- Edição Nº2319  -  10-5-2018

Dois séculos depois, o marxismo é mais actual do que nunca

PROJECTO O PCP comemorou no sábado, 5, em Penafiel, o segundo centenário do nascimento de Karl Marx num comício em que participou Jerónimo de Sousa. Em destaque esteve a actualidade do marxismo.

«Legado, intervenção, luta. Transformar o mundo», lia-se na imensa tela vermelha, com a imagem de Karl Marx, colocada à entrada do Pavilhão de Feiras e Exposições de Penafiel, onde se realizou o comício do PCP. Lá dentro, no átrio, funcionava uma banca onde se vendia o Avante!, a nova edição do Manifesto do Partido Comunista e outras obras, como Salário, Preço e Lucro, A Guerra Civil em França, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte e volumes de O Capital. A exposição patente no local, sobre a vida e a obra do revolucionário alemão, nascido nesse mesmo dia há 200 anos, destacava o legado revolucionário de Karl Marx e do seu companheiro e amigo Friedrich Engels, e a sua flagrante – e por vezes crescente – actualidade.

No palco impunha-se uma vez mais a grande imagem de Marx e o lema das comemorações. Ao centro, uma secretária antiga, desarrumada, onde o actor André Levy (do grupo Não Matem o Mensageiro) ressuscita Marx, num excerto da peça Marx na Baixa – adaptação do texto original de Howard Zinn Marx in Soho. Aí, o autor de O Capital é posto a comentar as notícias publicadas na imprensa portuguesa, nomeadamente estatísticas sobre desigualdades, e as suas impressões da Avenida da Liberdade, onde desempregados e mendigos convivem com o luxo e a opulência: «é a isto que chamam progresso?».

A todo o comprimento da sala, ao alto, duas enormes faixas com letras brancas. Numa estava inscrita a divisa final do Manifesto, «Proletários de todos os países, uni-vos!», com a qual os fundadores do socialismo científico apontaram o caminho a seguir para a superação revolucionária do capitalismo e a construção da nova sociedade; na outra destacava-se os que no Portugal do século XXI assumem a luta pelo projecto esboçado por Marx: «PCP – com os trabalhadores e o povo, democracia e socialismo».

À medida que se aproximava a hora do comício iam chegando dos vários concelhos do distrito do Porto, e para lá dele, os participantes. E foram centenas: homens, mulheres e jovens; operários, trabalhadores, intelectuais, estudantes. Todos unidos na homenagem ao revolucionário nascido em Trier, na Alemanha, a 5 de Maio de 1818, e, também, na determinação em prosseguir o combate pelos objectivos supremos que Marx magistralmente traçou.

Quando se deu início à sessão já a sala transbordava, com as centenas de cadeiras cheias e os espaços laterais totalmente preenchidos, assim como o átrio onde se encontravam a exposição e a banca. Mas não foi só o número de presentes a marcar o comício. O entusiasmo com que aquelas centenas de pessoas ali estiveram impressionou: do início ao fim, foram muitos os aplausos, os punhos cerrados, os vivas ao PCP, com o vigor característico das gentes do Norte – a provar, como sublinhou Lénine, que a revolução se faz com organização, sim, mas também com corações ardentes. Como aqueles que bateram fortes na tarde de sábado em Penafiel.

Desmontar os mecanismos da exploração

Na exposição evocativa do segundo centenário do nascimento de Karl Marx, que esteve patente, sábado, no Parque de Feiras e Exposições de Penafiel e que pode ser visitada em vários pontos do País, há um painel dedicado àquela que é considerada a «pedra angular» da teoria económica marxista, a mais-valia. Nela explica-se resumidamente a relação social entre o operário e o capitalista, na qual o primeiro só tem para vender a sua força de trabalho, que o outro compra durante um determinado período mediante o pagamento de um salário.

Ora, o que Marx constatou é que o operário trabalha parte desse tempo para receber o que acordou, trabalhando depois, gratuitamente, para o capitalista. Este trabalho não pago – a mais-valia – é a fonte da riqueza da classe capitalista e é na sua apropriação que reside a exploração. Daí os capitalistas fazerem tudo para aumentar a mais-valia através do alargamento da duração da jornada de trabalho, da redução de salários, da intensificação do ritmo de trabalho ou da introdução de novas tecnologias.

Que esta questão está hoje mais actual do que nunca lembra-o a própria exposição, realçando que os avanços tecnológicos aplicados à produção permitem o impressionante aumento do sobretrabalho e, por acréscimo, dos lucros. Exemplificando, Jerónimo de Sousa realçou diversos sectores dominados pelos grandes grupos económicos: no sector dos produtos petrolíferos, controlado pela Galp, em oito horas de trabalho diário, 6,4 constituem trabalho não pago; na electricidade, em que predominam a EDP e a REN, nas mesmas oito horas basta ao trabalhador laborar 44 minutos para pagar o seu salário; nas telecomunicações, a diferença é de duas horas de trabalho necessário para seis de trabalho não pago.

Estes números são ainda mais escandalosos se comparados os salários pagos à generalidade dos trabalhadores portugueses e nestes sectores e empresas em particular.