemã-Bruxelense (Setembro de 1847 a Fevereiro de 1848) publicada nesta cidade onde Marx residia, depois de ter sido expulso juntamente com sua mulher pelas autoridades parisienses, o mesmo acontecendo logo de seguida a Engels. A importância histórica deste jornal vale pelo seu conteúdo, mas também pelo papel que desempenhou na vivicação do marxismo e do comunismo sob o ponto de vista organizativo, teórico e programático. Entretanto, a Liga dos Justos tinha-se transformado na Liga dos Comunistas, da qual a Gazeta Alemã-Bruxelense era uma espécie de órgão oficial.

Nos tempos que se seguiram a produção literária dos dois amigos foi intensa e significativa: na Primavera de 1845, Teses sobre Feurbach, Marx; Novembro, parte essencial de A Ideologia Alemã, Marx e Engels; Outubro-Novembro de 1847, Princípios Básicos do Comunismo, Engels; Dezembro de 1847 e Janeiro de 1848, O Manifesto, Marx e Engels. Estes textos não tiveram influência imediata, visto que só mais tarde viriam a ser amplamente divulgados. Mas é importante mencioná-los porque mostram até que ponto nestes anos o seu pensamento tinha evoluído, com consequências óbvias na sua avaliação e perspectivação dos movimentos sociais e políticos, na organização dos operários e... na intervenção na imprensa.

Intervir, esclarecer, resistir

Nos finais da década de 40 vivia-se em certas regiões da Alemanha uma situação conturbada. Os inimigos eram a grande burguesia e os grandes agrários, que impunham um verdadeiro regime feudal, e camadas mais reaccionárias da burguesia e da pequena burguesia. Colocava-se aos revolucionários a necessidade de uma política de unidade democrática, e Marx e os seus camaradas da Liga dos Comunistas, com implantação em muitas associações operárias, estão à frente da luta. Tornava-se necessário o aparecimento de um órgão de imprensa capaz de intervir e combater a imprensa burguesa, esclarecer os operários, ajudar à mobilização popular. É este o contexto do aparecimento em 31 de Maio de 1848 da Nova Gazeta Renana, com o significativo subtítulo Órgão da Democracia, o que revela os objectivos imediatos da luta e a procura das alianças necessárias.

A NGR dá-nos, além do mais, um exemplo da amizade, complementaridade e colaboração que existia entre Marx e Engels e que duraria toda a vida. Marx era o chefe de redacção, coadjuvado por Engels, que na sua ausência o substituía. Engels foi obrigado a exilar-se (Outubro de 1848 a Janeiro de 1849), enquanto entre Abril e Maio de 1849 Marx esteve ausente em trabalho político.

Na altura não era costume os textos publicados serem assinados. Mas a minuciosa investigação realizada por Trinh Van Thao3 (com base, aliás, em trabalhos de outros estudiosos, como Maximilien Rubel), permite-nos ter uma ideia do que cada um dos dois (sem contar, portanto, com os outros autores) escreveu na NGR: Marx – 117 artigos (46%), Engels 87 (34%) e ambos, em nome do jornal, 20% . Quanto aos temas, há um predomínio claro de Marx nos editoriais, na análise da política nacional e, ainda que menor, nos textos teóricos; Engels escreveu um pouco mais sobre política internacional e análise da actividade parlamentar; a predominância de Marx é absoluta nos textos sobre economia, tal como o é a de Engels quer nas reportagens quer nas análises militares.4

Entretanto, a situação política agrava-se em todo o território alemão e em vários pontos surgem insurreições populares, com grande participação de operários e artesãos. Na província renana as tropas prussianas encontram forte resistência, mas a sua superioridade militar é esmagadora. Em Colónia, a NGR assume com coragem a resistência, e não só através das suas páginas. Engels recorda: «8 espingardas e 250 cartuchos na sala de redacção e os barretes vermelhos de jacobinos usados pelos compositores (tipógrafos) transformavam a nossa casa, aos olhos dos oficiais, numa fortaleza que não se deixa tomar por um simples golpe de mão».5 A 16 de Maio Marx e outros redactores são expulsos da Prússia, com o pretexto de serem estrangeiros; os restantes são vigiados e perseguidos. Toda esta situação implicava o fim do jornal. O último número dos 301 editados foi publicado a 19 de Maio de 1849. Engels: «Tivemos de entregar a nossa fortaleza, mas retirámos com armas e bagagens ao som do tambor e com a bandeira desfraldada do último número, vermelho.»6

Lénine viria mais tarde a caracterizar a NGR como «o melhor, insuperável órgão do proletariado».

_____________

Bibliografia

Para além das obras referidas nas notas recorremos principalmente às seguintes fontes: Engels.Biografia, Edições «Avante!» – Lisboa, Edições Progresso – Moscovo, 1986; Marx, Engels. Obras Escolhidas, Edições «Avante!» – Lisboa, Edições Progresso – Moscovo, Tomo 1, 1982.

1 Karl Marx. Biografia, Edições «Avante!» – Lisboa, Edições Progresso – Moscovo, 1983, p. 46.

2 Trinh Van Thao, Marx, Engels et le Journalisme Révolutionaire, Éditions Anthropos, 1978, Paris, 1.º vol., p. 149.

3 Trinh Van Thao, obra cit., 2.º vol., pp. 233-237.

4 Sobre este último aspecto, uma curiosidade biográfica: Marx ficou livre da tropa, enquanto Engels fez o serviço militar como bombardeiro; no regresso do exílio referido neste texto, ao passar por Elberfeld, onde havia uma revolta popular, interrompeu a viagem, improvisou uma milícia e entrou na cidade à frente de 400 operários armados.

5 Karl Marx.Biografia, ed. cit., p. 239.

6 Idem, p. 241.




 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: